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CABO VERDE E A MACA(R)RONÉSIA
Maria Estella Guedes

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Germano Almeida e José António Salvador, ambos escritores - o segundo é mais conhecido como jornalista, mas tem pelo menos um romance publicado - assinam "Cabo Verde", obra com chancela da Ilhéu Editores em Cabo Verde, e da Editorial Caminho em Portugal (2003). Para ilustração dos nossos leitores, está um pequeno directório no TriploV (links em baixo) com fragmentos do texto e algumas fotografias, citados do livro.

O facto de ser uma dupla de artistas a dar corpo ao volume, profusamente ilustrado com fotografias de J.A. Salvador, decide logo à partida o ponto de vista e a audiência que se visa cativar com o assunto. Ou seja, a obra é em primeiro lugar um objecto de fruição, criadora de elos afectivos entre a gente cabo-verdiana e quantos às ilhas estão vinculados, como é o meu caso, que conheço algumas ilhas, a de S. Vicente desde a infância, e durante muitos anos tive cabo-verdianos por amigos e colegas de escola e de liceu, em Bissau. O crioulo não me é estranho, e posso até confessar, em língua macarrónica, já que estamos no patamar do sentimento, que nha primêr cretcheu foi um guineense de mãe cabo-verdiana.

O bom nível da obra, sem desapreço pela pesquisa histórica a que teve de submeter-se o autor do texto, decorre do afecto: dele, Germano Almeida, um cabo-verdiano que ama a sua terra, ou o seu chão, no crioulo da Guiné-Bissau, e de José A. Salvador, um apaixonado das ilhas, que as visita regularmente, e que aliás recordo ter recebido há uns anos um prémio de jornalismo por uma reportagem sobre Cabo Verde. O seu papel neste livro é só como fotógrafo; o que ele fotografou e o modo como fotografou indiciam a ligação amorosa com as figuras humanas, paisagens e motivos urbanos, e o objectivo estético de tanta imagem sedutora. A informação histórica e a crítica social e política não deixam no entanto de desempenhar o seu papel na transmissão do conhecimento acerca de um país pobre de bens materiais, mas afortunado noutros domínios - literatura e música, por exemplo -, em que a bondade e ternura dos habitantes são tão impressionantes como a majestade das suas rochas vulcânicas.

Germano Almeida conta a história das ilhas, uma por uma, desde a descoberta por Cadamosto. Não pode esquecer-se dos mais graves problemas do arquipélago, as crises, longos períodos de seca a causarem no passado um número assustador de óbitos por inanição, principal motivo pelo qual o povoamento das ilhas foi difícil, e tardio em algumas. Também não esquece o drama da escravatura, que teve no arquipélago um dos centros de tráfico, e isto muito para além das datas em que oficialmente fora abolida.

O autor sabe ou suspeita que Portugal não foi só responsável por ter deixado morrer à fome uma tal quantidade de gente que, no princípio do século XX, intelectuais como Loff consideraram extermínio deliberado esse desleixo e comentaram que o arquipélago, por extrema falta de recursos, nunca devia ter sido colonizado, mas sabe também que o mesmo Portugal tentou tudo para criar condições de sobrevivência aos colonos. E todas as experiências falharam: falhou a introdução do gato-almiscarado (Viverra zibetha), produtor do zibete, um perfume apreciadíssimo nas cortes europeias, falhou a tentativa de plantação de pinheiros, não resistiu à exploração o recurso da urzela, líquene exportado para a Holanda e outros países da Europa para extracção de tintas usadas na indústria de tecidos, falhou a esperança de achar quantidade comercializável de salitre nativo na ilha do Fogo, falharam as tentativas de João da Silva Feijó para implantar as tecnologias do tempo relativas à produção de anil, quase tudo experiências empreendidas por Domingos Vandelli, no século XVIII.

E porque as ilhas são paupérrimas e a vida ali difícil, apesar de a independência ter gerado uma política que não deixa morrer hoje ninguém à fome - eis uma informação que colhi no livro com muito alívio - Germano Almeida interroga-se, com toda a razão, acerca das intenções que estiveram na origem da formação de vários topónimos, entre eles o de "Cabo Verde", aplicado a ilhas áridas, onde não quase chove, e o de "Macaronésia", a que usualmente se atribui o significado de "ilhas afortunadas". O autor suspeita que há nestes termos uma gozação com a desgraça dos cabo-verdianos, e eu tenho a certeza disso, mas só no que toca à primeira parte do segundo enunciado: o termo "Macaronésia" faz parte de uma paródia, mas não tem por fim rir dos habitantes. Olhe para a imagem em baixo e tente descobrir o que representa, eu já explico o que é.


Há uma história secreta das ilhas - ilhas várias, como as Baleares (1), as Mascarenhas (2), as Canárias, e não apenas as de Cabo Verde - cujo véu tenho tentado levantar aos poucos nos meus trabalhos de investigação sobre textos de História Natural (a maior parte deles em linha no TriploV, sob o título geral "As gralhas"). "Macaronésia" é um vocábulo que nem aparece nos dicionários e enciclopédias, está confinado às Ciências Naturais, em cujos textos identifica uma unidade biogeográfica, isto é, diferentes regiões agrupadas em uma só, devido às afinidades de fauna e flora.

Atribui-se a Webb e Berthelot a criação dessa designação, numa obra de difícil acesso, em vários volumes, que só conheço fragmentariamente - Histoire Naturelle des Iles Canaries, publicada em Paris a partir de 1836. A consulta é difícil apesar de a obra estar na Internet, num site do Projecto Humboldt (Instituto Max Planck para a História das Ciências). A imagem acima é a de uma folha do livro - admire-a em tamanho natural em

http://humboldt.mpiwg-berlin.mpg.de/webb_histo_fr_01_1844-Lise/HTML_en/HMP_0005.html

Vem no volume II (2), sobre Zoologia, nos "Prelims". Ora bem: parte das páginas está virada ao contrário, efeito espelho, ou seja, alusão ao duplo. E essa que recolhi mostra um riso satírico na dobra do papel que contém um selo real. Este tipo de procedimentos, cuja motivação varia tanto como quem os toma, faz parte daquilo a que chamo gralhas, um código de alerta no texto científico. O maior problema do livro, que só o conheço na parte dos répteis, vem de a descrição do lagarto canarino, Lacerta Galloti, não corresponder nem à quantidade de subespécies da actual Gallotia, nem às dimensões que celebrizaram a primeira espécie descrita como gigante, uns sessenta anos após as explorações de Webb e Berthelot. O autor da descrição da normal Lacerta Galloti é Paul Gervais, conservador do Museu de Paris que garantiu a Bocage que o crânio de lagarto descrito por Cuvier como sendo de Lacerta scincoides, da Austrália, realmente era o crânio do Macroscincus coctei de Cabo Verde. Temos um apontamento sobre a Gallotia simonyi no Zoo_Ilógico (http://www.triplov.com/zoo_ilogico/herpeto/FrameSet.htm), acompanhado por uma gravura do famoso lagarto negro. Veja ali o que Webb e Berthelot perderam ou quem sabe se plantaram nas Canárias, daí que a sua obra esteja hoje na Internet com umas páginas de costas voltadas para a leitura, e outras rindo burlescamente.

Webb e Berthelot, em cuja obra ainda não consegui ver a referência em questão à Macaronésia, teriam incluído nela, além dos arquipélagos de Cabo Verde, Canárias, Madeira e Açores, uns enclaves no sul da Europa e na região ocidental Norte de África. Ora, se a Macaronésia é constituída por faixas continentais, não faz sentido entender a terminação da palavra como provindo de nesos - ilha, em grego -, à maneira de Indonésia. A origem do vocábulo é outra. Ou há elementos da fauna da Insulíndia introduzidos nas ilhas africanas? No Museu de História Natural de Londres existe o tipo de uma espécie de osga, Tarentola borneensis, oriunda de Bornéu, que recentemente foi identificado como sendo um exemplar da ex-Tarentola gigas de Cabo Verde.

E que artificialíssima unidade é essa, que torna semelhantes os diversos pontos de tal região? Que afinidade existe entre a Andaluzia e Cabo Verde, entre os Açores e Marrocos, ou entre as Canárias e a Madeira? Se existe, deve-se às introduções de espécies e híbridos levadas a cabo pelos naturalistas, como tenho vindo a escrever. Mas como as introduções se verificaram muito mais amplamente do que nas regiões em causa, é caso para dizer que todo o planeta é neste momento macarrónico.

O texto científico, e em especial o de História Natural, por incluir nomenclatura em várias línguas, uma delas o latim, é por definição macarónico, sem necessidade de duplo "r". O duplo apenas reforça os duplos caracteres dos híbridos. Aliás não existe uma nomenclatura, sim várias, cuja pureza linguística é muitas vezes manchada pelas gralhas voluntárias: a científica, que obriga ao uso de binómio latinizado (independentemente da origem grega ou outra dos nomes de género e espécie), seja exemplo Macroscincus coctei; a dita vernácula, usada pelo povo, e que frequentemente nada tem de popular, como a correspondente à espécie em cima, usada por Fernando Frade: "lagarto-gigante-herbívoro-de-cabo-verde" (tanto-traço-de-união-serve-para-segurar-os-caracteres-dos-híbridos, que às vezes nem no álcool se fixam...); e há uma outra nomenclatura, intermediária, de largo emprego entre os cientistas, mais híbrida ainda que as precedentes, como é o caso de referir os animais pelo nome da família a que pertencem, num nível de língua nem popular nem científico: escincídeo, ainda para denominar o lagarto de Cabo Verde. Escincídeos (Scincidae) é palavra estranha, mas já o são menos os termos decápodes/decápodos, octópodes/octópodos, pantópodes/pantópodos, etc.. Quem sabe o que são os discoglossídeos (Discoglossidae), os quioglossídeos (Quioglossidae...), os geckonídeos/geconídeos (Geckonidae/Gecconidae)? Ou mesmo os herpetos? Só os naturalistas, e só os da especialidade, o que para o caso não interessa, pretendo apenas mostrar o que é um híbrido linguístico ou um texto sobre a Macarronésia.

Toda esta macarrónea é pícara, Germano Almeida tem razão em suspeitar da Macaronésia, mas a paródia é inter pares, corre em sociedade secreta, só por acaso aleija quem está de fora, como a mim já aconteceu centenas de vezes, exemplo das "Memórias do lagarto caboverdiano", o Macroscincus coctei, cuja leitura submeto agora ao gáudio geral, para servir de exemplo aos incautos (link em baixo).

A tradição da literatura macarrónica remonta a tempos antigos e está muito ligada às universidades, por nelas ter sido obrigatório o uso do latim, mesmo fora das aulas. Daí que "O palito métrico", ou "Macarrónea latino-portuguesa", a nossa mais conhecida obra do género, tenha nascido na Universidade de Coimbra. Esta literatura é linguisticamente híbrida, mistura línguas, em especial o latim com a língua viva em que a obra é gerada. O seu mais célebre representante é Merlino Coccaio, O Cozinheiro, que no século XVI escreveu a "Opus Merlini Coccaii Macaronicorum". Esta obra macarónica ou macarrónica, cozinhado de macarrões, é própria da escrita naturalista, ferozmente gralhada, e muitas vezes de forma burlesca, por isso subjaz de certeza à criação do termo "Macaronésia". A mitologia das Ilhas Afortunadas, da Atlântida, etc., só serve para despistar. Tal como o acervo de piadas sobre os lagartos Macroscincus coctei, gigantes e adiposos, vivendo felizes em ilhéus desérticos, onde nada tinham para comer, mas que serviam de alimento aos homens, é uma imensa sátira a um governo colonialista que só tratou de tirar proveito do que a colónia podia dar, fazendo orelhas moucas aos pedidos de socorro, quando nas secas as pessoas morriam de fome às dezenas por dia.

O naturalista Francisco Newton conta ter tido por sustento só um punhado de farinha de mandioca, numa das crises, e o mesmo conta João da Silva Feijó, cuja trajectória nas ilhas, um século antes de Newton, foi muito mais acidentada e dramática ainda. É muito difícil aceitar que estas pessoas, testemunhas e vítimas da desgraça, pudessem sem qualquer forma de subversão acatar bovinamente as ordens de um distante governo que deles exigia o envio de exemplares bem preparados, representando sempre novas espécies para a ciência, e nada de calhaus todos iguais, como Martinho de Mello e Castro censurou a Feijó, quando os desgraçados nem dinheiro tinham para comer, quanto mais para comprar álcool para a conservação dos animais.

Notas
(1) Veja, no TriploV, o meu artigo sobre as Baleares, "O duplo no texto do naturalista", em http://triplov.com/coloquio_05/guedes.htm .
(2) Leia a história do Dodó em http://triplov.com/dodo/ , contada por Leguat, Nuno Marques Peiriço e por mim.
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