REVISTA TRIPLOV
de Artes, Religiões e Ciências

ISSN 2182-147X
NOVA SÉRIE

 

 

 

 

 

 

EDUARDO AROSO::::::

Figueiró dos Vinhos e o Portugal perene e sempre renascente

Creio no Portugal outro que não o absurdo que nos apresentam diariamente à hora marcada.

Creio no Portugal resistente a muita coisa oficial, que, sofrendo vagas à maneira de forte detergente, não pode ser totalmente apagado nas belas incrustações do vernáculo que ainda definem as veias das nossas gentes.

Creio na absoluta necessidade de substituir no nosso país o que de mais existe de cimento por aquilo que de menos existe que é o pensamento.

Por isso é urgente reforçar o nosso sistema imunitário contra agressões impunes que afectarão não só esta, mas futuras gerações. Assim, gritemos à nossa consciência como um pai faria a um filho prestes a cair num poço!

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De mais portugalidade que mera cidadania, invocações ao interior de cada português que se preza, dir-se-ia em jeito de credo, servem estas palavras para manifestar o meu regozijo pelo panorama natural,  e muito particularmente humano, que observei numa vila da chamada Zona do Pinhal, Figueiró dos Vinhos, onde a sensibilidade pulsa ainda como a seiva do «Maio, maduro Maio» (como diria o poeta-cantor José Afonso), tendo como impulsionadores os seus autarcas e outros colaboradores.

A convite do amigo e escritor Delmar Domingos de Carvalho, que amavelmente me convidara para apresentar alguns livros seus, desloquei-me à terra do pintor José Malhoa (1855-1933), onde faleceu e viveu parte da sua vida. Vila de um – permita-se-me a expressão - bucolismo já modernizado, bem organizado e acarinhado, culminando no seu belo e vetusto jardim.

Ao chegar a Figueiró, fui logo atravessado por este pensamento: não é de estranhar que um pintor como Malhoa, amante da natureza, tenha sido atraído a esta terra. Minutos antes, ainda no automóvel, como numa encruzilhada do destino, surgia-me também a lembrança do egrégio D. Nuno Álvares Pereira, nascido não muito longe de Figueiró dos Vinhos, avatar da História de Portugal, que vislumbrou, em hora difícil, a nossa encruzilhada história de 1385.

Chegado à Casa Municipal da Cultura, naquela hora da tarde de sábado, 21 de Maio, fui surpreendido por um cartaz que dizia «Clube Mozart». Do interior de uma sala desprendiam-se sons, diria um “alfabeto musical” muito bem soletrado por sinal; depois algumas crianças de olhos cristalinos que saíam, tão cristalinos como cristalina é a música desse génio que pertence a todo o mundo. Ainda antes da sessão de apresentação dos livros, fui inteirado do muito que se faz nesta localidade. E a minha pressão arterial, acendendo o meu regozijo como emoção, ia subindo, de tal modo que não tomei café antes da sessão. E ia pensando também no muito que existe no Portugal desconhecido do público em geral e dos responsáveis da política central.  Falta centrifugar Portugal. Em vários planos. Mas é no seio do povo que se deve começar, não permitindo resíduos, de modo que o sumo saia limpo! E sobretudo de resíduos ditos “civilizacionais” que já vimos que só podem atrapalhar a vida. Crianças, jovens e adultos desta comunidade, perante a compulsiva massa sonora de muitos decibéis, dada quase sempre contra a nossa vontade, e que nos atordoa em qualquer lado - onde se come, onde se compra, onde se passeia, em qualquer canto -, crianças, jovens e adultos desta localidade, dizia eu, têm no acolhedor e desperto ambiente bucólico de Figueiró dos Vinhos a possibilidade de contactar outro mundo da música e consequente da cultura.

 O convite que aqui deixo é elucidativo do que nesta terra se faz, do que se poderá levar a cabo, porventura daquilo que está a ser sonhado, ou de roteiros já traçados. Decerto que os pinheiros do «plantador de naus a haver» que é D. Dinis, tal como nos fala o poema de Fernando Pessoa, não se limitam apenas ao do pinhal de Leiria, mas a todos os pinheirais onde o rumor do sonho do coração do Povo ainda ondula.

«O Presidente da Câmara Municipal de Figueiró dos Vinhos, Eng, Rui Manuel de Almeida e Silva, e o Director do Conservatório de Música e Artes do Espectáculo, Dr. André Cameira, têm o prazer de convidar V. Exa. a assistir à 3ª sessão do CLUBE MOZART, dedicada ao tema “Figueiró, a «Viena» da zona do Pinhal – a excelência na formação de públicos, a ter lugar na Casa Municipal da Cultura/Clube Figueiroense, no dia 28 de Maio, pelas 19 h 00.

Esta sessão contará com a presença do menino-prodígio Wolfgang Amadeus Mozart, acompanhado de seu pai, em viagem integrada numa visita pelas casas reais europeias. Orador: Maestro José Soares. Entrada Livre. A sua presença é um contributo à Cultura».

23/05/2011

Eduardo Aroso

 

Eduardo Aroso nasceu em 1952, em Coimbra. Professor de Educação Musical, em cuja actividade se reparte pela didáctica da música e da composição, tendo feito, durante alguns anos, formação de professores do 1º ciclo do ensino básico. Foi regente do Coro de Professores de Coimbra e co-fundador da Academia Monteverdi e da Tertúlia do Fado de Coimbra.

Na sua actividade literária contam-se as publicações: A Poesia vai à Escola (obra adquirida pela Fundação Calouste Gulbenkian), Poemas do Arquétipo, O Olhar da Serra, Habitante Sensível, A Quinta Nau e A Guitarra Portuguesa – Aproximações Histórico-Musicais à sua Génese e Fixação em Portugal (ensaio). Incluído em: Antologia Ibero-Americana de Homenagem a Rosalía de Castro, Antologia da Bienal de Poesia de Madrid (25 nações), Homenagem a Gerardo Diego, Homenagem a Claudio Rodríguez, Álamo (Salamanca 2002 – Ciudad Europea de la Cultura) e A Jeito de Homenagem a Eugénio de Andrade (antologia incluindo mais de 200 poetas do mundo hispânico). Colaborações: Revista de Poesia Álamo (Salamanca), EL Pregonero (Madrid), S. Paulo Destaque (S. Paulo), Artes & Artes (Lisboa), Teoremas de Filosofa (Porto). Co-fundador do Gresfoz - Grupo de Estudos Figueira da Foz – 1983, Co-subscritor para a Fundação da Academia Ibero-Americana de Letras (Madrid); 1987.

Na esfera da filosofia e do pensamento português, reconhece na chamada Escola Portuense, e nos diversos círculos de discípulos ao longo do tempo, a via para uma autêntica Tradição Portuguesa que é a de ser universal. De Agostinho da Silva - com quem partilhou um intenso convívio epistolar - à companhia actual dos pensadores António Telmo, Pinharanda Gomes, Carlos Aurélio, Joaquim Domingues, até às gerações mais novas, onde se destaca Pedro Sinde, vem participando em vários encontros e publicações. Cultiva o autodidactismo como a mais salutar actividade quotidiana.

 
 

 




 



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