REVISTA TRIPLOV
de Artes, Religiões e Ciências

ISSN 2182-147X
NOVA SÉRIE

 

 

 

 

EDUARDO AROSO

Três poemas de Natal
À memória de José Ledesma Criado e em amizade com outros dois poetas:
António Salvado e Alfredo Pérez Alencart.

 

           

                        1

Renovar a carne

Para que não seja sempre

A mesma limitação.

Quero-a ágil

E que me responda como o vento.

Todo o momento é frágil

Até que as pedras sejam todas luz.

Renovar a carne

É escutar pela noite dentro

A esperança das velhas profecias

E o vigor de semear hossanas,

Boa-nova das madrugadas,

Salmo dos dias.

                       2 

Há um berço universal

No frio carinhoso do solstício de Dezembro.

Astros e estrelas: pirilampos da Criação!

E nem as trombetas dissonantes

Que apupam este mundo imundo,

Os podem assustar.

A obstetrícia rodeia incessante

A gestação divina que ultrapassa

Além das nove luas

Aquele que nasce – sempre disposto a nascer –

Dissipando a morte, libertando mais

Que a abolição da escravatura.

                            3 

Deus não desce,

Pois nós é que temos de subir…

E o deserto existe

Para que a água sacramentada

Na areia seja salvação.

Sei que alguém gostaria

De ter estrelas na mão

E livrar-se

Do exercício benéfico do longínquo.

A sapiência enrola-se à maneira do caduceu

No bordão do peregrino.

 

Eduardo Aroso

Natal, 2014

Eduardo Aroso nasceu em 1952, em Coimbra. Professor de Educação Musical, em cuja actividade se reparte pela didáctica da música e da composição, tendo feito, durante alguns anos, formação de professores do 1º ciclo do ensino básico. Foi regente do Coro de Professores de Coimbra e co-fundador da Academia Monteverdi e da Tertúlia do Fado de Coimbra.

Na sua actividade literária contam-se as publicações: A Poesia vai à Escola (obra adquirida pela Fundação Calouste Gulbenkian), Poemas do Arquétipo, O Olhar da Serra, Habitante Sensível, A Quinta Nau e A Guitarra Portuguesa – Aproximações Histórico-Musicais à sua Génese e Fixação em Portugal (ensaio). Incluído em: Antologia Ibero-Americana de Homenagem a Rosalía de Castro, Antologia da Bienal de Poesia de Madrid (25 nações), Homenagem a Gerardo Diego, Homenagem a Claudio Rodríguez, Álamo (Salamanca 2002 – Ciudad Europea de la Cultura) e A Jeito de Homenagem a Eugénio de Andrade (antologia incluindo mais de 200 poetas do mundo hispânico). Colaborações: Revista de Poesia Álamo (Salamanca), EL Pregonero (Madrid), S. Paulo Destaque (S. Paulo), Artes & Artes (Lisboa), Teoremas de Filosofa (Porto). Co-fundador do Gresfoz - Grupo de Estudos Figueira da Foz – 1983, Co-subscritor para a Fundação da Academia Ibero-Americana de Letras (Madrid); 1987.

Na esfera da filosofia e do pensamento português, reconhece na chamada Escola Portuense, e nos diversos círculos de discípulos ao longo do tempo, a via para uma autêntica Tradição Portuguesa que é a de ser universal. De Agostinho da Silva - com quem partilhou um intenso convívio epistolar - à companhia actual dos pensadores António Telmo, Pinharanda Gomes, Carlos Aurélio, Joaquim Domingues, até às gerações mais novas, onde se destaca Pedro Sinde, vem participando em vários encontros e publicações. Cultiva o autodidactismo como a mais salutar actividade quotidiana.

 
 

 




 



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