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Nelson de Oliveira entrevista Maria Estela Guedes
para tese de doutorado
Nelson de Oliveira nasceu em 1966.
Escritor e doutorando em Letras pela
Universidade de São Paulo,
publicou mais de vinte livros de ficção para jovens e adultos,
além de duas coletâneas de ensaios sobre literatura.

No início de 2006, ao parar para pensar sobre o rumo que eu daria à minha vida acadêmica (sou aluno do doutorado da Universidade de São Paulo), percebi que em mim duas necessidades se sobrepunham de maneira íntima: a de refletir sobre o sentido do sagrado no mundo contemporâneo e a de refletir sobre a poesia portuguesa contemporânea. Desde o início eu tinha bastante claro que não ia lidar com o sagrado consagrado pela tradição mística, esotérica e religiosa.

O sagrado que eu procuro é outro, menos óbvio, mais sinuoso. Freqüentemente ele atende pelo nome de “poesia” e pode ser flagrado longe das igrejas, das mesquitas e das sinagogas, no cotidiano de artistas e poetas. Como complemento à tese acadêmica, quero apresentar à banca examinadora um pequeno questionário (são apenas três perguntas) respondido por vários poetas portugueses contemporâneos das mais diferentes tendências.

Apesar de já ter opinião formada sobre vários dos tópicos que pretendo tratar em minha análise, penso que será muito enriquecedor ouvir os poetas, compreender suas inquietações, comparar suas opiniões com as minhas. Esse breve questionário servirá também para divulgar a obra desses autores ainda pouco conhecidos no Brasil.

Nelson de Oliveira
oliveira.e.cia@uol.com.br

1. No seu modo de ver, qual é a situação da poesia portuguesa contemporânea? Quais são suas peculiaridades em relação à poesia que está sendo feita hoje no resto do mundo?
 

Como não conheço toda a poesia actual, nem portuguesa nem estrangeira, vou guiar-me pela que edito no TriploV. O portal é um bom espelho, mais que bom mostruário, pois reúne poetas de várias nacionalidades, épocas e tendências. De notar que temos um vasto dossier sobre o Surrealismo, com participação de surrealistas actuais, oriundo sobretudo da América do Sul. Um lote desses textos, organizado por Floriano Martins (Brasil) e por mim, foi publicado na Atalaia-Intermundos (Revista do Centro Interdisciplinar da Universidade de Lisboa, nº 10-11, 2002). O facto revela uma dupla situação da poesia em geral, e portuguesa em particular, a um tempo globalizada e cosmopolita.

Outro exemplo de cosmopolitismo e globalização: no Natal pus em linha algo muito curioso, um poema de Casimiro de Brito, poeta português dos mais importantes e conhecidos, Foge, borboleta. O poema está a dar a volta ao mundo, através das traduções. Work in progress, é uma obra de construção gerundiva: começou por se apresentar como cartão de Boas Festas, mas logo a borboleta abriu as asas para voo mais alto e mais amplo. Vai-se metamorfoseando, vai aumentando as dimensões, o que me obriga a substituir periodicamente o texto. Na origem, o poema, um haiku, cingia-se a estes três versos:

Foge, borboleta!
Os homens aproximam-se,
os seus exércitos!

No momento em que escrevi este parágrafo, 2 de Janeiro de 2007, ia em 26 traduções: de Ban’ya Natsuishi, Ana Hatherly, Catherine Dumas, Monserrat Gibert, Tahar Bekri, Fábio Scoto, Teresa Salema, Corneliu Popa, Yao Jingming, Germain Droogenbroodt, Ana Maria Romero, Mateja Rozman, Giorgio Silfer, Jasmina Ilievska, Kornelijus Platelis, Eugène Chateau, Tanja Tarbuk, Ghiaumu Thiers, Entela Safeti-Kasi, Nguyên Hoàng Bao Viêt, Zlatko Krasni, Gueorgui Konstantinov, Zeki Ergas e Anni Sumari. Línguas representadas, além do Português: Japonês, Inglês, Francês, Espanhol, Árabe, Italiano, Alemão, Romeno, Chinês, Cantonês, Holandês, Catalão, Esloveno, Esperanto, Macedónio, Letão, Sranan Tongo, Croata, Corso, Albanês, Vietnamita, Sérvio, Búlgaro, Turco e Finlandês.

A nossa situação é central, como sempre foi. Portugal tem dos mais inspirados poetas, em todas as épocas. Não é preciso recuar ao século XX para invocar Fernando Pessoa, pois não tivemos só Pessoa nesse século. Mesmo ao lado dele, na revista Orpheu, há que lembrar ao menos Mário de Sá-Carneiro e Almada Negreiros, poetas a que estou ligada de modos diferentes, no segundo caso através do multimédia Almada, um nome de guerra, de Ernesto de Sousa. Na segunda metade do século XX, aparecem-nos dezenas de grandes líricos, uns que ainda vivem, e outros - Carlos de Oliveira, Eugénio de Andrade, Mário Cesariny, entre tantos - que, apesar de mortos, continuam a fazer parte da nossa contemporaneidade.

A nossa poesia é de alto nível, desde a consagrada à marginal e menos conhecida, como a de António Barahona, de Alberto Pimenta e de Alberto Augusto Miranda. Este, com o movimento da Incomunidade, dotado de editora homónima, traz a público um número considerável de artistas, alguns deles jovens poetas: Patrícia Lopes, António Aurelino Costa, António Cardoso Pinto, Alexandre Teixeira Mendes, Henrique Dória, Risoleta Pinto Pedro, Maria Azenha, Teresa Tudela e tantos outros.

Reparemos entretanto que a globalização, ou o facto de encontrarmos o mesmo objecto literário em qualquer parte do mundo, é gerada pelos meios de transporte e comunicação – Internet, no caso vertente – e pela sua correlata itinerância pelos caminhos planetários. Não há atrasos na audição mundial do ribombar das revoluções regionais – ou vice-versa…. O bater de asas de uma borboleta provoca um tufão nos seus antípodas, cujos incidentes imediatamente se divulgam à escala planetária (o que está longe de corresponder a toda a verdade, mas ilustra parte dela), sem que no caso a globalização se possa confundir com cultura de massa. Estamos a semear palavras poéticas por toda a superfície do planeta, mas o gesto Urbi et Orbi não é retribuído com a densidade de audiência que acorre à Praça de S. Pedro em dias de bênção.

A expressão “mesmo objecto literário” declara que existem relações de semelhança muito fortes entre as poesias que se praticam nos vários países. É natural, visto que hoje os poetas estão em contacto estreito, mais virtual do que presencial. Casimiro de Brito cultiva o haiku como qualquer japonês; em tradução para japonês, o que o distingue dos japoneses? Aos meus olhos, que não conhecem o genuíno haiku em japonês, nada. Aos olhos dos japoneses, ignoro. Interessa é que a nossa poesia é tão universal que nenhum preconceito se levanta a que escrevamos poemas tradicionais japoneses.

Anote-se, entretanto, que nem dois clones provenientes da mesma célula são iguais. Para não dizer que entre clone e clonado o problema da mesmidade não se levanta sequer, pois as diferenças entre “pai” e “filho” são abissais.

Anote-se também que a minimalidade do haiku tem espelho na arte minimal, sem que se possa falar de fenómenos de globalização ou de miscigenação cultural.

A poesia corre pela Internet, as referências intelectuais são as mesmas para todos, a começar pela própria Internet, que gera um léxico e comportamentos de que os artistas se apropriam, e a acabar nos filósofos. Das universidades da Patagónia às de Moscovo, das da Inglaterra às da África do Sul, todas promovem o conhecimento dos mesmos Aristóteles, dos mesmos Platão, dos mesmos Nietszche e dos mesmos Bachelard, Kuhn e Karl Popper. A função dos filósofos é a de tornarem o mundo inteligível através de discursos congruentes. Tudo isso passa para as poesias, tornando-as a mesma, à imagem e semelhança das repúblicas ou das monarquias, dos restaurantes à beira das auto-estradas portuguesas ou americanas, que são todos sensivelmente iguais.

Nada mais incaracterístico e globalizado do que as periferias das grandes cidades. Para achar singularidades próprias de cada uma é preciso perdermo-nos dentro do labirinto dos centros históricos. O que distingue Istambul do Rio de Janeiro inscreve-se aí, na memória histórica da pedra, e não na modernidade do betão armado.

É com alguma estranheza que vemos poetas chineses, filipinos ou argentinos beberem na mitologia greco-romana, se bem que a nós, europeus, já não cause estranheza nenhuma bebermos nas mitologias azteca, bosquímana ou hindu. Essa hibridação globalizadora entrou a galope na Europa com os hyppies, se bem que já o terreno estivesse preparado desde os Descobrimentos e desde as colonizações dos séculos XVIII e XIX.

Venho escrevendo “poesias”, porque é evidente que a poesia catalã é muito diversa da castelhana, e mesmo a poesia mirandesa (escrita em Mirandês, segunda língua oficial portuguesa) é diferente da portuguesa, por muito que os poetas tenham lido os mesmos autores, ou vivam em ambientes tecnológicos parecidos. O que as distingue é a língua, com a memória e a cultura próprias de cada sistema linguístico. A língua está para a poesia como a arquitectura para a cidade: ela é um favo de memória, a que o poeta acrescenta a dele.

Se baixarmos às peculiaridades de cada poeta, já teremos de entrar em análises que contemplem a riqueza e a diversidade das experiências de vida de cada um. Sobretudo a experiência do isolamento, aquela “solidão como unidade indissolúvel entre o existente e o seu existir”, como escreveu Emmanuel Levinas. Aí, no labirinto do “eu”, está o poder que desencadeia a singularidade irredutível de cada poeta. Simplesmente, no limite, a detecção das diferenças, ao implicar identificação do “eu”, exigiria técnicas de análise tão finas como as que usa a ciência, com os testes de ADN, ou a estatística, com os seus gráficos de frequência. Ora a análise demasiado fina, sobretudo nestes termos, afasta irremediavelmente a poesia da sua condição de mistério, de inefável, do pacto que mantém com a a-cientificidade do maravilhoso.

2. Em que ponto do panorama da poesia portuguesa contemporânea situa-se sua própria poesia? Com a obra de quais autores portugueses vivos sua poesia tem afinidade e com a obra de quais autores ela não tem nenhuma afinidade?

 

A minha maior produção é ensaística, em várias modalidades. Vejamos antes de mais o que considero a minha poesia, mesmo quando outros a classificaram como ficção: SO 2, assinado por Luna Levi, livro de poemas em verso com alguma prosa; Eco/Pedras Rolantes são versículos em prosa com algum verso; O Lagarto do Âmbar é uma narrativa em prosa cuja face poética ficou patente quando levado à cena por Alberto Lopes, como espectáculo de multimédia; o Ofício das Trevas é uma peça de teatro conduzida mais por um discurso poético do que por uma acção dramática; em 2005, publiquei a_maar_gato, conjunto de inequívocos poemas, mesmo os escritos em prosa; com publicação apenas na Internet está o Diário de Lilith, inequívoca poesia narrativa, assente em comentários a uma viagem de Lisboa até ao Peso da Régua, uma cidadezinha na margem do rio Douro. Não tenho livros unívocos, estilo raças puras. Todos são híbridos de ciência e magia, de ensaio e poema, de realidade e sonho.

Nos anos 70, quando comecei a escrever para os outros, o que eu lia eram os surrealistas e poetas de vanguarda, a começar por Luiz Pacheco, líder em Portugal de uma facção do Surrealismo, o Abjeccionismo, que, então e agora, só teve um representante, que eu saiba, o próprio Luiz Pacheco. Luiz Pacheco é prosador e não poeta, pelo menos poeta no sentido formal de quem escreve versos. Ao lado, lia o seu adversário favorito, nas contendas que animavam os jornais, o poeta Mário Cesariny de Vasconcelos, líder em Portugal do movimento desencadeado por André Breton. Lia Alberto Pimenta, outro trânsfuga (literalmente, neste caso, pois vivia exilado, na iminência de se naturalizar alemão) de uma literatura ortodoxa, em certos casos anti-poética, à força de se confundir com propaganda ideológica, em que cabiam realistas extemporâneos, neo-realistas, e alheios a movimentos estéticos, como Miguel Torga. Lia os dissidentes do neo-realismo, ou seja, os dissidentes do comunismo, aqueles que não aceitavam que a arte fosse instrumento de propaganda política. Lia aqueles cuja utopia revolucionária se localizava no interior da própria aventura poética, convencidos, e com razão, de que a revolução na poesia era já revolução política.

Em Abril de 1974 deu-se de facto a Revolução dos Cravos, sem batalhas, sem derramamento de sangue. No 1º de Maio desse ano as ruas de Lisboa encheram-se de gente que usava os cravos como símbolo da vitória da democracia sobre a ditadura, provando que, nesse instante de fulgor, foi a poesia que animou as ruas, e não a política.

Antes dos Cravos, lia então os poetas subversivos, os marginais, os não perfilháveis por grupos políticos ou sociais dominantes. Lia os eternos rebeldes a todos os sistemas. Daí que o meu primeiro texto tivesse vindo à luz numa publicação da & etc. (Jornal & etc., Lisboa, nº 20, 1974), editora que dava à estampa, pela mão de Vítor Silva Tavares, grande parte destes autores, entre os quais há a mencionar ainda Herberto Helder.

Com a Revolução dos Cravos, sobreveio uma reforma dos cursos na Universidade, que passaram a integrar matérias e autores que me aliciaram imenso e tenho continuado a ler: Freud, Jung, Georges Bataille, Gaston Bachelard, Mircea Eliade, em suma, autores que se ocupam da alma. De tais afinidades decorreu o meu destino e a minha aventura pessoal, mais recentemente hibridada com os Dominicanos, através de frei José Augusto Mourão, que por sinal também é poeta, e com outras instituições marcantes.

Os que não citei não são aqueles com os quais não sinto afinidades, pois as sinto com todos os que amo, desde D. Dinis a Herberto Helder, desde François Villon a Paul Éluard, desde Huidobro a Oscar Portela. Limito apenas o campo aos mais familiares.

Não me ocorrem autores com os quais não sinta afinidade nenhuma, a não ser com os que ainda não li, com os que não posso ler por não lhes conhecer a língua, ou com os que não quero ler, e estes devem ser a maior parte.

O meu lugar é o da modernidade que em Portugal tem a semente no Romantismo, as raízes na revista Orpheu, o tronco nos movimentos de vanguarda e os frutos no ciberespaço.

3. A poesia ainda pode atender às necessidades metafísicas, místicas e míticas do ser humano, neste momento em que tais necessidades ainda são prementes e as outras formas de satisfazê-las, as burocráticas instituições religiosas, encontram-se em evidente descrédito e decadência ?
 

As religiões e outras associações de indivíduos que se reúnem para praticar um qualquer rito, mais não fazem do que actualizar mitos, servindo-se para tal de textos poéticos.

Travando um pouco, devo esclarecer que, neste domínio da minha mente, o que reina é a dúvida e a insegurança, porque nele se trava uma batalha quase permanente entre o cepticismo e a esperança num poder sobre-humano que não nos deixe destruir irremediavelmente a Terra Prometida, única que temos, aquela em que vivemos.

Não creio em deuses, creio nos homens, e, em vez de crença e fé, prefiro falar de desejo. O desejo não entra em contradição com nada, a linguagem dos afectos é menos volúvel do que a da razão. Então digo: desejo Deus. E além disso, mais do que crer, tenho a absoluta certeza de que nos é impossível sobreviver sem o ritual, sem o sagrado, diversos da religião.

Há sacerdotes que praticam ritos à margem da religião. É o que acontece nas maçonarias, em que cada Ordem tem o seu rito. Existe um ideário, existem graus simbólicos, existem graus filosóficos, mas não uma doutrina. Não exerço, não sei se algum dia virei a exercer tal função, mas recebi investidura sacerdotal deste tipo. Por isso mesmo posso garantir que a poesia ainda supre essas necessidades metafísicas e místicas. Os ritos fundam-se em textos sagrados de origem vária, como os do Livro dos Mortos egípcio, pacificamente classificáveis como poemas. O Alcorão é grande poesia. Na Bíblia figuram poemas de extraordinária beleza, como o Apocalipse e o Cântico dos Cânticos. A poesia tem ainda lugar no espaço sagrado, por muito que ele se vá esvaziando de crentes. Um dia, se vier a exercer funções sacerdotais, certamente reverei o rito que me coube em sorte, o Rito Florestal, de maneira a incluir a minha própria poesia.

E cabe agora dizer o que entendo por poesia, pois em todos os meus livros está presente a peculiaridade que a identifica: o tempo e o espaço sagrados, a temática divina. O Ofício das Trevas, por exemplo, é uma cerimónia religiosa. Em Eco/Pedras Rolantes, usei deliberadamente o versículo, por ser a estrutura do Alcorão e da Bíblia. O livro está cheio de situações relativas à mitologia e à mística portuguesas. Em a_maar-gato figura uma oração à Árvore de Buda. Por aí adiante, em todo o poema há uma viagem iniciática, porque a poesia, seja novela ou teatro, cresce no solo da ligação ao divino. E nessa medida supre a fome de espírito, porque funciona como palavra de Deus.

Creio ter falado da poesia que não se mostra muito nas vitrinas das livrarias nem nas bancadas dos quiosques e super-mercados, da que publicamos em livro com dificuldade cada vez maior, e em tiragens cada vez mais pequenas, dessa que o comum das pessoas não lê nem tem apetência para ler, dessa, que, pelos vistos, a despeito de globalizada e cosmopolita, é criatura tão de élite que só os poetas a conhecem. Por isso é secreta, e ao ser secreta é arte sacra.

Maria Estela Guedes
Britiande, 5 de Janeiro de 2007

Maria Estela Guedes. Directora do TriploV. Membro da Associação Portuguesa de Escritores, da secção portuguesa da Associação Internacional de Críticos Literários, do Centro Interdisciplinar da Universidade de Lisboa e do Instituto São Tomás de Aquino. Alguns livros publicados: Herberto Helder, Poeta Obscuro; Eco/Pedras Rolantes; Mário de Sá-Carneiro; O Lagarto do Âmbar; a_maar_gato; Ofício das Trevas;
A Boba.

 

 

 


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