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Maria Estela Guedes
Digo sim à despenalização do aborto
"A vida é sagrada e um ser vivo inocente que não pediu para nascer
deve ser protegido e assumido pelos pais."
PARTIDO NACIONALISTA PORTUGUÊS/
BLOCO DA DIREITA PORTUGUESA

Todas as cadeias do mundo não chegariam para prender as mulheres que em alguma fase negra da sua vida recorreram a alguém para fazer um aborto, real ou imaginário. Mas, seja a gravidez real ou gerada pelo pânico, o resultado pode ser a morte da mulher. No meio do drama há um fulano ou sicrano que, em boa parte dos casos foge, por ser maior ainda o pânico dele que o dela, e um aglomerado de células que os partidários do não à despenalização invocam como sendo sagrado.

Eu sou uma pessoa do sagrado. Levanta-me problemas a sacralização da vida, pois é evidente que, a sacralizá-la, teríamos de incluir toda a biosfera, e não apenas as células de um organismo ainda informado, para não dizer que é sagrada também a vida da mãe, e que essa sacralidade não se invoca no problema do referendo. E esse pai que foge, tão fraco que quantas vezes nem é informado pela companheira do que se passa? Não será sagrada também a sua vida? A vida dos condenados à morte é profana? E que dizer da fina flor da mocidade que a política de tantos países empurra para a morte na guerra? São profanos, esses rapazes e raparigas que morrem ou voltam estropiados?

Bom, mas esses rapazes e raparigas sagrados vão para a guerra fazer matanças entre rapazes e raparigas sagrados ou profanos?

Não parece que este discurso seja consistente, embora, de um ponto de vista poético, ache eco musical e faça sentido a bela frase de que a vida é sagrada. E quem o diz? Eu, façamos de conta. E que autoridade ou direito tenho eu de discriminar a morte perante a vida, garantindo que a vida é sagrada mas que já a morte é profana? Cristo na cruz, ou Cristo morto nos braços da Pietá, é um ser sagrado ou profano?

E porquê é sagrada a vida? Que vida? Toda a biosfera, com todas as plantas e todos os animais? Ou só são sagrados, e só na Índia, a vaca, entre os animais, e a Ficus religiosa, entre as espécies vegetais?

Que dizer aos nossos óvulos, quando se derramam na menstruação, sem terem achado destino procriativo? São sagrados ou profanos? E os espermatozóides emitidos por tanto milhão de homem, sabe-se lá como e para onde, na cama com a mulher, na praia com a amante, etc., esses espermatozóides, que são vida e potentes para a gerar, também são sagrados? Deve o homem ir para a cadeia por os depositar num ânus masculino, num copo de laboratório de análises, enfim, etc..?

Não vou citar aquela famosa tirada de Georges Bataille, segundo a qual até o olho do cu é sagrado, porque parece que não precisamos de nos apoiar em argumentos de Magister dixit para concluirmos que, se sacralizarmos toda a biosfera - e resta saber se os geólogos não arrebitam cabelo para virem reclamar que os cristais crescem e que as rochas se desenvolvem, portanto também são vida - pois nesse caso a vida acaba, por todo o grão de areia, todo o frango de aviário e todo o pé de salsa se tornarem intocáveis.

Maria Estela Guedes. Membro da Associação Portuguesa de Escritores, da secção portuguesa da Associação Internacional de Críticos Literários, do Centro Interdisciplinar da Universidade de Lisboa e do Instituto São Tomás de Aquino. Directora do TriploV. Alguns livros publicados: Herberto Helder, Poeta Obscuro; Eco/Pedras Rolantes; Crime no Museu de Philosophia Natural; Mário de Sá-Carneiro; O Lagarto do Âmbar; a_maar_gato; Lápis de Carvão; Ofício das Trevas; A Boba.
   
   

 

 

 


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