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Maria Estela Guedes
"U23D": Chuva de letras

"U23D", como literalmente o título indica, é o registo de um concerto dos U2 em tecnologia digital, que permite, mediante o fornecimento de óculos especiais ao espectador, ver o filme em três dimensões.

O extracto abaixo, no YouTube e também no site oficial da banda, não dá ideia nenhuma da magnitude do espectáculo, que logo começou por ser imenso na representação ao vivo, em Buenos Aires, com um estádio de futebol apinhado de gente. O filme acrescenta-lhe a grandeza assustadora do público, o rumor que o público fornece como fundo às canções, o seu movimento ondulatório de levantar e baixar os braços. É emocionante como o rumor do oceano.

A grande parte dos efeitos especiais é conseguida com letras, palavras e curtas frases que formam cortinas ou palavras de ordem, e por vezes aparecem textos, caso de algumas alíneas da Carta dos Direitos do Homem. Impressionante é a chuva de letras no final, que lembra muito o experimentalismo da poesia visual nos anos 70 e 80, estabelecendo-se assim um contexto muito apelativo em que várias artes se dão as mãos, e a letra (lyrics) se autonomiza, descolando-se da música para funcionar como elemento das artes plásticas. Nem Bono nem os outros elementos da banda têm presença de actores, neste registo fílmico. Porém os efeitos, e sobretudo com letras, sim, são eles que conferem ao filme a sua dimensão propriamente fílmica, de obra da sétima arte, e não de simples registo de um concerto, por muito empolgante que seja a música e por muito que os quatro homens consigam dominar com ela os milhares de pessoas que os aclamam. Note-se entretanto que, independentemente da questão fílmica, vale a pena ir ao cinema por causa do concerto, ele é muito forte e vibrante.

É de esperar que passemos no futuro a ver todos os filmes em 3D, esta experiência, patrocinada pela National Geographic, assim o augura.

Maria Estela Guedes. Membro da Associação Portuguesa de Escritores, da secção portuguesa da Associação Internacional de Críticos Literários, do Centro Interdisciplinar da Universidade de Lisboa e do Instituto São Tomás de Aquino. Directora do TriploV. Alguns livros publicados: Herberto Helder, Poeta Obscuro; Eco/Pedras Rolantes; Crime no Museu de Philosophia Natural; Mário de Sá-Carneiro; A_maar_gato; Ofício das Trevas; À la Carbonara; Tríptico a solo. Espectáculos levados à cena: O Lagarto do Âmbar (Fundação Calouste Gulbenkian, 1987); A Boba (Teatro Experimental de Cascais, 2008).
   
   

 

 

 


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