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Maria Estela Guedes
Aldrabices à la plancha

Temos por aí uma crise económica a estalar, não sei e você também não sabe como resolvê-la, palpável no ordenado que se esfuma, naquilo que deixámos de comprar e, mais grave, nos novos pedintes que se abeiram de nós, tímidos, envergonhados, dos quais fugimos, vermelhos de mais vergonha ainda do que eles, fingindo não ter percebido a tentativa de abordagem.

Há gente a passar fome, gente que não tem dinheiro para pagar as contas, as contas são cada mês mais altas, e esperava-se, em tal situação, que ao menos houvesse algum decoro por parte desses políticos e politiqueiros imbecis que, nos meios de comunicação, a única coisa que sabem dizer é que os políticos são aldrabões. E que os economistas são aldrabões, e que mais aldrabões ainda são os jornalistas.

Falta o dinheiro mas abunda pelos vistos a conversa merdífera.

Se quem devia saber como acautelar os cidadãos, dizer alguma frase útil ou pertinente, solidária ao menos com a desgraça, só sabe apontar o dedo para si mesmo como o maior de todos os aldrabões - sim, estes tiros costumam acertar sempre no sapato de quem na mira tem o adversário - proponho greve ao discurso sobre a crise. Não ouçamos, desliguemos os aparelhos noticiadores, poupamos assim a energia e algum dinheiro.

Maria Estela Guedes. Membro da Associação Portuguesa de Escritores, da secção portuguesa da Associação Internacional de Críticos Literários, do Centro Interdisciplinar da Universidade de Lisboa e do Instituto São Tomás de Aquino. Directora do TriploV. Alguns livros publicados: Herberto Helder, Poeta Obscuro; Eco/Pedras Rolantes; Crime no Museu de Philosophia Natural; Mário de Sá-Carneiro; A_maar_gato; Ofício das Trevas; À la Carbonara; Tríptico a solo. Espectáculos levados à cena: O Lagarto do Âmbar (Fundação Calouste Gulbenkian, 1987); A Boba (Teatro Experimental de Cascais, 2008).
   
   

 

 

 


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