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Maria Estela Guedes

 Censura no TriploV

É pornográfico o quadro de Courbet? Não sei. É-me difícil, de resto, entender a palavra "pornográfico" numa dimensão moralista, afinal a mulher retratada podia ser eu. O que se mostra? Parte da genitalia feminina. Qual o problema? São os órgãos do amor e da procriação. Mostramos a língua, os olhos, grande parte do corpo. Porque há de ser obsceno o que tapamos?

Poria o problema de outra maneira: a pornografia é censurável? Porquê e por quem?

Incomoda-me que tenha havido censura no TriploV contra a minha vontade, mas cada colaborador é livre de querer ou não querer ficar debaixo do quadro de Courbet que figura na capa de um livro apreendido pela PSP de Braga (1), o que aliás traz à boca um sorriso por me lembrar do famoso conto de Luiz Pacheco, "O libertino passeia por Braga, a idolátrica, o seu esplendor" - idolátrica é ou era Braga, libertino era o autor. Pode ler o conto no TriploV, Luiz Pacheco já pertence ao número dos autores consagrados e reconhecidos pelas PSPs, governos e autarquias deste mundo (2). Acabo agorinha mesmo de receber a notícia de que o PCP de Setúbal homenageia o "Escritor maldito" no dia 26 deste mês, às 21:30 horas, na Biblioteca Municipal. Courbet, podem crer, também é um artista aceite em França e no mundo.

Bem, houve um colaborador que aceitou mal eu ter posto a referência ao seu artigo ao pé de uma das obras de arte do pintor realista Gustave Courbet, de resto uma colaboradora, que espero não mande mais nada para nós. Não são toleráveis as restrições à liberdade de criação. Courbet pintou-a, a Ela, a Criação. Se alguém se sente envergonhado pela pornografia dessa Criação, "Origem do Mundo", como lhe chamou o pintor, está a mais no TriploV.

Mas eu vou mesmo tirar a imagem do site, e deixar só um link para ela, pois esqueci-me de um pormenor importante: o TriploV está alojado num servidor americano, algures na Califórnia ou na Virgínia; ora eu estou obrigada por contrato a não pôr pornografia em linha. Mas Courbet é pornografia? - perguntais. Não sei, o problema é outro: se os americanos veem a imagem e a consideram pornografia, tiram o TriploV do ar.

Bem, vou pô-la aqui em miniatura, se alguém refilar, logo se vê. Quem quiser ver o quadro em maiores dimensões, experimente Wikipédia, por exemplo:
http://fr.wikipedia.org/wiki/L'Origine_du_monde . Se ainda quer maiorzinho, clique na imagenzita.

Courbet, "A Origem do Mundo" (1866).
Musée d'Orsay

Então ficamos assim: a censura existe, e no TriploV também. Havemos de sobreviver com isso.

Aproveito para dar o meu ponto de vista sobre o casamento dos homossexuais: de momento, essa ideia choca-me. É tão chocante como o quadro de Courbet. Mas um dia esse casamento será um facto, teremos de nos habituar a ele. Mesmo não vindo a ser um facto, é uma questão de hábito, de um clique no cérebro, e nós mudamos. Passamos a aceitar o que antes era inaceitável, porque compreendemos ou assimilámos a situação. A moral é um catavento, depende dos valores da classe dominante.

Quanto à pornografia, ela é própria do realismo, daí que muitos de nós consideremos pornográficas imagens, filmes ou textos demasiado apegados ao real, estabeleçam eles ou não alguma relação com a sexualidade. É a realidade, a sociedade em que vivemos, a sua hipocrisia, a sua venalidade, a sua redução dos valores ao sexo e ao dinheiro, que são pornográficos. Mais pornográfica que a pintura de Courbet é a reação de censura a ela.

Haverá maior hipocrisia do que censurar um resultado da estética realista, quando a maior parte das pessoas só reage a obras integradas nos cânones estéticos do realismo, e muito em particular do realismo do século XIX? É o mesmo que rejeitar a sopa cuja receita a todos damos e por isso todos conhecemos.

P.S. Entretanto a PSP devolveu os livros e reconheceu tercometido um erro.

(1) http://triplov.com/pintores/Courbet/index.htm

(2) http://www.triplov.com/luiz_pacheco/braga_01.html

Maria Estela Guedes. Membro da Associação Portuguesa de Escritores, da secção portuguesa da Associação Internacional de Críticos Literários, do Centro Interdisciplinar da Universidade de Lisboa e do Instituto São Tomás de Aquino. Directora do TriploV. Alguns livros publicados: Herberto Helder, Poeta Obscuro; Eco/Pedras Rolantes; Crime no Museu de Philosophia Natural; Mário de Sá-Carneiro; A_maar_gato; Ofício das Trevas; À la Carbonara; Tríptico a solo. Espectáculos levados à cena: O Lagarto do Âmbar (Fundação Calouste Gulbenkian, 1987); A Boba (Teatro Experimental de Cascais, 2008).

   
   

 

 

 


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