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Maria Estela Guedes
Edson Cruz entrevista Maria Estela Guedes em "Cronópios".
http://www.cronopios.com.br/site/internet.asp?id=3792

Edson Cruz - Como surgiu a idéia do sítio TriploV, qual era a ambição inicial e há quantos anos está no ar?

Meg - O projecto TriploV começou por ser um espaço de publicação dos meus trabalhos sobre os naturalistas. Porém dediquei-o a Ernesto de Sousa, um artista da vanguarda portuguesa, cineasta, crítico de arte, poeta, e sobretudo muito amigo, e isso deixou aberta a porta para quem quisesse entrar. Tem entrado muita gente, das artes, das letras, e mesmo das ciências, escrevendo sobretudo em português (Portugal e Brasil) e em castelhano (América Latina e alguns espanhóis). Portanto o TriploV, em sete anos de vida, ultrapassou tudo o que eu pudesse imaginar. Tenho a agradecer aos que me apoiaram, como o ISTA (Instituto S. Tomás de Aquino), Agulha (Floriano Martins e Claudio Willer), Magno Urbano, webdesigner e operador de sistema do TriploV, e aos colaboradores, que são já muitos.

 E.C. - Vejo que além da literatura e da cultura o TriploV tem uma atuação científica, também. Isso vem de sua experiência como pesquisadora no Centro Interdisciplinar de Ciência, Tecnologia e Sociedade, da Universidade de Lisboa?

Meg - A vertente científica do TriploV deve-se a eu pertencer ao CICTSUL, sim, e a ter sido funcionária do Museu de História Natural. A Miss Pimb, nossa observadora da Natureza, para seu enorme espanto, tem feedback de especialistas. Ela interessa-se sobretudo pela Herpetologia, ciência das cobras e lagartos.

E.C. - Conte-nos um pouco de sua trajetória como estudante e como escritora. Quais suas maiores e melhores influências?

Meg - Eu comecei por me assemelhar naturalmente a poetas como Herberto Helder, a dado passo é possível até que tenha havido imitação, hoje escrevo num registro diametralmente oposto ao dele, pelo menos na maior parte da minha poesia. Os meus últimos poemas são inéditos de várias maneiras, entre elas por serem de uma nitidez absoluta, como diria Fernando Pessoa, e também porque pela primeira vez falo das minhas experiências africanas. Eu vivi a adolescência em Bissau. As influencias são certamente muitas, mas eu não as destrinço, e estou certa de que podem vir com mais força de lugares não literários, como a pintura ou a música. Essas coisas vêem-se melhor do exterior e pelos olhos dos outros. Acho que nós nos criamos ao peito daqueles de que mais gostamos, mas quando já caminhamos pelo nosso pé, tentamos afastar-nos, para seguirmos o caminho pessoal. As minhas coordenadas não são apenas literárias, a minha poesia tem pelo meio outros caminhos, em especial um debate científico muito preciso: a questão do natural e do artificial. Eu defendo que já não existe Natureza, no sentido darwinista do termo.

4) Você acredita na Poesia como interlocução divina? Como ela se daria neste mundo tão cético e consumista?

Meg – Há vertentes na Poesia que entram no território do religioso ou vice-versa. Mas essas vertentes dão para abismos perigosos. Há quem viva na borda deles, ou sobreviva, pois não é fácil viver como poeta no meio de um shopping. Não falo de mim, mas quer no que me diz respeito quer no que diz respeito a outros, essas são as zonas em que calados dizemos mais, porque o silêncio é de ouro.

5) O que fazer para que a Palavra, ao invés de ser portadora da Verdade, não se torne apenas portadora de ideologia e outros males camuflados de Verdade?

Meg – A Verdade, com maiúscula, é fasquia muito alta. Não podemos escrever sob tanta pressão, não iríamos aguentar sem nos partirmos todos. A Poesia pode fluir sem necessidade de nos exercitarmos para ela como guerreiros antes de uma batalha. Se o médium for bom, o poeta não precisa de fazer nada. Pensemos em certas técnicas surrealistas, como a espírita e a da escrita automática: a Poesia faz o poeta, o poeta só tem de ficar quieto para ela passar.

6) Em sua opinião de leitora, qual o mais consistente prosador português e porquê?

Meg – Temos muito bons prosadores e muito bons poetas. Escolher um implica dar uma opinião. Não é que eu não arrisque formular julgamentos, simplesmente eles não correspondem a nenhuma verdade testável, apenas podem coincidir com algum consenso. Então, para ficar por um prosador actual, escolho Agustina Bessa Luís, que não é uma escritora muito perfeita, nem com grande capacidade de se transmutar, mas que me fascina pelo brilho da linguagem e pela imagem pouco banal que dá da mulher, sobretudo da mulher do Douro, que é também a minha terra natal. As personagens femininas de Agustina são poderosas, aguentam o mundo aos ombros, como Hércules, e também podem ser implacáveis.

7) Quais os poetas brasileiros que admira?

Meg – Os poetas brasileiros são muito mais numerosos que os portugueses. Eu gosto da maior parte deles, e agora, com o TriploV, estabeleci contacto com muitos das gerações mais novas. Sois bons poetas, como nós. Mas como se espera de mim um nome, vou dar um nome: Tomás António Gonzaga. Em breve o relerei à luz da questão da independência do Brasil, para os meus trabalhos sobre ciência. Ele foi colega dos naturalistas, em Coimbra e no Brasil. Vou ter a difícil tarefa de perceber onde, na “Marília de Dirceu”, aparecem informações políticas e formulações ideológicas. Nós não gostamos disso no presente, mas, se voltarmos os olhos para o passado, verificamos que os poetas são às vezes minas de ouro. E então a dificuldade muda de cambiante: é preciso que a informação transmitida nos versos de Tomás Gonzaga seja aceite pela comunidade científica do mesmo modo que é aceite a dos textos históricos e científicos. Não podemos admitir que a palavra dos poetas valha menos, apenas por se situar no campo da arte.

8) Como você encara esta reforma ortográfica que está vindo por aí? Parece que a recepção em Portugal não foi nada boa, não é?

Meg – As pessoas falam sem terem lido o Acordo, por isso imaginam que houve uma revolução ortográfica e que vamos passar a escrever de maneira futurista. Não é assim. As nossas alterações consistem em escrever à maneira dos brasileiros; as vossas alterações consistem em escreverdes à maneira dos portugueses. No geral, o assunto é de menor importância. No particular, as reações contra são de poder: os brasileiros não querem submeter-se aos portugueses, os portugueses não querem submeter-se aos brasileiros. Do ponto de vista literário, a mudança, embora insignificante, permite uma faze de gozo na experimentação. Esse gozo de escrever à brasileira está patente no mais carismático dos nossos poetas, Herberto Helder. A língua é um instrumento de amor, é isso o que ele deixa claro em “não some, que eu lhe procuro, e lhe boto”, em linha no TriploV: http://www.triplov.com/herberto_helder/Faca-Fogo/Poemas/nao-some.htm

Por mim, já comecei a escrever de acordo com o Acordo, isto é, já amo os brasileiros há muitos anos.

9) Quais suas expectativas em relação aos encontros na Bienal Internacional do Livro do Ceará?

Meg – Estamos a viver tempos terríveis, em que a falta de dinheiro é o menor dos males; o pior, é a falta de confiança nos políticos. Mas espero que a Bienal se estabeleça como um ponto importante de encontro entre escritores, editores e livreiros, e que facilite a divulgação da nossa arte no mundo. De outra parte, eu não conhecia o Ceará, gostei de conhecer e deixei na Internet marcas disso, pelo que a Bienal também deve ser encarada como um bom veículo de divulgação turística.

 

MARIA ESTELA GUEDES (1947). Escritora. Membro da Associação Portuguesa de Escritores (APE), do Instituto S. Tomás de Aquino (ISTA), e do Centro Interdisciplinar de Ciência, Tecnologia e Sociedade da Universidade de Lisboa (CICTSUL). Drige o TriploV (www.triplov.com), um portal multidisciplinar e multilingue, primacialmente dedicado ao estudo do Naturalismo e à divulgação de literaturas de língua portuguesa e espanhola. Co-organiza, com José Augusto Mourão, em nome do TriploV, do CICTSUL e do ISTA, um colóquio anual que envolve participantes de áreas diversas (artes, religiões, ciências, letras), “Discursos e Práticas Alquímicas”. Participou em vários programas de Rádio e Televisão. Tem publicadas várias centenas de títulos, em revistas e jornais. A maior parte da sua produção recente, e alguns textos antigos mais importantes, encontram-se em linha no TriploV. A sua actividade desdobra-se por diversas áreas: poesia, ficção, teatro, ensaio literário e sobre História, Crítica e Filosofia das Ciências. Também tem tido alguma participação em exposições colectivas de artes visuais, e colaborou recentemente no CDRom de música brasileira, "Brincos do Mar e o Infinito..." , de Mário Montaut & Floriano Martins, com participação especial de Ana Lee. Caucaia/Ceará, 2007. Dirige duas colecções de cadernos sobre temas do Naturalismo, “Lápis de Carvão” e “Naturarte”, na Apenas Livros Editora (Lisboa). Tem desenvolvido projectos de cooperação com colegas espanhóis do CSIC (Madrid) e de várias entidades científicas brasileiras. Mantém acordo de cooperação literária entre o TriploV e a revista electrónica “Agulha”, dirigida por Claudio Willer e Floriano Martins.

 estela@triplov.com

   
   

 

 

 


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