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Maria Estela Guedes
Herberto Helder e o novo Acordo Ortográfico

Rege-nos um novo protocolo ortográfico, e é inútil insistir nas concordâncias, discordâncias, argumentos a favor e contra: vamos aprender as novas regras, com vagares, pois as exceções devem ser muitas, e o meu sentimento ao grafar estes novos objetos verbais é de gozo. Pura fruição. Pena ainda não ter memorizado todas as mudanças, e pena terem sobrado duplicidades como António e Antônio, académico e acadêmico, etc., pois mais fácil seria varrer esses acentos, lembrando o uso passado de não acentuar esdrúxulas.

Fruição por várias razões, a primeira delas é termos uma novidade na literatura, e o novo, venha ele de dentro ou de fora dela, é sempre excitante.  A segunda razão é amorosa, erótica, ou mesmo sexual: o que existe de diferente agora na nossa ortografia e na dos outros países lusófonos são algumas normas brasileiras, e o que de novo existe agora na ortografia brasileira são algumas normas da ortografia portuguesa. Em suma: não há nada de novo debaixo do Sol, vamos só namorar um tiquinho os brasileiros e os brasileiros vão namorar-nos a nós.

Ora eu adoro o Brasil. Devo muito aos brasileiros. Não precisei de novo acordo para abrasileirar, já o fiz há mais de vinte anos, em “Eco / Pedras Rolantes” e “O lagarto do âmbar”, por exemplo. E fui além da grafia, de resto a grafia é o que existe de mais ligeiro numa língua, não tem importância por aí além. Na pior das hipóteses, cometem-se uns erros de ortografia, nada que nos leve à cadeia nem ao hospital. Ninguém tem o dicionário na cabeça. Todos cometemos erros. Abrasileirar mais do que graficamente dá muito mais gozo, e isso acontece quando se incorpora a semântica, o léxico e estereótipos frásicos.

Herberto Helder deve ter-se irritado muito com o debate sobre o Acordo, porque a matéria em discussão é insignificante, de um lado; de outro, seja ou não necessário o Acordo (não sei ou já não me lembro de qual o seu objetivo, supondo que alguém tenha conseguido mostrar a sua importância – a importância do objetivo e não a do Acordo), enfim, onde ia eu? – cometamos uma transgressãozita, deixando a frase inacabada.

Ah, sim, Herberto Helder sempre mexeu a língua mais do que as normas consentem, e até erros tem nos livros – quem nunca pecou, que atire a primeira pedra! -, por isso uma discussão sobre a fatiota da língua, quando uma pessoa a despe para se meter na cama com ela, etc., se inspira, é para mostrar o quanto se pode transgredir. Ele sempre o fez, porém agora, numa altura em que vamos passar a grafar algumas palavras segundo normas brasilis, ele aparece em cena – ao fim de anos de silêncio – com um texto em que bem se vê que a língua é um órgão sexual além de meio de comunicação e de matéria-prima da poesia. É o que pode ver no poema "não some, que eu lhe procuro, e lhe boto", oriundo de A faca não corta o fogo (link em baixo).

Creio que dispensa mais comentários, exceto que a maior prova de não existir malefício nos acordos ortográficos (pelo contrário) vem-nos de um grande poeta. Se  os grandes escritores portugueses, além de aceitarem a reforma, vão ainda além dela, é porque viram que isso é bom - para quase citar o Génesis.

Pena não se fazer também um Acordo Económico; mesmo suavezinho e com as duplicidades do Ortográfico, já era animador.

Sim, sim, dá gozo pra caramba botar vestido novo no corpo da pirua. Daqui a um ano, livrinho que não use as novas grafias, vai ficar enrugado e anacrónico. Arcaísmos, senhores, velharias!

Não some, que eu lhe procuro, e lhe boto

Maria Estela Guedes. Membro da Associação Portuguesa de Escritores, da secção portuguesa da Associação Internacional de Críticos Literários, do Centro Interdisciplinar da Universidade de Lisboa e do Instituto São Tomás de Aquino. Directora do TriploV. Alguns livros publicados: Herberto Helder, Poeta Obscuro; Eco/Pedras Rolantes; Crime no Museu de Philosophia Natural; Mário de Sá-Carneiro; A_maar_gato; Ofício das Trevas; À la Carbonara; Tríptico a solo. Espectáculos levados à cena: O Lagarto do Âmbar (Fundação Calouste Gulbenkian, 1987); A Boba (Teatro Experimental de Cascais, 2008).

   
   

 

 

 


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