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Maria Estela Guedes
Marinho Pinto e o valor da palavra

Marinho Pinto, bastonário da Ordem dos Advogados, é uma pessoa que os portugueses respeitam, pela coragem com que vai denunciando calamidades públicas, esclarecendo as mentes e dizendo verdades. Isto é  importante, porque a maior crise que suportamos não é a económica, essa ainda nem se fez sentir em muitas carteiras, a maior crise é o descrédito geral e abissal em que está mergulhada a palavra. A palavra dos homens que deviam ser de palavra e afinal mentem mais do que quaisquer outros. Quando a palavra perde toda a credibilidade, porque os valores de uma sociedade passam a ser os do "Salve-se quem puder!", o cepticismo, a falta de esperança, o desespero e a revolta, tudo isso constitui uma crise muito mais profunda do que a bancarrota.

A falta de credibilidade da palavra, a sua perda de peso e consistência, não afetam só o discurso dos que nos governam, afetam todos os que por ofício a usam, recriam e criam: jornalistas, escritores, advogados, professores, líderes religiosos, tantos mais. Não acreditamos em ninguém, a corrupção é demasiado grande e generalizada, já fomos excessivamente enganados, desde a cátedra até ao púlpito, por todos os papagaios que sentenciam dos poleiros.

Todos temos responsabilidades pelo estado de degradação das coisas públicas. Nós temos ainda direito a voto, e votamos mal, a alguma liberdade de expressão, e temos medo de falar, temos direito à rebelião, em última instância, mas havemos de preferir o sofá diante da televisão.

Marinho Pinto é um homem que tem suportado, a bem dizer sozinho, o papel de reclamar em voz alta por um retorno à decência neste país corrompido por líderes cada vez mais medíocres e venais. A palavra com que ele fala é válida, pesa nela a crença que depositamos na sua honorabilidade, e deste jogo de relações brota com força a esperança numa mudança para melhor.

Os cidadãos deste país estão desprotegidos, Marinho Pinto outra coisa não tem feito senão tentar proteger-nos. E ele? Usará colete à prova de balas? Acima de Marinho Pinto há poderes desejosos de lhe fechar a boca. Quando isso acontecer, neste país vai fazer-se um silêncio de chumbo. Quem vai ter a coragem deste herói solitário, para o romper?

Espero que os portugueses comecem a ter mais tomates do que orelhas para decidirem o que é urgente dizer.

 

Britiande, 26 de Maio de 2009

Maria Estela Guedes. Membro da Associação Portuguesa de Escritores, da secção portuguesa da Associação Internacional de Críticos Literários, do Centro Interdisciplinar da Universidade de Lisboa e do Instituto São Tomás de Aquino. Directora do TriploV. Alguns livros publicados: Herberto Helder, Poeta Obscuro; Eco/Pedras Rolantes; Crime no Museu de Philosophia Natural; Mário de Sá-Carneiro; A_maar_gato; Ofício das Trevas; À la Carbonara; Tríptico a solo. Espectáculos levados à cena: O Lagarto do Âmbar (Fundação Calouste Gulbenkian, 1987); A Boba (Teatro Experimental de Cascais, 2008).

   
   

 

 

 


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