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Maria Estela Guedes

Tito Iglesias e a sua amada senhora
ANTES QUE DO DESCONHECIDO SURJA A INEVITÁVEL AVE DE RAPINA
Tito Iglesias
Lisboa, Edições Vela Branca, 2008

Alguns poemas de
«Antes que do desconhecido surja a inevitável ave de rapina»

Tito Iglesias é um poeta de formação literária portuguesa, apesar de ter nacionalidade espanhola, nascido em Santiago de Compostela, terra de antiquíssimas peregrinações. Como as do autor, que tem peregrinado por Seca e Meca, desde a América Latina à Ásia, como fica patente no seu livro de poemas, Antes que do desconhecido surja a inevitável ave de rapina. Ficar isso patente na sua obra, tal como a especificação dos motivos que o têm levado a andar pelo mundo, sempre em bons hotéis, é uma das originalidades do poeta: ele não receia os limites, ultrapassa tudo quanto não é habitual num livro de versos, como seja trazer à colação centenas de amigos e pessoas, a pretexto de dedicatórias, assim como informações biográficas precisas, a exemplo da que nos fez peregrinar - a sua profissão como director ou gerente na alta hotelaria.

Consideremos essa expansão própria de uma vertente sua como artista naïf, um ingénuo culto, pois do outro lado da ingenuidade deparamos com relacionamentos fortes com a poesia portuguesa, mais evidentes nele através dos ritmos e claridades dos cantares de amigo, alguns de escárnio, do romanceiro, passando pela luminosidade de um Camilo Pessanha até se encontrar no seu mundo real, o sobre-real do surrealismo. Mas quem fala em romanceiro recorda logo o Romancero Gitano, pois García Lorca é um dos poetas em castelhano que mais chama a atenção no peregrinar dos versos de Tito Iglesias.

O livro é grande, testamentário como o título aponta, por isso, nas suas quase 250 páginas divididas em várias partes, são numerosos os temas, as formas, os recursos e os modos como se apresenta a poética iglesiana. Ficaremos por aqui mesmo, pela poesia, pois só ela já daria matéria para um volume de ensaios.

Entre os numerosos temas, encontra-se então um, aliás um daqueles que definem a modernidade, que é o de a obra se contemplar, descrever e analisar a si mesma. Do primeiro ao último poema, ela lá está, a D. Poesia, mais velada ou a dançar nua, num permanente acto de sedução do poeta. Tal como o trovador, ao endossar cantigas à sua dona, a D. Poesia de Tito Iglesias é a deusa, a rainha da noite e do dia, adorável, e, como deusa que é, intangível, inalcançável, apesar das 250 páginas do livro que contrariam o sentimento de o poeta amar até à loucura, sem ser correspondido.

A Poesia, em Tito Iglesias, como entre os poetas de raiz órfica, românticos, religa-se ao mistério e ao enigma. Daí a sua implantação num espaço de cariz religioso, e sobretudo quando, ao assumir a figura de mulher, se projecta no vitral mariano da senhora das cantigas de amor medievais. Ao mesmo tempo, a Poesia oferece planos ontológicos, desta feita quando colada ao poeta enquanto destino ou vocação. Trata-se de uma poesia na primeira pessoa, repetindo que, frequentemente, identificada com o autor, e veio de transmissão de informantes biográficos. Então estas características fazem do poema um instrumento gnoseológico, o ser em que o poeta assume a dimensão de Édipo às Portas de Tebas, interpelado pela Esfinge: «sem declives não/ descem os rios./ Sem enigmas... / não há poesia».

E porque o livro é sobre a Poesia, não espanta que nos deparemos com Doze subsídios para a redacção dos direitos dos poetas, e com poemas vários sobre as muitas questões que a afectam: os afectos como tema, claro, entre outros, as questões prosódicas, rítmicas, melódicas, mais genericamente linguísticas, em que o «mel do idioma» se vai buscar também a Espanha, a mater. E também a incompreensão e desprezo pela Poesia por parte dessas pessoas cuja ignorância e arrogância gritam às vezes tão alto que melhor era não lhes ligar nenhuma importância. Merecem que se fale delas? Não.

O que enunciei e fica aquém do necessário não corresponde a um guia meu para analisar a obra do autor. Tudo isto é objecto de reflexão do poeta nos seus poemas, por isso é com toda a propriedade que considero a Poesia a amada senhora de Tito Iglesias.  Ela domina todo o livro, mesmo quando não parece. Domina, é dominadora, a sua génese desafia Édipo, que se interessa mais pelo lado espontâneo e onírico que ela comporta do que pela oficina de martelar versos e rimas. Nesse aspecto Tito é bem surrealista, se bem que a sua indisciplina também o faça dedilhar cordas mais clássicas.

Os títulos são bons condutores deste filão metapoético, e como, por vezes, se alargam até à declaração de princípios ou ao resultado de exame médico - Rimas cariadas para extrair da boca (fechada) do inferno... - ilustram bem o facto de que a Poesia é a sombra do Poeta, eles vão de mão dada desde os primeiros ao últimos versos. Sombra e conteúdo, quando Tito se metaforiza em livro - «Um velho livro sou, / Impreso en España».

Habitado pela Poesia, Tito sem ela não existiria. É o poema final que no-lo assevera, a completar em exemplo o meu discurso.

PONTO FINAL,
AUSENTE ESTANDO A POESIA

Sem ti, eu sou
um lenço encharcado de lágrimas,
verso tingido de roxo
coração submerso no vazio.

Sem ti, não sou.

Tito Iglesias no TriploV

Britiande, 9 de Outubro de 2009

Maria Estela Guedes. Membro da Associação Portuguesa de Escritores, da secção portuguesa da Associação Internacional de Críticos Literários, do Centro Interdisciplinar da Universidade de Lisboa e do Instituto São Tomás de Aquino. Directora do TriploV. Alguns livros publicados: Herberto Helder, Poeta Obscuro; Eco/Pedras Rolantes; Crime no Museu de Philosophia Natural; Mário de Sá-Carneiro; A_maar_gato; Ofício das Trevas; À la Carbonara; Tríptico a solo; Chão de papel. Espectáculos levados à cena: O Lagarto do Âmbar (Fundação Calouste Gulbenkian, 1987); A Boba (Teatro Experimental de Cascais, 2008).

   
   

 

 

 


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