Procurar textos
 
 

 

 

REVISTA TRIPLOV
de Artes, Religiões e Ciências

ISSN 2182-147X
NOVA SÉRIE

 

 







Maria Estela Guedes
Foto: Ed. Guimarães

Notícias do Brasil - o país real
Fora de Portugal há 10 dias, nada sei do que se passa no meu país, exceto que nenhuma desgraça aparatosa se somou ao já acontecido, ou teria sido noticiada no Brasil.

Quando falo desta parte do Mundo Novo, há sempre quem comente que, se eu conhecesse o «país real», não seria tão otimista. Mas eu conheço o país real, não faço turismo, viajo de ônibus e sofro, como os que usam este transporte popular, engarrafamentos que nos atrasam horas. Para percorrer os cerca de 400 quilómetros que distam entre São Paulo e Curitiba, anteontem, consumimos mais de oito horas, o que significa que o atraso foi de três horas e meia, em resultado de dois acidentes. Resumindo: o Brasil tem problemas de escoamento de trânsito e de má condução muito graves.

Como na estação de Curitiba desaguou um mar de gente, desencontrei-me dos amigos que me tinham ido esperar. Apanhei um táxi, o que nada teria de especial, se os motoristas não sofressem de stress crónico por causa dos assaltos. O lugar onde estou não é pacífico para os taxistas, atravessa a Mata Atlântica. É uma chácara no meio da floresta. Donde, quem teve de ensinar o caminho fui eu, com a inquietação compreensível do moço, que devia estar dominado por receios vários: o de sermos assaltados de fora, o de ele ser assaltado por mim (!), ou o de eu não saber o caminho. Chegámos, claro, numa noite de chuva, cerrada, sem luzes a assinalar o porto de salvação. Só à porta ele sossegou, comentando, surpreendido: «Parece um castelo!» E eu respondi, tão aliviada como ele: «É um castelo!».

Isto é o Brasil real, com as suas fantasias arquitetónicas, com os seus medos constantes, tal como é país real a bondade das pessoas, pois muitos recusam-se a transportar passageiros nesta situação.

E é país real este Brasil que me recebe em sua casa com tanto carinho e generosidade, em festas tão de família como o Natal e o réveillon.

O Brasil está a receber também muitos portugueses que a crise obriga a sair de Portugal, bem como os brasileiros que a mesma crise obriga a regressarem a casa. Ainda bem. Há lugar para todos, progresso constante, boas oportunidades para quem quiser trabalhar e participar no desenvolvimento deste grande e sedutor país.

Agora tenho de ir ajudar a Ângela Battu a preparar o almoço e o jantar de passagem de ano, por isso fico por aqui, enquanto há um pouco de Internet. Neste país magnífico, cheio de peritos reconhecidos internacionalmente, com as tecnologias mais sofisticadas, em especial em maquinetas para comunicação, a Internet deixa muito a desejar. Continua a ser o país real.

O Triplov ficou fora do ar durante uns minutos ou umas horas? Lamento, a Internet falhou quando eu estava a enviar este artigo. «Admirável Mundo Novo!», diria Eça de Queirós. Escusado insistir em que conheço até muito bem o país real.

Desejo a todos um Feliz Ano Novo.



Maria Estela Guedes
Curitiba, 30 de dezembro de 2012
 
 
 

Maria Estela Guedes (1947, Britiande / Portugal). Diretora do Triplov

Membro da Associação Portuguesa de Escritores, da Sociedade Portuguesa de Autores, do Centro Interdisciplinar da Universidade de Lisboa e do Instituto São Tomás de Aquino. Directora do TriploV.

LIVROS

“Herberto Helder, Poeta Obscuro”. Moraes Editores, Lisboa, 1979;  “SO2” . Guimarães Editores, Lisboa, 1980; “Eco, Pedras Rolantes”, Ler Editora, Lisboa, 1983; “Crime no Museu de Philosophia Natural”, Guimarães Editores, Lisboa, 1984; “Mário de Sá Carneiro”. Editorial Presença, Lisboa, 1985; “O Lagarto do Âmbar”. Rolim Editora, Lisboa, 1987; “Ernesto de Sousa – Itinerário dos Itinerários”. Galeria Almada Negreiros, Lisboa, 1987 (colaboração e co-organização); “À Sombra de Orpheu”. Guimarães Editores e Associação Portuguesa de Escritores, Lisboa, 1990; “Prof. G. F. Sacarrão”. Lisboa. Museu Nacional de História Natural-Museu Bocage, 1993; “Carbonários : Operação Salamandra: Chioglossa lusitanica Bocage, 1864”. Em colaboração com Nuno Marques Peiriço. Palmela, Contraponto Editora, 1998; “Lápis de Carvão”. Apenas Livros Editora, Lisboa, 2005; “A_maar_gato”. Lisboa, Editorial Minerva, 2005; “À la Carbonara”. Lisboa, Apenas Livros Lda, 2007. Em co-autoria com J.-C. Cabanel & Silvio Luis Benítez Lopez; “A Boba”. Apenas Livros Editora, Lisboa, 2007; “Tríptico a solo”. São Paulo, Editora Escrituras, 2007; “A poesia na Óptica da Óptica”. Lisboa, Apenas Livros Lda, 2008; “Chão de papel”. Apenas Livros Editora, Lisboa. 2009; “Geisers”. Bembibre, Ed. Incomunidade, 2009; “Quem, às portas de Tebas? – Três artistas modernos em Portugal”. Editora Arte-Livros, São Paulo, 2010. “Tango Sebastião”. Apenas Livros Editora, Lisboa. 2010. «A obra ao rubro de Herberto Helder», São Paulo, Editora Escrituras, 1010; "Arboreto». São Paulo, Arte-Livros, 2011; "Risco da terra", Lisboa, Apenas Livros, 2011.

ALGUNS COLECTIVOS

"Poem'arte - nas margens da poesia". III Bienal de Poesia de Silves, 2008, Câmara Municipal de Silves. Inclui CDRom homónimo, com poemas ditos pelos elementos do grupo Experiment'arte. “O reverso do olhar”, Exposição Internacional de Surrealismo Actual. Coimbra, 2008; “Os dias do amor - Um poema para cada dia do ano”. Parede, Ministério dos Livros Editores, 2009. Entrada sobre a Carbonária no Dicionário Histórico das Ordens e Instituições Afins em Portugal, Lisboa, Gradiva Editora, 2010. "Munditações", de Carlos Silva, 2011. "Se lo dijo a la noche", de Juan Carlos Garcia Hoyuelos, 2011; "O corpo do coração - Horizontes de Amato Lusitano", 2011.

TEATRO

Multimedia “O Lagarto do Âmbar, levado à cena em 1987, no ACARTE, Fundação Calouste Gulbenkian, com direcção de Alberto Lopes e interpretação de João Grosso, Ângela Pinto e Maria José Camecelha, e cenografia de Xana; “A Boba”, levado à cena em 2008 no Teatro Experimental de Cascais, com encenação de Carlos Avilez, cenografia de Fernando Alvarez  e interpretação de Maria Vieira. 

 
 

 

 

 

 

 

 


hospedagem
Cyberdesigner:
Magno Urbano