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REVISTA TRIPLOV
de Artes, Religiões e Ciências

ISSN 2182-147X
NOVA SÉRIE

 

 







Maria Estela Guedes
Foto: Ed. Guimarães

Comemorações do 5 de Outubro: Salute e Fratellanza!
Não apreciei em direto os acontecimentos desta manhã de 5 de Outubro, dia em que se comemorava a implantação da República - «comemorava» porque o feriado nacional vai acabar, tal como a República vai no caixão, se por ela entendermos o que os republicanos de antanho entendiam: o mesmo que Democracia. Não apreciei, ouvi porém comentários noutras paragens televisivas, e na minha caixa do correio já começaram a cair críticas. Porquê? Porque o Presidente da República, no meio das cerimónias, hasteou a bandeira portuguesa ao contrário.

Pode ter sido um acidente, pode ter sido sabotagem, que importa? O simbolismo do gesto anuncia mais um «É a hora!». Os acontecimentos paralelos, da senhora a gritar por emprego, e da cantora a interpretar Lopes Graça, confirmam que é a hora de o povo passar à ação.

Dizia então Maria de Belém, desviando diplomaticamente a conversa, num programa matutino de entretenimento, que havia assuntos mais importantes do que esse, o da bandeira de pernas para o ar, a discutir.

Se me permite, querida senhora, este assunto é de suma importância, e quem lho garante é uma pessoa informal, que se entende mal com protocolos. Também eu já cometi gaffes com a bandeira, mas não com tal valor. Sirva a anedota para a minha biografia, se alguém a escrever.

Nos anos 60, era eu aluna do Liceu Honório Barreto, em Bissau, veio uma ordem do governo de Oliveira Salazar de seleção dos melhores alunos dos liceus das colónias para uma viagem a Portugal. Condição: pertencerem à Mocidade Portuguesa. Rapidamente se criou para o efeito a Mocidade Portuguesa Feminina, tendo-me sido atribuído o cargo de porta-bandeiras. Acontece que o treino foi escasso e a minha atenção às realidades circundantes também. O grupo das meninas exibiu-se numa parada junto ao monumento Ao Esforço da Raça, que ainda existe mas com outro nome, na Praça do Império, que também existe mas com outro nome. Exibiu-se ao lado do grupo dos rapazes. As ordens eram independentes, tal como eu, pelos vistos, porque, mal ouvi a de dispor a bandeira nesta ou naquela posição, tratei de obedecer. Porém a ordem ouvida destinava-se aos rapazes, não às raparigas... Os risos, face ao isolamento em que ficou a bandeira do grupo feminino, logo castigaram o meu ato de subversão involuntária.

Lembram-se do caso de João Grosso? Ocorreu já depois do 25 de Abril. Num programa de televisão, cantou o hino nacional em tom de rock. A televisão processou-o, foi a tribunal, e nunca mais esse excelente  ator teve programas em canal nenhum.

O senhor Presidente da República hasteia a bandeira nacional de pernas para o ar, numa cerimónia comemorativa da implantação da República, e a gaffe é apenas gaffe, sem direito a comentários? Freud, a essas gaffes, deu o nome de «gestos falhados». Longe de mim querer invadir os territórios da Psicanálise, mas o gesto assemelha-se a uma confissão. Não foi Cavaco Silva quem, enquanto primeiro ministro, arrasou a nossa produção florestal, agrícola e piscatória? Não tem ele sido presidente de governos que progressivamente vão enterrando a República, a Democracia, o 25 de Abril? Confesse, Senhor Presidente: a bandeira nacional, tal como país, está de pernas para o ar, porque o senhor tem sido um dos principais coveiros de Portugal.

Os símbolos são muito importantes, e felizmente costumam abrigar valores de sinal oposto. Este caso de Portugal de pernas para o ar lembra-me O Enforcado, um dos arcanos maiores do Tarot. Em algumas versões, em vez de braços tem duas flores, a indicarem o seu valor positivo, contrastando com o valor de culpa e sacrifício: o de que depois do sofrimento vem o renovo primaveril. Esperemos que Portugal seja capaz de reverter a situação dramática em que se encontra.

E já que hoje é dia de comemorar a República, despeço-me com a fórmula de saudação republicana que vigorou nos documentos oficiais, até ser banida pelo governo de Salazar: «Saúde e Fraternidade».  Essa é ainda hoje a saudação carbonária, em geral enunciada no original italiano. Lembro que a Carbonária Portuguesa foi o mais importante instrumento de implantação da República.

Salute e Fratellanza

Stella Carbono

Casa dos Banhos, 5 de outubro de 2012
 
 
Imagem da Wikipédia

Maria Estela Guedes (1947, Britiande / Portugal). Diretora do Triplov

Membro da Associação Portuguesa de Escritores, da Sociedade Portuguesa de Autores, do Centro Interdisciplinar da Universidade de Lisboa e do Instituto São Tomás de Aquino. Directora do TriploV.

LIVROS

“Herberto Helder, Poeta Obscuro”. Moraes Editores, Lisboa, 1979;  “SO2” . Guimarães Editores, Lisboa, 1980; “Eco, Pedras Rolantes”, Ler Editora, Lisboa, 1983; “Crime no Museu de Philosophia Natural”, Guimarães Editores, Lisboa, 1984; “Mário de Sá Carneiro”. Editorial Presença, Lisboa, 1985; “O Lagarto do Âmbar”. Rolim Editora, Lisboa, 1987; “Ernesto de Sousa – Itinerário dos Itinerários”. Galeria Almada Negreiros, Lisboa, 1987 (colaboração e co-organização); “À Sombra de Orpheu”. Guimarães Editores e Associação Portuguesa de Escritores, Lisboa, 1990; “Prof. G. F. Sacarrão”. Lisboa. Museu Nacional de História Natural-Museu Bocage, 1993; “Carbonários : Operação Salamandra: Chioglossa lusitanica Bocage, 1864”. Em colaboração com Nuno Marques Peiriço. Palmela, Contraponto Editora, 1998; “Lápis de Carvão”. Apenas Livros Editora, Lisboa, 2005; “A_maar_gato”. Lisboa, Editorial Minerva, 2005; “À la Carbonara”. Lisboa, Apenas Livros Lda, 2007. Em co-autoria com J.-C. Cabanel & Silvio Luis Benítez Lopez; “A Boba”. Apenas Livros Editora, Lisboa, 2007; “Tríptico a solo”. São Paulo, Editora Escrituras, 2007; “A poesia na Óptica da Óptica”. Lisboa, Apenas Livros Lda, 2008; “Chão de papel”. Apenas Livros Editora, Lisboa. 2009; “Geisers”. Bembibre, Ed. Incomunidade, 2009; “Quem, às portas de Tebas? – Três artistas modernos em Portugal”. Editora Arte-Livros, São Paulo, 2010. “Tango Sebastião”. Apenas Livros Editora, Lisboa. 2010. «A obra ao rubro de Herberto Helder», São Paulo, Editora Escrituras, 1010; "Arboreto». São Paulo, Arte-Livros, 2011; "Risco da terra", Lisboa, Apenas Livros, 2011.

ALGUNS COLECTIVOS

"Poem'arte - nas margens da poesia". III Bienal de Poesia de Silves, 2008, Câmara Municipal de Silves. Inclui CDRom homónimo, com poemas ditos pelos elementos do grupo Experiment'arte. “O reverso do olhar”, Exposição Internacional de Surrealismo Actual. Coimbra, 2008; “Os dias do amor - Um poema para cada dia do ano”. Parede, Ministério dos Livros Editores, 2009. Entrada sobre a Carbonária no Dicionário Histórico das Ordens e Instituições Afins em Portugal, Lisboa, Gradiva Editora, 2010. "Munditações", de Carlos Silva, 2011. "Se lo dijo a la noche", de Juan Carlos Garcia Hoyuelos, 2011; "O corpo do coração - Horizontes de Amato Lusitano", 2011.

TEATRO

Multimedia “O Lagarto do Âmbar, levado à cena em 1987, no ACARTE, Fundação Calouste Gulbenkian, com direcção de Alberto Lopes e interpretação de João Grosso, Ângela Pinto e Maria José Camecelha, e cenografia de Xana; “A Boba”, levado à cena em 2008 no Teatro Experimental de Cascais, com encenação de Carlos Avilez, cenografia de Fernando Alvarez  e interpretação de Maria Vieira. 

 
 

 

 

 

 

 

 


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