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REVISTA TRIPLOV
de Artes, Religiões e Ciências

ISSN 2182-147X
NOVA SÉRIE

 

 







Maria Estela Guedes
Foto: Ed. Guimarães

José Hermano Saraiva: «Eu vi morrer o meu irmão António»

Creio que não viu, trata-se porventura de uma dessas assunções da realidade pela imaginação que motivaram críticas dos historiadores ao modo de contar histórias da História, tão próprio de José Hermano Saraiva nos seus variados programas de televisão, ao longo de umas quatro décadas.

Acabou com estas palavras a sua última e póstuma entrevista, este extraordinário homem da televisão, hoje, dia da sua morte, 20 de julho de 2012, na RTP1, cerca das 21 horas.

Tive ocasião de o conhecer pessoalmente, nos anos 80, numa altura em que foi diretor do Diário Popular, no qual eu colaborava. Acabava de ser lançado o primeiro romance de Umberto Eco, salvo erro O Pêndulo de Foucault, a que dediquei dois artigos, discordando de outro de José Hermano Saraiva. O ponto de discórdia foi o computador, que também por esses anos começava a ser usado pelos escritores. Em entrevista, ou por qualquer outro meio, Umberto Eco deve ter informado que o romance fora escrito em computador, e então José Hermano Saraiva depreciou a obra, por Umberto Eco ter recorrido a uma ferramenta que julgava capaz de substituir o talento dos autores.

Sempre fui admiradora deste homem, que tão naturalmente fascinava os telespectadores com uma conversa insinuante sobre a nossa História. E se pensarmos que a História não é obra de factos, sim de hipóteses e teorias, como qualquer outra ciência, facilmente nos pomos em defesa dele, contra os que o acusam de acrescentar e retirar pontos ao conto, em suma, de falta de rigor. O que é o rigor histórico? Uma data certa, a localização exata de um acontecimento, um nome correto?

Vejamos. Não diz ele ter visto morrer o irmão? Pode ter visto, mas não no contexto alegado nesta sua última entrevista: «Eu vi morrer o meu irmão António. Tomou a palavra, disse "Meus senhores..."». Neste contexto, posso eu dizer, sem rigor também, que vi morrer António José Saraiva à minha frente, episódio que para sempre me marcou, tal o choque emocional.

Sem rigor de datas, facilmente averiguáveis, caso seja necessário, direi que se passou o caso numa cerimónia de atribuição de prémios na Rua de S. Domingos à Lapa, na atual sede da Associação Portuguesa de Escritores, de cuja direção eu fazia parte na altura. Nervosíssima, usei da palavra para comentar um romance de Agustina Bessa-Luís, que também recebia um prémio, tal como António José Saraiva. Não me recordo de ter visto na sala José Hermano Saraiva, mas talvez lá estivesse. O irmão António levantou-se do auditório, deu três passos para a frente, e voltou-se para o público, para agradecer a honra que lhe fazíamos. Estava emocionadíssimo, chegou a declará-lo, depois ou antes de ter pronunciado a fórmula «Meus senhores». E desabou docemente por si abaixo. Rapidamente chegou uma ambulância que o levou ao hospital, onde morreu horas depois ou no dia seguinte, na sequência do que deve ter sido um ataque cardíaco.

Que importância histórica têm os pormenores de eu não ter visto realmente morrer António José Saraiva, ou de estar disposta a jurar que Hermano Saraiva não estava presente, e de Hermano Saraiva, a ter visto morrer o irmão, provavelmente o não ter ouvido dizer, no hospital, «Meus senhores...»?

Todos nós, nesta derradeira entrevista de José Hermano Saraiva, o vimos morrer à nossa frente. Aliás, nos seus últimos programas, já o estávamos a ver desabar suavemente por si abaixo.

Vamos ter muitas saudades suas, Dr. Hermano Saraiva. Com rigor ou sem regor histórico, o senhor familiarizou-nos, mais do que os livros e as salas de aula, com os acidentes e incidentes do nosso património cultural.

Casa dos Banhos, 20 de julho de 2012

Maria Estela Guedes (1947, Britiande / Portugal). Diretora do Triplov

Membro da Associação Portuguesa de Escritores, da Sociedade Portuguesa de Autores, do Centro Interdisciplinar da Universidade de Lisboa e do Instituto São Tomás de Aquino. Directora do TriploV.

LIVROS

“Herberto Helder, Poeta Obscuro”. Moraes Editores, Lisboa, 1979;  “SO2” . Guimarães Editores, Lisboa, 1980; “Eco, Pedras Rolantes”, Ler Editora, Lisboa, 1983; “Crime no Museu de Philosophia Natural”, Guimarães Editores, Lisboa, 1984; “Mário de Sá Carneiro”. Editorial Presença, Lisboa, 1985; “O Lagarto do Âmbar”. Rolim Editora, Lisboa, 1987; “Ernesto de Sousa – Itinerário dos Itinerários”. Galeria Almada Negreiros, Lisboa, 1987 (colaboração e co-organização); “À Sombra de Orpheu”. Guimarães Editores e Associação Portuguesa de Escritores, Lisboa, 1990; “Prof. G. F. Sacarrão”. Lisboa. Museu Nacional de História Natural-Museu Bocage, 1993; “Carbonários : Operação Salamandra: Chioglossa lusitanica Bocage, 1864”. Em colaboração com Nuno Marques Peiriço. Palmela, Contraponto Editora, 1998; “Lápis de Carvão”. Apenas Livros Editora, Lisboa, 2005; “A_maar_gato”. Lisboa, Editorial Minerva, 2005; “À la Carbonara”. Lisboa, Apenas Livros Lda, 2007. Em co-autoria com J.-C. Cabanel & Silvio Luis Benítez Lopez; “A Boba”. Apenas Livros Editora, Lisboa, 2007; “Tríptico a solo”. São Paulo, Editora Escrituras, 2007; “A poesia na Óptica da Óptica”. Lisboa, Apenas Livros Lda, 2008; “Chão de papel”. Apenas Livros Editora, Lisboa. 2009; “Geisers”. Bembibre, Ed. Incomunidade, 2009; “Quem, às portas de Tebas? – Três artistas modernos em Portugal”. Editora Arte-Livros, São Paulo, 2010. “Tango Sebastião”. Apenas Livros Editora, Lisboa. 2010. «A obra ao rubro de Herberto Helder», São Paulo, Editora Escrituras, 1010; "Arboreto». São Paulo, Arte-Livros, 2011; "Risco da terra", Lisboa, Apenas Livros, 2011.

ALGUNS COLECTIVOS

"Poem'arte - nas margens da poesia". III Bienal de Poesia de Silves, 2008, Câmara Municipal de Silves. Inclui CDRom homónimo, com poemas ditos pelos elementos do grupo Experiment'arte. “O reverso do olhar”, Exposição Internacional de Surrealismo Actual. Coimbra, 2008; “Os dias do amor - Um poema para cada dia do ano”. Parede, Ministério dos Livros Editores, 2009. Entrada sobre a Carbonária no Dicionário Histórico das Ordens e Instituições Afins em Portugal, Lisboa, Gradiva Editora, 2010. "Munditações", de Carlos Silva, 2011. "Se lo dijo a la noche", de Juan Carlos Garcia Hoyuelos, 2011; "O corpo do coração - Horizontes de Amato Lusitano", 2011.

TEATRO

Multimedia “O Lagarto do Âmbar, levado à cena em 1987, no ACARTE, Fundação Calouste Gulbenkian, com direcção de Alberto Lopes e interpretação de João Grosso, Ângela Pinto e Maria José Camecelha, e cenografia de Xana; “A Boba”, levado à cena em 2008 no Teatro Experimental de Cascais, com encenação de Carlos Avilez, cenografia de Fernando Alvarez  e interpretação de Maria Vieira. 

 
 

 

 

 

 

 

 


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