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MARIA ESTELA GUEDES
ROSINE CHANDEBOIS ATACA













ROSINE CHANDEBOIS
L' EMBRYON, CET INCONNU

Essai suivi de la Réflexion d'un philosophe
par Michel Lefeuvre
Editions L'Age d'Homme
Lausanne, 2004
www.agedhomme.com

Rosine Chandebois trabalhou muitos anos em embriologia, a ciência que estuda o desenvolvimento do embrião, desde o ovo ou esporo, até ao estado adulto. As experiências neste domínio quase sempre deslumbram os profanos com os seus resultados espectaculares : a implantação de um bloco de celoidina no flanco de um girino de salamandra, no estádio em que irrompem os membros, provoca a formação de uma quinta pata, normal (p.109). Rosine Chandebois conseguiu que galinhas pusessem ovos de perua. Uma vez fecundados com esperma de peru, os ovos desenvolveram-se como híbridos de perua-galo até o desenvolvimento parar, no curso da organogénese (p. 94).

É então na embriologia que a cientista colhe os argumentos do seu último livro, ainda não traduzido na nossa língua, O embrião, esse desconhecido. Desconhecido porque a ciência faz manipulações, obtém milagres como o milho híbrido, que salvou o México da fome em princípios do século XX, mas está longe de saber porque é que a injecção de certa substância num girino faz com que nasça uma pata a mais, normal, quando a situação é anómala.




Saindo do livro, diríamos que a biologia é a ciência da vida, ela sabe descrever os seres vivos e sabe como transformá-los, mas não sabe o que a vida é. Por isso há sempre perigo em operações como a hibridação, a clonagem ou os transgénicos. Antes de se cruzarem espécies distintas de abelhas melíferas, uma delas africana, Melipona marginata, o geneticista Kerr (1) não previu que da mistura viessem a resultar as abelhas assassinas que agora vivem no Brasil.

No curso das suas investigações, Rosine Chandebois chegou à conclusão de que há fraude no discurso dos evolucionistas, os que atribuem ao acaso a origem das espécies e a sua transformação umas nas outras. Essa denúncia foi particularmente virulenta no livro "Pour en finir avec le darwinisme. Une nouvelle logique du vivant", de 1989, traduzido em Portugal pelo Instituto Piaget, com o título "Para acabar com o darwinismo". Agora a cientista mudou um pouco a estratégia, insistindo em que a crença nos dogmas causa cegueira.

Impressionada com o heroísmo desta cientista francesa, pois sei que, salvo casos excepcionais, na ciência que conheço não há liberdade de pensamento - o paradigma é um cárcere, a maioria dos que publicam trabalhos científicos limita-se a repetir modelos, experiências, ideologemas e dogmas, não ousando discordar do magister dixit -, diligenciei para que viesse a Lisboa participar no colóquio "A Criação". Estão em linha as comunicações (2). Rosine Chandebois foi criticada por dois biólogos presentes, Carlos Almaça, ictiologista, e E.G. Crespo, embriologista como ela. Felizmente, nada do que lhe disseram a desarmou, por isso continuemos a nossa cruzada. No meu campo de investigação também acusei de fraude o naturalismo em geral, dizendo, entre outras coisas, que há híbridos resultantes de selecção artificial (3), criados pelos naturalistas, a viver em liberdade nesses campos e águas do mundo, mas que a ciência atribui ao acaso a sua origem, e com isso todos sofremos, não só de logro intelectual, como de várias outras maneiras.

Não é estranho à ciência o meu discurso: muitos cientistas falam de híbridos a viver em liberdade na Natureza, caso justamente de Carlos Almaça, que, desde a tese de doutoramento, sobre as espécies de barbos de Portugal, anota que em todas elas há cruzamentos. A única diferença reside na identificação da origem desses híbridos, que a ciência considera naturais, fruto do acaso, e eu afirmo, lidas as fontes primárias, que são fruto da acção dos naturalistas.

A autora trabalha numa área que só não me é completamente estranha porque muito ouvi falar de embriologia ao Prof. G.F. Sacarrão, especialista no estudo do desenvolvimento dos embriões de Cephalopoda - polvo e lula (4). Por isso não a sei apoiar na sua linha de raciocínio, mas posso acumular às dela as minhas próprias experiências e dúvidas. E uma delas é esta: há dois tipos de fósseis, por vezes da mesma idade - os de espécies que já não existem, e os de espécies que ainda existem. Porque é que a ciência toma o exemplo das que já não existem para garantir que se transformaram noutras, e não toma o exemplo das que há biliões de anos eram exactamente como as actuais, para garantir que não existe evolução?

Em tempos muito remotos, viviam crocodilos no rio Tejo, em Lisboa, e hoje já não. Sem dúvida: o povoamento mudou radicalmente. Mas teremos de crer no milagre de que esses crocodilos desapareceram por se terem transformado nas gaivotas da fauna actual? Esperemos que a religião em que a ciência se transformou não venha a gerar nenhum Santo Ofício, para queimar no Rossio os que não acreditam. E a questão nem é a de acreditar ou não no transformismo, sim a de que a relação entre a ciência e os seus públicos não devia ser de sacristia. Vão longe os tempos em que os devotos acendiam velas a Isaac Newton e davam o seu nome aos filhos, como outros fazem com Jesus, Maria e José, mas a verdade é que o positivismo continua a ser uma religião científica.

A experiência de Rosine Chandebois leva-a a verificar que a ciência se tornou religião, exigindo submissão cega a dogmas. Dá como exemplo a crença na teoria segundo a qual a parte cefálica, numa planária, exerce dominância sobre o resto do corpo, isto é, a "cabeça" mantém a estrutura do organismo e inibe a formação de outra cabeça. Lendo a bibliografia sobre experiências de regeneração, a autora verificou que os cientistas, embora tivessem obtido planárias com um ou mais regenerados cefálicos, não questionavam a teoria de que a "cabeça" mantinha a organização do corpo e impedia a formação de duas cabeças. Traduzo, da pág. 16: "para justificar a dominância da cabeça foi muitas vezes reproduzida - com a referência ao artigo de onde fora extraída - uma figura mostrando o desdobramento parcial de uma planária provocado pela enxertia de uma extremidade cefálica. Tendo tido nas mãos o artigo em causa, publicado numa obscura revista, descobri que metade da fotografia não tinha sido reproduzida, pois mostrava que se obtém o mesmo resultado depois de se enxertar uma extremidade caudal."

A autora, como tantos de nós, aspira a algo que neste momento tem os contornos do Graal: à verdade. Mas a ciência não visa a verdade, a verdade não é meta nem da ciência, nem da justiça, nem da política. A verdade, como relação entre a realidade e o nosso viver nela, algo tão imperativo como podermos dizer que chove quando a chuva nos empapa a roupa, essa verdade não parece, no nosso tempo, ser meta colectiva, sim caminho iniciático, por isso individual, solitário e secreto. Fora desse auto-martírio, a sensação é a de que para sobreviver é preciso dizer que sim à ciência, que está um magnífico dia de sol, por muito que chova a cântaros. Ora há cientistas que não suportam essa situação. Ciência é conhecimento, o conhecimento é um bem que as democracias devem proporcionar aos cidadãos e que os mestres sempre ansiaram por transmitir aos discípulos. Concebe-se mal um professor que ensine os alunos a esconder os problemas debaixo do tapete, a adulterar citações, a manipular dados, pintando só o melhor perfil do seu objecto de estudo, como outros o fizeram do seu zarolho mecenas. A ciência está manipuladora, e mente. Experimentemos assistir a boa porção de programas televisivos sobre animais, desses em que se fazem concursos sobre os maiores assassinos - se o urso polar, a anaconda ou o tigre - e verificamos que a ciência se aproximou demasiado dos cidadãos para não serem deseducativas as suas lavagens ao cérebro.

Para Rosine Chandebois existe auto-conhecimento e finalidade nas próprias células, elas sabem organizar-se em órgãos precisos, comunicando umas com as outras: no embrião de um bebé humano, supondo, as células organizam-se com a finalidade de criarem os rins, a cabeça, o coração, etc.. Se não houvesse esse conhecimento e esse desejo de constituir órgãos de ser humano, poder-se-iam esperar asas, escamas, barbatanas, enfim, monstruosidades que impediriam a sobrevivência do feto. Nada disto se relaciona com os genes, aos quais se atribui a explicação de tudo quanto existe, pois todas as células recebem a mesma informação genética - quaisquer células, sejam do cabelo sejam da pele, podem identificar pelo ADN o suspeito de um crime.

Michel Lefeuvre fecha o livro com reflexões em que traz à baila K. Popper, ao declarar que o darwinismo não é uma teoria científica testável, sim um programa de pesquisa metafísica, e Kuhn, com a noção de paradigma: uma vez que a adesão dos cientistas a dado paradigma não é só científica, ela passa pelo relacionamento pessoal, sociologia da época, instituições frequentadas, constituição de júris, etc., rapidamente o paradigma se torna dogma. Se algum aluno reproduzir em exame o que aqui se escreveu, chumba. Terá de jurar o Credo ao paradigma se quiser sobreviver no sistema. É contra esta situação que combate Rosine Chandebois, afirma Michel Lefeuvre. Enfim, Igreja já temos, esperemos que não volte a Santa Inquisição.

 
TEXTO DA CONTRACAPA
Notas

(1) CAMARGO, J.M.F., KERR, W.E. & LOPES, C.R. (1967) - Morfologia externa de Melipona ( Melipona ) marginata Lepeletier. Papéis Avulsos de Zoologia, São Paulo, 20: 229-258.

(2) http://triplov.com/creatio/

(3) Queria deixar aqui uma auto-correcção, porque, para sintetizar, muitas vezes reduzo os meus exemplos a uma figura estilizada, seja lembrar a história de Augusto Nobre ao situar Coimbra no Douro, seja ao falar de cruzamento de duas espécies, ou ainda ao referir a bela invenção de Baltasar Osório, o Rio Matosinhos. Realmente, Coimbra no Douro não é uma gralha, é uma série delas, visto que se trata de um modelo de distribuição geográfica: de cada vez que aparece dada espécie de molusco em Coimbra, já se sabe que isso fica na região do Douro. Esta gralha não aparece só num artigo, aparece ao menos em três de uma série. Não é só Coimbra que está deslocada, é Tomar, Figueira da Foz, etc., sem contar com as localidades que não consegui identificar.

No caso das espécies cruzadas, e quase tudo o que comemos e bebemos é fruto de selecção e apuramento de raças, fazem-se múltiplos cruzamentos até o resultado ser considerado bom. O termo usado pelos cientistas é poli-hibridação.

Quanto ao Rio Matosinhos, no artigo em que ele aparece, mais erros fluem nas suas águas: é o naturalista J. Newton, que não existe, mas pelo menos dois autores o citam; e são os nomes da espécie de peixe apanhada pelo tal J. Newton, no tal Rio Matosinhos, que estão redigidos sempre de maneira diversa, nenhuma delas correspondendo à correcta, que hoje é uma espécie comum, segundo C. Almaça, que, lendo Baltasar Osório, consegue "citar" o nome da espécie, mas não é no Rio Matosinhos que é vulgar.

Usando a caixa de pesquisa, os interessados certamente encontrarão não só referências bibliográficas, como as próprias fontes e centenas de outros casos de informações falsas prestadas pelos naturalistas ou, melhor dizendo, de casos de cegueira causada pela fé nos dogmas.

(4) Directório de G.F. Sacarrão: http://triplov.com/sacarrao/

   
   

 

 

 


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