Maria Estela Guedes
Na véspera de eu ser iniciada

Na véspera de eu ser iniciada

Receando qualquer percalço físico

A mim mesma repetia

A tão nítida chapa fernandina

À mingua de modelo verdadeiro:

Neófito, não há morte!

Sim, porque o carvão não é inofensivo

Faz fagulhas, o lume crepita a vermelho e azul

Sobre o veludo negro da morte

E o sangue mostra os dentes, seja em fio ou borbotões

Enfim, pensava, à falta de outro conforto

Que o neófito não morria, e não morre realmente,

Apesar de, defunto,

Ir vogando entre flores num caixão cheio de luzes

Como dos barcos ao longe

Dos barcos ao longe carregados de flores

Fala esse outro lampião, Camilo Pessanha.

Na véspera de eu ser iniciada, temia,

Para enganar o terror, sujar a melhor roupa

A cavar a minha própria sepultura

Em terra húmida, de lama esverdeada,

E a nela me deitar ao comprido, como quem à cama regressa

Depois de nela ter nascido.

Sim, porque não é fútil o carvão

Ele queima e deita faúlhas

E no petiscar vermelho e azul da sua chama

Dormem lobos maus de negro sorriso.

E então eu pensava, nesse verdadeiro raciocínio

Saído como poucos do húmus de Fernando Pessoa

Que a morte iniciática não era morte

Como realmente não é

Apesar de temer que ela me arreganhasse os dentes

Ao cavar por minhas próprias mãos a cova onde me deitaria

Assim a rachadora rachando lenha para se queimar

O lume acende com achas de cedro

O incorruptível - apesar de falso - Cupressus lusitanica

Negra lama lume lento lábios frios

Ei-la, gélida, que com mão escanzelada me levanta

E só dentes e perna de pau avisa:

Neófita, levas uma punhalada se não morres!

E como foi estranho e espantoso

Representar afinal o papel de Lucy no "Ofício das Trevas"

Ali jazendo, com a lápide pesada contra o coração

A respirar com dor, ouvindo

Morta jazida num berço a vogar no Nilo

O rio que é essa fita de água estendida no deserto

Entre duas tiras verdes de tamareira

Phoenix - será Phoenix? - talvez seja, mas não a reclinata

Ali deitada, a Fénix, no negro de uma obra alheia, ouvia

O hino a Osíris, Sol que se despede e ao outro dia regressa,

Os membros decepados e arremessados para todos os

Vales e climas

Assim a minha alma estagnava na língua dos mistérios

E morria como Osíris, tão estranho, tão estranho não poder invocar

Nem pai nem mãe de carne, o Sol pesava de encontro ao coração

Muito mais que ligeira pena de avestruz na balança de Anúbis

Eu era aquela morta em absoluto falecida

Que noutro mundo tão recuado para fora deste

Comezinho mundo de fetos

E urtigas confessava

Lucy também se confessa em negativo

Não, eu não matei

Não, eu não dormi com a mulher do meu primo

Nego, eu não suspirei pelo filho do teu genro

Como outrora, a químico, a escrita trespassada para outro lado

Do papel se chamava negativo

Nego o que na igreja se afirma

Ao contrário, renego a mentira, não quero a hipocrisia

Nunca se cruzam as mãos, nunca

Tudo ao contrário, como na confissão

E então a lua de chifres na frente

Aqueles dois cornos imensos

A enrolarem-se de luz nas sombras da Floresta Negra Curitibana

Ladrava de noite entre as hastes esguias das acácias

Manchadas de branco como caiadas

Para curar as feridas

Minha Mãe, a Lua, meu Pai, o Sol,

Como podia eu morrer à vossa frente, neste fato negro de cima a baixo

A noite - meu P.'.M.'. - a Noite era eu, ali despida, e o balandrau atirado

Para o céu, fazendo nuvens, eu, morta, enterrada até às últimas letras

De uma estrofe interminável

Eterna

Lua

Diuturnamente assassinada

Como Hiram o foi um dia

E todas as noites ressurrecta

Dessa morte que para o neófito inexiste

Minha Lua Lua ó Lua quem és, Lua?

Lua, Lua sou eu.

StellaCarbono
Curitiba, 9.08.2005
Britiande, 19.10.2005
   
   

 

 

 


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