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LÍNGUA DAS GRALHAS NO ATELIER DE JOSÉ DAVID
Maria Estela Guedes


Quem ainda não sabe o que é a língua das gralhas, também chamada escrita híbrida, língua das aves, etc., tem um exemplo da sua aplicação poética em "Eco/Pedras Rolantes", livro que publiquei pela primeira vez há uns anos e agora está online nesta web. A sua característica fundamental é o hibridismo, ou seja, a dupla/múltipla sentença. Só funciona se for reconhecível nela a presença oculta da linguagem padrão: “De noite, todos os galos são pargos” é uma frase que tem na base o ditado: “De noite, todos os  gatos são parvos”. Digamos que esta é a filosofia subjacente a uma linguagem com aplicações na arte como em qualquer comunicação que passe mensagens secretas, seja a alquimia, seja a espionagem. Na noite da linguagem, os pargos ficam paralisados de espanto, e mesmo quando existe prefácio à entrada da obra a explicar que as gralhas são voluntárias, a tendência é para as considerar erros, lapsos de quem não se recorda do famoso ditado: “De noite, todos os patos são gagos”. Se o cibernauta ainda não viu a aplicação em ciência da escrita híbrida, é o momento de se inteirar do conteúdo de "As Gralhas", no TriploV. De modo geral, lapsos ocorridos em mensagens cujos protagonistas são animais, mesmo que não sejam bugs, corvos nem hipopótamos, representam parte legítima da língua das gralhas, remontando ao tempo em que as pessoas falavam umas com as outras. Agora, nem tanto, parece que a língua petrificou e as palavras significam menos que no dicionário.

A Expedição Quetzalcoatl (1) – quetzal é uma ave, e Quetzalcoatl um deus híbrido, mais conhecido por Serpente Emplumada – terminou no atelier de José David, no Quartier Latin, em Paris. Logo à entrada da porta, um vestiário solicita às visitas que deixem nele os seus agasalhos – isto que escrevo é a outra face da comunicação, idêntica a “De noite, todos os gatos são pardos”, aquela que vai permitir construir-lhe por cima um duplo em língua das gralhas, no caso, preto no branco: “Vous êtes prié de laisser votre fourrure au bestiaire” (foto de cabeçalho). Traduzindo, numa das versões possíveis: “Por favor, deixe a pele no bestiário”. E com isto as gralhas dão entrada no atelier, largando as penas à porta do labirinto. 

O Labirinto clássico, também chamado Palácio do Duplo Machado, é o que Minos mandou construir para aprisionar o monstro com corpo de homem e cabeça de touro que devorava periodicamente sete rapazes e sete raparigas. Mas nem era preciso o machado ser duplo para a história estar contada na língua das gralhas. Teseu conseguiu matar o monstro, mas para sair do labirinto teve de receber o auxílio de Ariadne.

Os estudos a que o pintor se dedica neste momento (Julho de 2001) traçam três caminhos para o centro do labirinto. De acordo com a mensagem das gralhas, rivais das musas, um chegará ao interior de si mesmo, os outros dois constituem becos sem saída, já que a teia de um labirinto é na maior parte constituída por vias que não levam ninguém ao seu destino. Um dos caminhos é o auto-retrato, outro o retrato do touro, e o terceiro, tão híbrido como Quetzalcoatl, o do Minotauro.

A hibridação é o caminho certo - crocitam as gralhas -, aquele que opera as bodas alquímicas entre exterior e interior, matéria e alma, descrição e conhecimento de si. O caminho do touro isolado é rico, mas já muito tratado, sobretudo na sua vertente ibérica da tourada e correlata significação de auto-domínio. Tem uma componente de tragédia, expressa no dorso em carne-viva (terceira foto), mas o caminho do híbrido supera-o com a dimensão épica. Quanto ao caminho do auto-retrato, é uma superfície que se desdobra em duplos (última foto), em especial com a ajuda dos espelhos, objectos brilhantes e reflectores da luz a que a curiosidade das gralhas nunca resiste.

Os espelhos, no atelier de José David, não parecem ter a função habitual, antes a de gerarem imagens das imagens, num progressivo aprofundamento e recriação cénica dos espaços. Não servem para o pintor se ver neles, de modo a representar-se com fidelidade, de resto não estamos na presença de uma arte verista, sim de alta transfiguração dos objectos, por muito reconhecíveis que sejam as suas formas. Mas precisamente, é esse reconhecimento que permite a duplicidade da língua das gralhas. Um dos espelhos, ao lado do “bestiário” que convida os visitantes a despirem-se – o sentido último do labirinto é o de se desnudar, o do auto-conhecimento – reflecte três auto-retratos (primeira foto). Um outro espelho, antigo, de enormes dimensões, absorve o espectador como vítima do Minotauro – numa sequência de arte efémera, enquanto me via nele a fotografar o atelier, sabia que tinha chegado ao centro do labirinto, e que essa experiência fora para mim o fruto mais valioso da Expedição Quetzalcoatl (foto abaixo).

Haverá ainda alguém que não acredite que a língua das gralhas é praticada correntemente por artistas, alquimistas, cientistas, diplomatas e espiões? Aliás ela é praticada popularmente em múltiplas circunstâncias, como no discurso dos namorados. A sua origem é popular, passa pelas tabuletas comerciais de tempos antigos, antecessoras do logotipo e do spot publicitário. Um dos mais clássicos exemplos de língua das gralhas, patente numa tabuleta de estalagem, é "Au Lion d'Or" - no Leão de Ouro on dort - dorme-se. Efectivamente, a equipa da Expedição Quetzalcoatl acampou e dormiu no atelier de José David.

De uma das prateleiras retirei um livro, “La Fontaine des Fables ou les Antifables de La Fontaine”, de Talmon (Éditions Suzanne Hurter, Genève, 1996), com catorze ilustrações de José David. Desde antes dos contos de ma mère Loi (2) que as fábulas se redigem na língua das gansas (3). E também outros textos, como este. A língua de ma mère l’oie passa também pela antroponímia, daí que Talmon seja nome como Reesetan (4) ou X (5). Não era preciso Talmon advertir à entrada que sabe Francês e por isso não ia cometer tanto erro de hortografia: as gralhas, diz ele, não são involuntárias. Bastava ter visto a bata branca pendurada no bestiário ao lado do guarda-chuva preto, para se saber que de noite todos os gafos são falsos. Em todo o caso, deixo uma das fábulas como exemplo de que as verdadeiras gralhas são muito difíceis de publicar, porque a falta de imaginação alheia está sempre morta por as corrigir:

“A midi jai demandé à maman qi lisai dan sa chambre la pairemission de prandr un chocola sur la table du salon. Elle ma di non pa zavan le repa. Alor jai demandé a papa o jardin. Il ma di la maime choz non pa zavan le repa.

Sé dev il se son marié riin que pour manmerdeé.»

Maria Estela Guedes. Membro da Associação Portuguesa de Escritores, da secção portuguesa da Associação Internacional de Críticos Literários, do Centro Interdisciplinar da Universidade de Lisboa e do Instituto São Tomás de Aquino. Directora do TriploV. Alguns livros publicados: Herberto Helder, Poeta Obscuro; Eco/Pedras Rolantes; Crime no Museu de Philosophia Natural; Mário de Sá-Carneiro; O Lagarto do Âmbar; a_maar_gato; Lápis de Carvão; Ofício das Trevas; A Boba.
   
   

 

 

 


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