Revista TriploV
de
Artes, Religiões e Ciências
ISSN 2182-147X
NOVA SÉRIE

 

 

 

 

 

 
 

A.M. GALOPIM DE CARVALHO

Cozido de entrecosto com grelos de nabo

Cozido de entrecosto com grelos de nabo foi a especialidade com que o Tristão, um viseense e dono de uma pequena tasca do bairro, nos quis obsequiar, a mim e a mais dois amigos, no dia em que fez vinte e cinco anos de casado.

- Foi um quarto de século de trabalho quase sem descanso, ela na cozinha e eu atrás do balcão e a servir às mesas. - Dizia, feliz da vida, enquanto nos punha os talheres ao lado dos pratos de “Cavalinho”, da antiga fábrica de Sacavém.

- Embora pequena, esta casa dá muito trabalho. - Disse eu, num tom de quem aprecia o bom serviço que este simpático casal presta à sua habitual clientela.

- De manhã à noite e só se descansava ao Domingo. Eu, sim, mas ela, não. Eu nunca deixei de ir à bola, fosse aqui em Lisboa ou noutro sítio qualquer. Ela, coitada, ficava a fazer tudo o que é preciso numa casa. Vá lá que não temos filhos. Mas quem ia à praça, todos os dias, era eu. Todas as manhãs, às sete horas, já estava na Ribeira.

Estávamos em Janeiro de um ano em que o Inverno, chuvoso e demasiado frio, convidava a escolher um certo tipo de confecções da admirável gastronomia tradicional portuguesa.

- Cheira bem! – Exclamei quando Tristão se aproximou com as travessas fumegantes, nas mãos.

– Os enchidos, aprendi consigo, são cozidos à parte. - Disse. - Não há dúvida que deixam um gosto a fumo que estraga o paladar deste delicioso prato. E aqui têm, as carnes já cortadas, numa travessa, e os legumes, noutra.

Envolto nos aromas que rapidamente encheram a pequena sala, foi salivando que servi o primeiro dos meus dois companheiros.

– É tão simples como isto – dizia agora o Tristão, aproximando-se com uma garrafa de Colares tinto, de 1968, de um lote que tinha guardado para certas ocasiões.

– Cozo o entrecosto com duas cebolas grandes cortadas a meio, uma cabeça de alhos, só descascada por fora e sem a desmanchar, muito pouco sal e uma boa porção de grãos de pimenta preta. Cozida a carne tiro-a para fora e enfio lá dentro os grelos, quanto mais reimosos (bravios, amargos) melhor, as batatas e os nabos. Os enchidos, como disse, são cozidos à parte. A minha mulher gosta de pôr cenoura mas eu não. Acho que adoça e tira aquele amarujar muito especial dos grelos. E agora, bom proveito.

A.M. Galopim de Carvalho. Professor jubilado da Universidade de Lisboa. Geólogo e escritor. Foi diretor do Museu Nacional de História Natural de Lisboa.

 
 

 

 

 




 



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