REVISTA TRIPLOV
de Artes, Religiões e Ciências
ISSN 2182-147X
NOVA SÉRIE

 

 

 

 
 

A.M. GALOPIM DE CARVALHO

Parabéns, Fernando Catarino

Há dias em que o dia começa bem.

Quando esta madrugada do dia 9 de Novembro de 2012, ainda de noite, ao abrir o e-mail que os nossos amigos Maria Augusta Silva e Pedro Foyos, do “Casal das Letras”, me enviaram, tive o prazer de ler os parabéns que dirigiram ao Professor Fernando Mangas Catarino pelo seu aniversário.

Pode ler-se nesta edição do prestigiado blogue: Nunca em Portugal terá sido prestada a um catedrático tão expressiva homenagem pública de aniversário. A celebração dos 80 anos de Fernando Catarino, superlativa referência académica do País, consegue exceder em participação o acontecimento inolvidável que foi há uma década a última aula (ao ar livre) deste grande comunicador científico e que decorreu no Jardim Botânico da Universidade de Lisboa – o seu palco natural durante meio século”.

Da homenagem que neste dia feliz se presta a este que foi meu par na direcção do Museu Nacional de História Natural, apraz-me destacar o “mais impressionante mar de abraços (um deles é o meu), procedentes de Portugal inteiro e também do estrangeiro, que acaba de receber, numa manifestação que fará história na internet”.

Emocionado por esta leitura, não pude deixar de recordar 60 anos de convívio profissional e de companheirismo nas lides sem conta pela vulgarização do conhecimento científico que protagonizámos neste Portugal, cujos políticos não merecem o povo que somos.

Uma das muitas vezes que acompanhei este meu colega de Universidade, como simples participante interessado em aprender, foi “Onde a Terra se acaba e o mar começa”, como escreveu Camões no Canto III de Os Lusíadas, ou seja, na ponta mais saliente do promontório que marca o extremo ocidental da Serra de Sintra, a que os homens do mar chamavam o “Focinho da Roca”. Com ele desci a falésia no sítio do farol, um escarpado que permite observar aspectos particulares da intrusão magmática que elevou esta “jóia da petrografia”, como se lhe referiu o Prof. Afred Lacroix, ilustre petrógrafo francês que lhe dedicou particular atenção. Mas não foi para observar as rochas que descemos até o mar. Fomos em busca da Armeria pseudoarmeria, uma espécie rara de dicotiledónea, da família das plumbagináceas, que ali floresce a um dado nível da estratificação florística presente. Já não recordo a altura do ano dessa memorável excursão. Só sei que a subida foi lenta e ofegante, sob um calor intenso, o que não impediu o professor de falar, descrever, comentar, explicar um pormenor aqui e ali e, até, lembrar Lord Byron, o poeta inglês da viragem do século XVIII ao XIX, que se referiu a esta serra como um Éden Glorioso”, considerando-a, deselegantemente, uma ”pérola lançada a porcos”.

A elevada sensibilidade poética deste meu amigo, revelou-se-me numa das primeiras saídas de campo que fizemos juntos. Foi na Arrábida, mais precisamente na Mata do Solitário. Aí, numa pausa que fizemos junto de uma Pistacia lentiscus, a vulgar aroeira, o mestre abriu a sacola e retirou, lá de dentro, um livro de poemas de Frei Agostinho da Cruz (1540-1619), que leu para um grupo de alunos deliciados com aquele outro talento do professor.

A última das várias oportunidades em que tive o prazer de o acompanhar, foi no parque anexo ao Palácio da Pena, em Sintra. Estávamos em Agosto. Os cimos da serra permaneciam envoltos numa nebulosidade fresca, a contrastar com o azul celeste e o calor estival da planura que se estende a Sul da pequena montanha. Com o Prof. Catarino, esta preciosa mata transformou-se numa sinfonia de espécies arbóreas, muitas delas exóticas, diferentes de tudo o que é característico da nossa flora.

Para os que tiveram o privilégio de lidar com ele, o Catarino, na gíria dos alunos, ou o Mangas, para os amigos mais chegados, é uma sinfonia e um poema de simpatia, humanidade e sabedoria.

Parabéns, amigo!

Prof. Fernando Catarino
 

A.M. Galopim de Carvalho. Professor jubilado da Universidade de Lisboa. Geólogo e escritor. Foi diretor do Museu Nacional de História Natural de Lisboa.
Blogue: http://sopasdepedra.blogspot.com/

 

 
 

 

 

 




 



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