REVISTA TRIPLOV
de Artes, Religiões e Ciências
ISSN 2182-147X
NOVA SÉRIE

 

 

 

 
 

A.M. GALOPIM DE CARVALHO

As primeiras reguadas

A escola de São Mamede, em Évora, era húmida e gelada no Inverno. Muitas crianças descalças levavam um pedaço de cortiça para não porem os pezinhos no ladrilho. Em todas as salas, nas paredes, além de Jesus crucificado e das fotografias do Marechal Carmona e do Doutor Salazar, havia as, para nós muito bonitas e coloridas, “Lições de Salazar”. Era uma escola só para rapazes, pois nesse tempo havia separação de sexos nestes e noutros estabelecimentos de ensino. Nas escolas femininas só havia professoras, mas nas masculinas havia professoras e professores, alguns deles, mais do que elas, particularmente severos. Por não se saber a lição, errar uma conta, dar erros no ditado ou por qualquer violação da disciplina, apanhavam-se reguadas a sério, muitas vezes, meia dúzia em cada mão e, às vezes, mais. Foi interiorizando medos, não confessados, que dei entrada nesta Escola em 1940. Adeus bons tempos de menino a aprender as primeiras letras no carinho da mãe e no aconchego da casa, à braseira nos dias dos meses mais frios.

Tendo feito a 1ª e a 2ª classes no então chamado Ensino Doméstico, estreei-me na vida escolar, na 3ª classe de uma professora simpática e bondosa que, praticamente, não nos batia e que, quando tinha de nos aplicar umas palmatoadas como instrumento pedagógico, então aceite e seguido, o fazia num jeito de deixar cair a régua sobre a mão do aluno. Nada que se comparasse com os castigos de muitos dos professores seus colegas, entre os quais tinha fama um certo professor, bem conhecido dos alunos pelas piores razões. Este homem, de pequena estatura física, franzino, de cabelos negros e lisos e sem brilho, má cara, de tez escura e macilenta, era de uma crueldade inaceitável nos dias de hoje. Ainda sei o nome deste “monstro” mas não o revelo para não incomodar eventuais descendentes. Mãos roxas e engadanhadas pelo frio, nas manhãs de Inverno, tantas vezes de pele estalada pelas frieiras, esperavam, estendidas, obedientes e trémulas, pela fúria do mestre-escola. Um castigo desta natureza aplicado em crianças ou, mesmo, em adultos é crime na sociedade que hoje estamos a viver.

A entrada na escola primária e o caminho diário de ida e volta, entregue a mim próprio, abriram-me novos horizontes da cidade, permitiram-me explorá-la, primeiro no percurso mais directo – Porta Nova, Torre das Cinco Quinas, São Mamede – e, depois, progressivamente alargado, no interior das muralhas e, muitas vezes, fora de portas, como ainda hoje se diz.

O meu primeiro dia de aulas, em São Mamede, ficou assinalado pela minha iniciação nestes “mimos pedagógicos”. No final da manhã desse dia e a caminho de casa, no intervalo para almoço, fui, em alegre alvoroço e alarido, atrás do automóvel do Dr. Alberto Jordão, um ilustre advogado e director da Companhia Alentejana de Seguros, A Pátria. Era um descapotável dos anos 30 e um dos poucos veículos motorizados então existentes na cidade. A essa hora o chauffeur (o termo francês estava na moda), o senhor Rodrigo, estacionava o “calças arregaçadas” à porta da escola, à espera do Albertinho, o filho do patrão. Num instante o Ford ficava repleto de rapazes, quais sardinhas em lata, entre os quais, uma ou outra vez, em dias seguintes, consegui enfiar-me e nele fazer o percurso que sempre terminava na Porta Nova, num arraial de gritos e correrias. Nesse dia, porém, fruto da minha inexperiência, fiquei de fora e foi correndo atrás do carro, exteriorizando alegria e energia, que eu e mais dois condiscípulos fizemos aquele mesmo trajecto. Uma contínua que nos observara naquele desaforo foi dar conta disso ao director, um outro professor, cuja fama, só de pensarmos no seu nome, nos fazia estremecer.

Ao começo da aula, no tempo da tarde desse mesmo dia, a contínua veio chamar-nos, a mim, ao Marreiros e ao Diniz, para que fôssemos ao senhor director. Meio assustado mas, ao mesmo tempo, tranquilo porque, em minha consciência, nada fizera de mal, notei que os colegas olhavam para mim com os olhos de quem dizia «estás tramado!». A verdade é que, nesse tempo, um rapazinho de oito ou nove anos não se dava conta do perigo que representava, para ele, correr, desarvorado, atrás de um automóvel. Cabia aos adultos adverti-lo e protegê-lo desse risco e, naquele tempo, a educação e a pedagogia estavam na ponta da palmatória. Já dentro do gabinete, foi a reprimenda ouvida com muito respeito, de olhos postos na dita, balouçando nas mãos do pedagogo. Passada esta, estávamos a apanhar seis em cada mão. Para mim foi a estreia, para eles não, que já levavam dois anos de experiência.

O ano lectivo correu sem grande problemas. No exame, a minha falta de preparação anterior concretizou-se com um R (de reprovado) bem desenhado, a vermelho, na pauta. Experimentei aí o primeiro chumbo da minha vida de estudante. Deixei a classe de uma professora invulgarmente bondosa para a época e, para mal dos meus pecados, passei para a classe de um daqueles professores sempre temidos e nunca amados, com a fama e o proveito de muito severo.

Por cada erro no ditado, a mais de três, o mestre-escola contabilizava uma reguada. E eu dava tantos erros! E, como eu, muitos dos meus condiscípulos. Era vê-lo, triunfante, guedelha caída sobre os olhos, de sorriso sacana, a estalar a régua nas palmas das mãos de uma fila de rapazinhos de rosto marcado pela expectativa do castigo, aguardando a sua vez, franzindo e fechando os olhos a cada estalo. Concluído o ajuste daquelas contas, cansado o braço do pedagogo, iniciava-se a lição de aritmética ou de outra das matérias do programa. E a uma pergunta sem resposta ou mal respondida, era certo e sabido:

- Anda cá! Dá cá a mão! …

Naquele tempo, o nível de instrução obrigatória era o da 3ª classe do ensino primário (3º ano, como agora se diz), que terminava com um exame e um diploma exigível, por exemplo, para ingresso nos lugares mais humildes da função pública, no comércio, como caixeiro, nos correios, como carteiro ou boletineiro e, até, para ser eleitor. Ler, escrever e contar era tudo o que o cidadão comum necessitava para fugir à vida do campo, ao aprendizado artesanal ou oficinal e a outros trabalhos que apenas fizessem uso da força braçal. Este diploma de habilitações mínimas, o Primeiro Grau, como era chamado, vigorou durante muitos anos, e lembro-me, por exemplo, em meados dos anos 50, de o ter apresentado, como documento comprovativo de escolaridade, na obtenção da carta de condução de motociclos. Eu, que nessa altura já concluíra o antigo 7º ano do Liceu e a frequência de dois anos na Universidade, fui, por ser mais rápido e a conselho do instrutor, requerer um certificado do meu diploma da 3ª classe, um papelinho singelo, passado na hora pelo amanuense da Direcção do Distrito Escolar, sedeada na Praça de Sertório. O examinador, um agente técnico de engenharia burocratizado, a quem toda a gente se referia como o senhor Engenheiro, não me tratou mal, pelo contrário, até foi simpático, explicando bem as palavras a um nível que entendeu adequado à minha suposta iliteracia.

A.M. Galopim de Carvalho. Professor jubilado da Universidade de Lisboa. Geólogo e escritor. Foi diretor do Museu Nacional de História Natural de Lisboa.
Blogue: http://sopasdepedra.blogspot.com/

 

 
 

 

 

 




 



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