REVISTA TRIPLOV
de Artes, Religiões e Ciências
ISSN 2182-147X
NOVA SÉRIE

 

 

 

 
 

A.M. GALOPIM DE CARVALHO

O Grande Rio do Sul  

No final daquele ano lectivo de 1958-59, em que o Reitor Marcelo Caetano recusou pagar os vencimentos dos assistentes recém contratados (eu era um deles), o director do Centro de Geologia, Prof. Carlos Teixeira,  mandou-me acompanhar o seu colega francês e amigo, Daniel Laurentiaux, da Universidade de Reims, a realizar trabalho de campo na região de Mértola. Tive, assim, oportunidade de percorrer o Guadiana em alguns dos seus mais belos troços e isso encorajou-me a conhecê-lo de outros ângulos que não os da geologia.

Albufeira da barragem de Alqueva, no Guadiana

Dizem que havia um pastor
antre Tejo e Odiana,
que era perdido de amor
per ua moça Joana”.

Bernardim Ribeiro, «Écloga de Jano e Franco»

Grande rio do sudoeste ibérico, de importância capital na estruturação do território peninsular, o Guadiana foi usado pelos Romanos como divisória entre duas das grandes províncias administrativas do império, a Bética, a oriente, e a Lusitânia, a poente, confrontadas ao longo do troço que hoje corre a jusante do Caia. Designado até ao século VIII por Rio Ana, os Árabes respeitaram-lhe o nome, antepondo-lhe uadi, que significa rio, o mesmo elemento composicional que nos ficou nas designações de alguns rios no sul do país, como Odeleite, Odemira e outros mais, termo que está igualmente em uso nos uedes do noroeste africano, os vales secos correspondentes aos rios temporários característicos das terras semiáridas do Magrebe.

Uadiana ou Odiana foi o nome deste importante curso de água, eixo do al Garb al Andalus, expressão que, em árabe, quer dizer o ocidente da Hispânia, ou seja, grosso modo, a Andaluzia, hoje na Espanha, o Alentejo e o Algarve. Odiana sobreviveu à reconquista, no século XIII, e assim se manteve, por mais três centenas de anos, na linguagem dos portugueses. Antre Tejo e Odiana era o nome da grande comarca e da circunscrição administrativa meridionais, ao tempo em que este rio foi fronteira entre os reinos de Portugal e de Leão. Por seu lado os castelhanos transformaram o uadi, radicado na região ao longo de cinco séculos de ocupação islâmica, em guadi, elemento que ainda hoje compõe o nome de muitos rios do sul de Espanha, como Guadalimar, Guadalupe, Guadojoz e, o mais conhecido de todos, o grande Guadalquivir. Guadiana é, assim, um nome importado que se impôs em virtude da sua posição raiana e que substituiu o antigo Odiana, perpetuado na Écloga de Bernardim Ribeiro, influência que não se verificou com os nomes Odeleite, Odiáxere e outros com a mesma raiz, correspondentes a rios mais afastados da influência castelhana.

Desde sempre, como qualquer grande rio, o Guadiana foi pólo de atracção das populações. Os mais antigos testemunhos datam do Paleolítico, representado por abundantes utensílios em pedra lascada jacentes nos seus terraços. Tal atracção percorreu toda a Pré-história e os tempos históricos até aos nossos dias, sendo de assinalar, entre outros, os vestígios da ocupação romana, deixados nas minas de pirite de S. Domingos, a presença islâmica, hoje bem conhecida em Mértola, os vários castelos e praças fortes edificados nas suas margens e cercanias, o porto mineraleiro do Pomarão e as muitas dezenas de açudes construídos no seu leito a fim de lhe represarem as águas e, com isso, mover as respectivas azenhas.

Na continuidade da relação do Homem com a terra, temos hoje a barragem de Alqueva, obra que representa, para muitos, o mais recente e talvez o mais grandioso e esperançoso abraço entre o Alentejo e o grande rio do Sul. Assim os inconfessáveis interesses de alguns não estraguem as esperanças desses muitos outros.

 
 

A.M. Galopim de Carvalho. Professor jubilado da Universidade de Lisboa. Geólogo e escritor. Foi diretor do Museu Nacional de História Natural de Lisboa.
Blogue: http://sopasdepedra.blogspot.com/

 

 
 

 

 

 




 



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