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O LUSO AUGUSTO NOBRE

Marya Estela Guedes
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No meu último editorial, "Coimbra, no Douro..." (1), tomei um dos artigos subversivos de Augusto Nobre (2) como pretexto para uma reflexão sobre a fragilidade do nosso conhecimento. Certamente os leitores se interrogaram sobre o motivo pelo qual eu não indaguei das razões que levaram esse homem, tão importante nas ciências como António, o irmão, o é nas letras, a situar Coimbra, Aveiro e Figueira da Foz na zona do Douro, entre outros atentados às noções primárias de geografia para qualquer lusitano. Essas razões já as tinha explicitado há muito tempo noutro artigo (3): as espécies introduzidas têm de ser protegidas até constituirem populações estáveis, com número suficiente de indivíduos, o que pode demorar décadas. Uma das maneiras de as proteger da avidez dos outros naturalistas, e até dos curiosos, é não indicar com exactidão o lugar onde foram deixados os primeiros indivíduos, os que se espera venham a aclimatar-se de forma a reproduzirem-se e a estabelecerem-se no terreno como elemento normal da fauna dessa região. Mas o naturalista tem de informar, é preciso que o facto seja conhecido de quem possa continuar a tarefa: ora a maneira de dizer escondendo, ou de seleccionar leitores, é a língua das gralhas, o discurso cujo código secreto é o erro, em geral suficientemente grosseiro para não ferir o autor com a suspeita de ignorância.

Leu o artigo? Não viu que Augusto Nobre declara a introdução logo na primeira página, na nota de rodapé? Vá lá ver e volte, é só clicar aqui e depois retroceder.

Como leu com os seus próprios olhos, Augusto Nobre avisa que fará a introdução à sua memória sobre os moluscos terrestres de Portugal, no fim da série de textos. Onde é que já viu uma introdução no fim? Só se for em Rabicha, enigmática localidade que ele situa em Monsanto, na Estremadura. Em qualquer outro texto ou local da Terra, a introdução é a primeira coisa que se dá (a ler), e no fim chora-se um posfácio de tua culpa, tua maxima culpa, e minha, não, que estou inocente...

Descanse, não vou falar de caracóis nem de outras espécies de moluscos, por muito que algumas sejam tão originais como a Pupa que nem é secale nem avena, antes secale com avena, também conhecida como Pupa Luzitanica, a forma que neste país apareceu depois de alguma introdução forçada da Pupa avena na Rabicha da secale ou vice-versa, porque disso não sei nada, excepto, mas sem certeza absoluta, que os caracóis são hermafroditas, por isso a técnica de casar avenas com frautas rústicas nem deve ter nada a ver com esse tipo de introduções. Era meu desejo, isso sim, aproveitar o caso do portuense ilustre, como diria Sampaio Bruno, amigo dos Nobre, para reflectir sobre assunto anexo, a partir de um texto exemplar de uma obra cheia de luz para quem quiser estudar a língua das gralhas, a "Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira". Recomendo-a aos investigadores em História e Filosofia das ciências. Note bem: recomendo-a só a esses investigadores, e só para este fim. Quem retira dela aquelas informações que retransmitimos sem citar a fonte, na vã glória de fazermos História, arrisca a integridade do que tem dentro da cabeça. Talvez seja bom aconselhar o uso de capacete a quem lê os textos científicos de que usualmente me ocupo.

E ora aqui está a primeira das três reflexões destinadas a este editorial: se o incauto arrisca a integridade do seu conhecimento com a leitura de uma enciclopédia, é porque já sabia alguma coisa antes de recorrer a ela. É o que precisamente me acontece: antes de ler a biografia de Augusto Nobre que a equipa do TriploV tem o prazer de pôr em linha (4), em toda a sua facsimilada frescura, para instrução dos cibernautas que usam capacete, já eu sabia alguma coisa que entra em conflito logo com as primeiras linhas.

Diz então a Grande Enciclopédia que Augusto Nobre iniciou as suas investigações no Museu Allen, colaborando assim na obra de renovação científica em que estavam empenhados professores de nome, como Luso da Silva, Isaac e Francisco Newton.

Teremos lido bem? Não estarei eu a ficcionar essa de o Francisco, que nessa altura tinha a idade do Augusto, mais o pai, Isaac Newton, etc., terem sido professores e de nome? Melhor será confirmar, citar de cor é mais perigoso nestas andanças do que trepar ao Pico de Clarence, que em certas versões científicas tem mais de 10.000 (dez mil) metros de altitude. Confirmemos, clicando aqui e regressando à base.

Sim, não há dúvida, Isaac Newton e seu filho Francisco, a quem dedico a melhor das atenções em livro editado no TriploV (5), foram distintos professores. De quê, quando e onde, eis o mistério. No caso de Francisco Newton, o maior mistério - e digo mistério sem confundir com enigma, sabendo que o segundo se refere ao natural e o primeiro ao sobrenatural - o maior mistério, repito, no caso das aulas ministradas por Francisco Newton, é o do quando: este incansável naturalista tinha tanto trabalho em África, Portugal, Macau e Timor, desde a sua mais tenra infância, que não houve outro remédio senão coligir material em Timor e São Tomé na mesma data, e em distintos pontos afastados de Fernando Pó (Bioko) no mesmo dia, e agora, com as tarefas docentes em cima, onde irá parar o seu dom da ubiquidade? Muito para além dos dez mil metros de altitude com que o Pico de Santa Isabel, ou de Clarence (em Fernando Pó) ultrapassa os modestos oito mil do Everest, roçando assim pela penugem das asas dos serafins.

Quanto ao naturalista Isaac Newton, distinto cultor de criptogâmicas nas horas livres deixadas pela sua profissão de guarda-livros numa grande casa inglesa votada ao comércio do vinho do Porto, poderá ter tido tempo para se dedicar ao ensino directo numa sala com alunos, se bem que a actividade mais próxima disso que lhe conheçamos seja a de co-fundador da Sociedade de Instrução do Porto. O mistério de Isaac não é tanto assim o do quando, antes o do sumário das lições: o que terá ele ensinado na Sociedade de Instrução do Porto, supondo que esta Sociedade se tenha dedicado à actividade docente?

Luso da Silva é um mistério ainda mais sobrenatural. Já por diversas vezes investigadores me perguntaram se sei algo sobre ele, se conheço dele alguma notícia biográfica, ao menos uma dessas lutuosas em que as revistas científicas são pródigas, apresentando foto, data de nascimento e morte, enfim, esse maná desejado pelos que acreditam que informações objectivas como nomes e datas são História. Não, respondo, nada sei, nunca vi, conheço, sim, artigos de Luso da Silva sobre moluscos. Pois, responde quem pergunta, isso, também eu, mas é pouco. Estou farto de procurar mais e nunca descobri nada...

Ora bem: se alguém souber quem é Luso da Silva, se alguém conhece uma biografia, uma nota, ao menos um desses obituários em que é pródiga a literatura científica, agradeço que a envie, para a publicarmos no TriploV. Até lá, fique aqui declarado o que sinto sobre tão estranho assunto: Luso da Silva é um heterónimo de Augusto Nobre, talvez apareça ainda no baú de Fernando Pessoa...

E falta a segunda e terceira reflexão, não é verdade? Peço imensa desculpa, mas depois desta lição enciclopédica fiquei tão arrasada que vou recolher a penates, deixo-lhe a si a tarefa de pensar.

 
Post scriptum
b) Leia também: Eureka, achámos o Luso da Silva!
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(2) Mollusques Terrestres du Portugal
(3) Ciência e Subversão: Augusto Nobre - Strela Guedes
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