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COIMBRA, CAPITAL DA CULTURA
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OS GENES E A ALIMENTAÇÃO

Nestlé, Fondation Alimentarium e Ministério da Cultura
Coimbra, 2003, 200p. il.

Publicado sob a direcção de Esther V. Schärer-Züldin, este livro, catálogo de uma exposição homónima, põe-nos ao corrente das manipulações genéticas nos alimentos, das suas vantagens e perigos. Tem participação de vários autores, a cobrirem estas principais áreas: a ética; a história, desde as mais remotas selecções de plantas que se conhecem até à domesticação de animais, passando pela recapitulação dos passos que vão dos estudos de hereditariedade à descoberta do ADN; Genética e ADN; a engenharia genética e a alimentação, com bastantes exemplos: trigo, fungos, leveduras, soja, cacau e café, vinhas, óleos, pecuária, etc..

Da parte da História seleccionámos o texto abaixo, sobre a selecção artificial dos animais domésticos.
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A CRIAÇÃO DE ANIMAIS DOMÉSTICOS
Renate Ebersbach & Jörg Schibler
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Os animais domésticos são criados pelos seres humanos para seu proveito e reproduzem-se sob o seu controlo. Dependendo das funções a que são destinados, as diversas espécies de animais domésticos apresentam um aspecto diferente, em maior ou menor grau, dos seus parentes em estado selvagem.

O cão é o animal doméstico mais antigo, dado que descende dos lobos domesticados já no final do Paleolítico (c. de 13000 anos a.C.). Seguiram-se as ovelhas e as cabras, primeiras espécies importantes do ponto de vista económico. As relações destas espécies com o ser humano são diferentes das que este mantém com o cão. Tal como as plantas cultivadas, os animais domesticados representam a principal fonte de alimentação, ou inclusivamente a única, das populações agro-campesinas sedentárias, que se desenvolveram a partir de 10000 a.C. no Crescente Fértil (região actualmente ocupada pela Síria, Israel, Iraque e Irão). Pouco tempo depois, bovinos e suínos eram também domesticados. Desde 8000 a.C., estas quatro espécies de animais, assim como os conhecimentos para a sua criação, expandiram-se atéà Europa ocidental, ultrapassando os Balcãs e as
costas mediterrâneas, no contexto da «revolução neolítica». A sua presença na Suíça foi comprovada a partir do ano 5000 a.C. Durante o período de transição da economia de caça e recolha para a economia de produção, assim como durante os períodos de escassez (nas épocas de más colheitas por condições meteorológicas adversas, por exemplo), os seres humanos continuaram a caçar e a recolher alimentos. Não obstante, durante o Neolítico, a economia de produção estabilizou (na Suíça, desde 5500 até 2400 a.C.). Desde o final deste período, dispunha-se de uma riqueza pecuária estável que garantia 80% ou mais da alimentação de carne, conseguida pelo aperfeiçoamento dos conhecimentos e dos instrumentos agrícolas, pelo desbravar de terrenos (anteriormente cobertos por frondosos bosques), e pela adaptação às condições regionais.

A importância e a utilização das espécies de animais domesticados tiveram grandes flutuações no decurso dos milénios, devido às tradições culturais e às condições ambientais, assim como ao aperfeiçoamento dos recursos e dos conhecimentos agrícolas (por exemplo, os cuidados a ter com o gado durante os invernos rigorosos). O certo é que estes animais sempre tiveram muita importância na região da Suíça, já que, para além da carne, forneciam leite, couro, chifres e ossos; das ovelhas obtinha-se a lã. As primeiras indicações concretas da utilização de bovinos como animais de tracção encontram-se na civilização Horgen (c. 3400 a 2800 a.C.). Assim o evidenciam os vestígios de jugos e, no caso dos bovinos, a dilatação das articulações das falanges, os corpos mais robustos e a alteração da idade da matança. O mais provável é que, desde 2700 a.C., se utilizasse com regularidade na Suíça a lã de ovelha. O leite tomou-se parte da actividade agrícola numa escala intensiva muito mais tarde, embora já anteriormente se reservassem pequenas quantidades para o consumo humano.

Às cinco primeiras espécies de animais domésticos conhecidos na Europa (cão, vaca, porco, ovelha e cabra) foram-se juntando outras ao longo do tempo. O cavalo, por exemplo, foi domesticado nos finais do Neolítico; a galinha, nos finais da Idade do Ferro (c. 400 a.C.); o burro, a mula, o gato, o pombo e o ganso na época romana; o pato e o coelho na Idade Média e, por
último, o peru e o porco da Índia são importações do Novo Mundo. Uma nova dimensão no relacionamento entre humanos e animais domésticos evoluiu recentemente com a utilização destes como animais de laboratório, o que levou, por exemplo, à criação de novas espécies de ratos.

O desenvolvimento da criação de gado na Suíça não foi linear, sofreu muitos reveses. Estas variações são observáveis em ossos de animais do período pré-histórico, uma vez que são frequentemente encontrados durante escavações arqueológicas. Animais pequenos e enfezados indicam condições fracas; no caso do gado, isto relaciona-se especialmente com os problemas da sua manutenção ao longo do inverno. Ao longo da pré-história, até à época romana, o registo arqueológico mostra que o gado foi ficando cada vez mais pequeno. Nos finais da Idade do Ferro, as vacas com um metro de altura eram a normalidade. Sob a influência romana, o tamanho do gado voltou a aumentar, quer por causa de melhores condições, que acompanharam a agricultura intensiva quer devido à reprodução com animais maiores de outras regiões do Império Romano.

Na Idade Média, as pastagens foram cedendo lugar aos campos de cultivo, o que, por sua vez, provocou animais mais pequenos e magros. Na Suíça, só no século XVIII e, sobretudo, no século XIX se observou um aumento significativo no tamanho dos bovinos, devido à selecção mais cuidada de animais para reprodução, o uso de fertilizantes artificiais, o cultivo intenso de pastagens, a produção de forragens e a prática crescente de alimentar o gado no estábulo. Daí em diante, passou a haver uma distinção clara entre a criação de animais para obtenção de leite, a criação de animais para obtenção de carne, e outras prioridades. As novas raças, de elevado rendimento, produzem cerca de vinte vezes mais leite que as raças anteriores à industrialização. Estas raças especiais, que, com a ajuda da biotecnologia, atingiram recentemente novas e até maiores dimensões, são conseguidas à custa da robustez e variedade genética do nosso gado. As adaptações regionais e os cruzamentos desenvolvidos ao longo de milénios estão em perigo de se perderem nas próximas décadas. Várias instituições por toda a Europa tomaram a seu cargo a tarefa de preservar para a posteridade esta herança cultural. Na Suíça, este trabalho está, principalmente, a cargo da Fundação Pro Spezie Rara, que cuida de uma variedade de raças antigas de animais domésticos e espécies cultivadas de plantas, ameaçadas de extinção.

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