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António Oliveira
Duas boas razões para ler um livro
Barcelona  Brasileira
ADELTO GONÇALVES
Editora Nova Arrancada
Lisboa, 1999
e-mail: novaarrancada@mail.telepac.pt
Editora Publisher Brasil, São Paulo, 2002
e-mail: pbrasil@uol.com.br

Motivar um leitor alérgico às leituras, derrubando os paredões de iliteracia que o mantêm preso ao seu mundo trivialmente limitado, é sempre tarefa árdua e delicada para um amante da leitura. Contudo, se o título de uma obra, que por si só é sempre elemento apelativo à curiosidade de um leitor mesmo avesso a livros -  e «Barcelona Brasileira», com toda a sua aura enigmática é exemplo disso mesmo – gostaria também de registar duas boas razões (entre outras) para ler o livro de Adelto Gonçalves: por um lado, a construção de um enredo cheio de acontecimentos urdidos como uma teia de filigrana misteriosa, e, por outro lado, a descoberta (ou redescoberta) de uma sociedade onde se discutem valores imprescindíveis à dignidade humana, tais como a liberdade, a justiça e a lealdade, pelos quais o indivíduo luta até dar a vida por eles.

«Barcelona Brasileira» é uma narrativa polifónica com características (obviamente) jornalísticas em que a diegese assenta nas intermitências cronotópicas, apresentando em cada capítulo uma situação diferente da anterior, suavizando, por um lado, a leitura dos acontecimentos e, incutindo-lhes, por outro lado, um cunho de «suspense» e ambiguidade.

Ao fragmentar a sua obra em curtos capítulos, o autor manipula, com arte de romancista policial, o mistério que mantém o leitor atento até ao final. De facto vivemos, no acto de leitura, uma ansiedade criada pela esfinge colocada no título e que vamos decifrando pouco a pouco.

Ao ler a obra, deparamo-nos com um discurso claro, correcto e conciso, apoiado por frases curtas, descrição limitada e parcimónia na utilização dos ornamentos literários a fim de não cortar o ritmo da acção, nem desviar o leitor da expectativa que oferece o desenrolar da intriga. Na verdade, a objectividade desta linguagem, a precisão dos acontecimentos e a sua impulsão nos momentos da acção criam, no leitor, a ideia de que o vivido se transmuta em representado.

No percurso da obra, podemos estabelecer vários níveis da análise: o da transitividade e das funções activas e expressivas que a compõem e o de um itinerário ideológico com conotações revolucionárias. A perspectiva de que o desfecho será ou não sangrento, de aniquilação total ou de liberdade, e da sua incerteza, determinam o paradigma do eixo da transitividade, alternando opressão/liberdade, vencedor/vencidos, esperança/desalento.

Num mundo onde cada vez mais se assiste à ruína de padrões ideológicos, de crenças religiosas ou filantrópicas, de utopias gastas pela azáfama do dia a dia; um mundo onde não há dialéctica entre os Sanchos Pança e os Quixotes, morremos cada vez mais embrutecidos (como dizia Marx) pela força mecanizada do poder mercantilista que corrompe os verdadeiros valores da sociedade. Longe vão os discursos altruístas de Jaurès, as alegrias efémeras do Front Populaire, os mitos revolucionárias que mantinham acesa a esperança de um mundo novo, os poetas ‘ideologicamente socialistas’ que nos faziam cantar - sobretudo contra um sistema corrompido e sem futuro - (Aragon, Guillen, Alberti, Celaya) vencidos por moinhos de vento.

O «poeta», que o autor descreve, é o paradigma destes sonhadores e revolucionários que não dormem «à sombra dos cedros seculares», mas fazem do sonho «uma espada de combate». Este poeta/doutor ajuda os pobres, beija as crianças, abraça os amigos, faz galanteios às mulheres e trata dos animais doentes, sendo um verdadeiro poeta «ladrão do fogo» que o partilha com os seus semelhantes. Neste sentido, podemos responder a Pedro Saavedra (o Pedro incrédulo da Bíblia) que a poesia sempre resolve muita coisa!

É destas crenças, destas cinzas renascidas, que Adelto Gonçalves nos fala. Ao longo da sua temática rica em debates ideológicos, em confrontos de crenças, revivemos um passado/presente que nos lembra (e relembra) que não podemos viver sem refrigério. Porque os usos e os valores que prevalecem hoje nas sociedades de consumo são exactamente inversos àqueles que regem a polis do nosso imaginário (do imaginário do poeta). Como escreve Steiner, a importância do passado é directamente proporcional à sua utilidade no presente. Por isso, devemos agarrar estas oportunidades que nos fazem reviver um passado promíscuo e sonhador para nos convencermos que a vida sonhada e realizada nas nossas convicções mais profundas ainda é possível.

A obra de Adelto Gonçalves lembra-nos que – ainda hoje -  continuamos submergidos por imagens de violência, de ideologias impostas e preconceitos totalitários que não nos dão liberdade de escolha. Somos governados por incultos e violentos que chegam ao poder por via de discursos sofistas e demagogos. É urgente tomarmos consciência das barbáries políticas e da servidão tecnocrática para renascer na liberdade plena de dar e receber que está para além das obrigações da imanência. Comprar pássaros só «para o prazer de os soltar das gaiolas e vê-los sumir no horizonte» já é uma maneira de viver e amar ao mesmo tempo.

No universo do discurso interpretativo e crítico, os livros engendram outros livros, as aventuras outras aventuras, as personagens outras personagens, que, sendo diferentes, arrastam sempre com elas paixões comuns à humana condição, de tal forma que não é possível ler a narrativa de Adelto Gonçalves sem rever imagens de Germinal de Zola, ou lembrar figuras verdadeiras como Proudhon e Trotsky nas suas lutas político-sociais do final do século XIX. Essas lutas procuram dissolver todas as tiranias, todas as oligarquias, todos os poderes tirânicos, de todos os povos, mas desfraldam muitas convicções, porque todas as ‘boas intenções’ acabam «onde a algibeira começa».

Na apresentação desta obra, o professor Massaud Moisés intitula o seu prefácio de «A velha Santos entre paixões e conflitos». Ora, é justamente o conflito de paixões que dá sabor à vida. É deste conflito entre sentimentos e ideias diversas que a dialéctica histórica se nutre, consubstanciando uma humanidade mais universal e mais ecuménica no respeito por cada crença. Mas, para isso, temos de sujar as mãos, porque «a vida reserva momentos em que é necessário optar por um lado». A partir desta tomada de posição podemos responder à Helena e assegurar ao poeta de que a impunidade não será eterna, na medida em que «no meio da situação atroz em que vivemos há perspectivas animadoras» (António Cândido). Para isso, temos de combater a ignorância - o pior inimigo do homem -, responsável pela miséria de muitos.

Ora, o primeiro passo não será, como diz Parsifal, ler um «bom livro em vez de pasquim», isto é, restituir o folhear de revistas perniciosas por uma boa leitura dos velhos clássicos acabando, assim, com o obscurantismo cultural? Para tal, todos nós devemos fazer um «esforço de educação e de auto-educação», como refere António Cândido.

Pois é, meu caro Adelto, voltamos ao reencontro com as lições que nos dá Proust: a essência da vida está na literatura porque é a arte que preenche o vazio da vida.

 
 
António Oliveira é Doutor em Ciências da Literatura pela Universidade do Minho
 

 

 

 




 



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