Nuno Rebocho

A legenda do “Juvenil” do Diário de Lisboa

O “Juvenil” do Diário de Lisboa era Mário Castrim. Dessem-lhe as voltas que quisessem, ele tipificava esse “Juvenil” – não confundir com o outro, o do República. Este rivalizava com o do Diário de Lisboa, que merecia as iras do fascista Diário da Manhã e até era por ele referido como “Konsomolskaya Pravda das terças-feiras”. Certo é que nunca vi nele sombras de Partido Comunista e havia até muito cuidado, por razões da maldita censura dos “coronéis” salazarentos, em lhe não deixar transparecer qualquer cotão marxista.

Foram muitos os que alvoreceram nesse “Juvenil”: estou a lembrar, entre outros, o Jorge Silva Melo, o Luís Matoso, o Mário Contumélias, o Torquato da Luz, o Eduardo Prado Coelho, a Alice Vieira (Alice Vassalo Pereira), o Hugo Beja, a Ana Lisboa, a Antónia Gadanha, etc., etc., enfim um mar de gente. Foi ali que eu próprio me iniciei nestas lides. Cheguei lá (já não me lembro como) pouco depois da morte do jovem e excelente contista – muito promissor – Carlos Miguel, apanhado pela derrocada do teto da estação ferroviária do Cais do Sodré. Conheci então o Mário Castrim, amizade que se prolongou por alguns, poucos, anos, até o dia em que o Alberto Costa, muito exaltado, o acusou, já não me recordo por que motivo, de “traidor” de toda uma geração, de toda uma juventude. Tomei o partido do Alberto Costa, cortei com o Mário e estou disso mais que arrependido.

Foram tempos muito animosos, de muita polémica entre nós, sobretudo tendo por tema questões do cinema. Ele era a “Crítica”, com direito a réplica, “Crítica da crítica”, e a tréplica, “Crítica da crítica crítica”: lembro de uma, muito acirrada, que envolveu o Jorge Silva Melo, o Eduardo Prado Coelho e eu próprio. À falta de liberdade - sonhada, muito sonhada – afoitávamo-nos a esta guerra “de alecrim e de manjerona”, que valia tanto quanto os seus temas que já ninguém recorda, mas exercitavam as almas para outros voos. Foram o ponto de partida para reuniões de tese havidas ao pé do Largo do Rato, nas traseiras de onde hoje é a sede do Partido Socialista, e nas quais, recordo, tomaram parte o Eduardo Prado Coelho, o Jorge da Silva Melo, o Matoso e eu próprio, entre outros.

Tínhamos um adversário: a censura, “o lápis azul de S. Pedro de Alcântara”. Gostava de a fintar. E nisso me treinei, com algum sucesso, inventando perífrases e sinónimos que os censores não entendiam, mas de que a rapaziada gostava: considerava-as inteligentes. Por exemplo: Marx era “o autor de Teses sobre Feuerbach” e Lenine “o autor de Materialismo e Empiriocriticismo”. Certa feita, entretive-me com o Torrinha, que andei a vasculhar, e escrevi um texto que nada queria dizer mas obrigava o censor a ir ao dicionário palavra sim – palavra não. Encalhou três meses na censura e foi totalmente cortado: o desgraçado do patarreco coronel suou as estopinhas e não entendeu, até porque nada havia para entender. E, pelo seguro (das sicher ist sicher), censurou tudo. Foi a minha coroa de glória. Divertíamo-nos.

Como era próprio da juventude, vivíamos sob o fogo da paixão: sucediam-se os amores e os namoros. Derricei-me, naturalmente, pela Antónia Gadanha quando esta rompeu o namorico com o Hugo Beja, até estivemos para casar, mas, em casa da Maria Almira Medina, houve entre nós um sério desentendimento: foi a ruptura, Antónia partiu para Inglaterra, onde casou e se instalou. Reencontrei-me com ela (havia amizade) quando, há uns anos, veio fazer uma exposição em Portugal, em Sintra.

Quem tirou proveito deste “fogo sagrado”, foi o Mário, que descasou (divorciou-se) da tia de Carlos Plantier (foi meu colega e chefe de redação na Vida Mundial e no Jornal Novo) para se consorciar com a Alice Vassalo Pereira, embora, por brincadeira, lhe tivesse dito que “havíamos de casar um dia”, como ela, certa vez, lembrou quando apresentámos em conjunto um livro da Olinda Beja.

O Castrim (seu verdadeiro nome, Manuel da Fonseca, mas adotou o pseudónimo por que ficou conhecido para evitar confusões onomásticas) morava em Alcântara, numa casa na hoje chamada rua José Dias Coelho, assassinado a tiro pelos esbirros da PIDE quando, clandestino, vinha da casa de um “camarada”. Soube-se, mais tarde, que esse camarada era Mário Castrim. O escultor, funcionário do Partido Comunista, estava em trabalho de militância, pela qual sacrificou a vida. Outras lutas.

Coxo (era paralisado de uma pedra), injustamente acusado pelos “jovens turcos”, Mário Castrim teve outras inquietações, que, por ordens recebidas, sabia defender: de sangue na guelra, nós não sabíamos disso, nem tínhamos que saber. Ninguém será obrigado a andar, de sirene ligada, a narrar a sua vida. Deve-se evitar julgamentos apressados de pessoas, sobretudo quando há circunstâncias que impedem a visão de certos acontecimentos que têm de ser necessariamente ocultos.

O que importa é ter consciência que o “Juvenil” do Diário de Lisboa – tanta falta faz! – foi um grande viveiro ao longo de anos e anos. Muito mais tarde, sem o mesmo êxito, o Diário de Notícias tentou imitá-lo: mas os tempos tinham mudado, a juventude já não era a mesma e devia saber-se que nada se repete. Talvez tenha havido boas intenções, mas dever-se-ia tomar em consideração certos aspetos muito particulares antes de avançar para esse propósito. Como falharam as tentativas, várias, de publicar coletas desse “Juvenil” das terças-feiras – o do República era às sextas-feiras e nascera de uma cisão havida na Rua da Rosa.

A morte do “Juvenil” teve a ver com o aparecimento de uma nova geração mais politizada, vinda das católicas JEC, JUC e JOC, que tomaram as trincheiras disponíveis para travar os novos combates contra o regime salazarista. Estavam ao assalto e treinavam os braços para a democracia que estava prestes a emergir. Tiveram o meu apoio e foi então que conheci o meu amigo Jorge Paz Rodrigues.

Mas o “Juvenil” do Diário de Lisboa ficou uma legenda, uma nobre e indispensável referência. Dele sempre se falará, quando se evocar as décadas de 70 e 80 do século passado e se recordar como a juventude teve a coragem de dizer “não” ao salazarismo.


Nuno Rebocho
 

Nuno Rebocho - Nascido em 1945, em Queluz (Portugal), viveu em Moçambique desde os três meses de idade até 1962. Jornalista, poeta e andarilho – bastou-lhe ter estado preso por cinco anos na Cadeia do Forte de Peniche (por cinco anos, motivos políticos), para recusar ser animal sedentário. Viveu a imprensa regional (Notícias da Amadora, Jornal de Sintra, Aponte, A Nossa Terra, Jornal da Costa do Sol, Comércio do Funchal, entre outros), foi redactor da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, das revistas O Tempo e O Modo e Vida Mundial, em diferentes diários e semanários, e é chefe de redacção da Antena 2 da RDP. Colaborador de Acontece en Sorocaba (Brasil) e Liberal (Cabo Verde). Autor de “Breviário de João Crisóstomo”, “Uagudugu”, “Memórias de Paisagem”, “Invasão do Corpo”, “Manifesto (Pu)lítico”, “Santo Apollinaire, meu santo”, “A Nau da India”, “A Arte de Matar”, “Cantos Cantábricos”, “Poemas do Calendário”, “Manual de Boas Maneiras”, “A Arte das Putas” (poesia), “Estórias de Gente” (crónicas), “O 18 de Janeiro de 1934”, “A Frente Popular Antifascista em Portugal”, “A Companhia dos Braçais do Bacalhau” (investigação histórica), está representado em diversas antologias e colectâneas em Portugal, Espanha e Brasil. Tem colaborado em catálogos para exposições de artes plásticas: Ramón Catalan, Deolinda, Carlos Eirão, Alfredo Luz, Edgardo Xavier, João Alfaro, Maria José Vieira, Ricardo Gigante, Ana Horta, Isabel Teixeira de Sousa, Nuno Medeiros, Viana Baptista, Teresa Ribeiro, Rico Sequeira, João Ribeiro, José Manuel Man... Comissariou a Bienal do Mediterrâneo, Dubrovnik (Croácia), em 1999.

 

 

 

 




 



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