NUNO REBOCHO
O Diabo – uma confusão de nomes

Quando as pessoas adotam nomes diferentes daqueles por que são conhecidas, todas as confusões são possíveis. Devia disso estar avisado, desde os tempos em que, no Comércio do Funchal (o jornal cor-de-rosa, de boa memória), comecei a colaborar com o pseudónimo de L H Afonso Manta – diziam, erradamente, que eu era o Luandino Vieira. Que disparate… Mas a coisa bem me serviu para iludir os esbirros salazarentos – a censura e a PIDE. E à pala de nomes falsos (que fui buscar às notícias: dois ladrões, H Marta e L Afonso, tinham por isso sido presos) lá fui ludibriando a Ditadura.

Pois foi à conta de enganos desse tipo que me coube trazer para O Diabo aquele que acabou por ser o seu diretor: José Esteve Pinto. Procurei saber pormenores sobre o indivíduo e ninguém me soube dizer. Pudera! Não era pelo nome de Esteves Pinto que era conhecido. Falasse de Rebordão e todos me apontavam! Conversei longamente com ele, uma conversa de surdos, que mais engendrou confusões. Afinal, havia tantos pontos em comum entre marxismo e fascismo, que todas as ilusões eram permitidas.

Eu conto. O Diabo foi uma confusão com pernas. Nem era para se chamar O Diabo (o nome que estava pensado era o de Via Norte, como jornal que defendia os interesses do Porto; acabou por ser dado à sua editora), nem a diretora era para ser Vera Lagoa. Quem esteve na calha para o efeito era o Chico da CUF (Francisco Ferreira), que à última da hora recusou. Acabou por a escolha ser a Vera Lagoa, que disse estar emotivamente associada ao nome de O Diabo. Bateu-se por isso. Que não fosse por razões onomásticas que a coisa não ia por diante…

O “pai da criança” foi o António Gonçalves, então chefe da delegação no Porto do Jornal Novo. Eu ficava como chefe da delegação de Lisboa, com o semanário impresso na Damaia, na tipografia Peres. O objetivo era alcandorar o irmão do António a diretor quando o jornal estivesse já lançado. Todavia, surgiram problemas diversos, o António e eu chateámo-nos: ele despediu-me, eu chamei-lhe “garoto”, a Vera tomou o meu partido e eu acabei por lhe desvendar toda a manigância. O resultado foi que o António Gonçalves foi desalojado, a Vera propôs-me o nome de Esteves Pinto e eu, feliz ou infelizmente, acabei por aceder. Só mais tarde me apercebi que o Esteves Pinto era o Rebordão e que eles viviam maritalmente. Fui enganado!

Suponho que é primeira vez que relato as circunstâncias em que O Diabo surgiu. Foi um segredo bem guardado. Acabei por ser seu chefe de redação, depois de incidentes diversos, que implicaram a minha saída do jornal, de novo o meu regresso mais tarde – para substituir o José Manuel Teixeira – e novamente a minha demissão. A verdade é que perdi completamente o controlo do semanário, de todo assegurado pela dupla Vera Lagoa – Esteves Pinto.

Foi, portanto, O Diabo uma confusão de nomes, que acabou por se desviar de todo dos seus propósitos. Muitas vezes, as coisas acabam por se tornar totalmente diferentes do que, na sua génese, se pretendia. Ganham dinâmicas próprias e tornam-se entidades muito diversas do que inicialmente se queria que elas fossem.

É um caso a ter em consideração.

Nuno Rebocho

Nuno Rebocho - Nascido em 1945, em Queluz (Portugal), viveu em Moçambique desde os três meses de idade até 1962. Jornalista, poeta e andarilho – bastou-lhe ter estado preso por cinco anos na Cadeia do Forte de Peniche (por cinco anos, motivos políticos), para recusar ser animal sedentário. Viveu a imprensa regional (Notícias da Amadora, Jornal de Sintra, Aponte, A Nossa Terra, Jornal da Costa do Sol, Comércio do Funchal, entre outros), foi redactor da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, das revistas O Tempo e O Modo e Vida Mundial, em diferentes diários e semanários, e é chefe de redacção da Antena 2 da RDP. Colaborador de Acontece en Sorocaba (Brasil) e Liberal (Cabo Verde). Autor de “Breviário de João Crisóstomo”, “Uagudugu”, “Memórias de Paisagem”, “Invasão do Corpo”, “Manifesto (Pu)lítico”, “Santo Apollinaire, meu santo”, “A Nau da India”, “A Arte de Matar”, “Cantos Cantábricos”, “Poemas do Calendário”, “Manual de Boas Maneiras”, “A Arte das Putas” (poesia), “Estórias de Gente” (crónicas), “O 18 de Janeiro de 1934”, “A Frente Popular Antifascista em Portugal”, “A Companhia dos Braçais do Bacalhau” (investigação histórica), está representado em diversas antologias e colectâneas em Portugal, Espanha e Brasil. Tem colaborado em catálogos para exposições de artes plásticas: Ramón Catalan, Deolinda, Carlos Eirão, Alfredo Luz, Edgardo Xavier, João Alfaro, Maria José Vieira, Ricardo Gigante, Ana Horta, Isabel Teixeira de Sousa, Nuno Medeiros, Viana Baptista, Teresa Ribeiro, Rico Sequeira, João Ribeiro, José Manuel Man... Comissariou a Bienal do Mediterrâneo, Dubrovnik (Croácia), em 1999.

 

 
 

 

 




 



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