NUNO REBOCHO
Lembranças de Mário Dias Ramos

Ignoro o que é feito do Mário Dias Ramos. A última vez que li um texto seu, foi uma crónica datada de 2013. E tive saudades de quando com ele me encontrava em sua casa em Braga ou com ele no café, na Praça da República. Era então assessor de Mesquita Machado na Câmara bracarense e eu acompanhava minha filha na reedição do seu “Logro”.

Conheci o Mário Dias Ramos nos anos 60, trabalhava ele na editora Cronos (no Intendente, de Lisboa) e quando me prendiam fortes laços com o Armando Ventura Ferreira e a Maria Almira Medina. Gatinhava eu no mundo das artes e o Mário andava nessas lides desde os anos 50. Tivemos então oportunidade de conviver e me interessar então pela quase abortada aventura do “nouveau roman”, moda que o Alfredo Margarido trouxera de Paris e encontrava repercussão em Artur Portela Filho: de certo modo, o ar fresco das ideias de Alain Robe-Grillet e Marguerite Duras entravam em linha de choque com o instalado neo-realismo e como a juventude é, por natureza, mais aberta às novidades, eu era então recetivo a quanto se opunha ao déjá vu.

Não que eu fosse seduzido pelo novo romance defendido por Margarido. De resto, nunca fui por ele atraído nem quando, anos mais tarde, ingressei a redação de “Jornal Novo”, de Artur Portela Filho. Marcado e dividido pela forte influência que recebi de três grandes mestres – Cansado Gonçalves, em Moçambique, e Mário Dionísio e Vergílio Ferreira, já em Lisboa – voltava-me para as ideias novas dentro de um princípio que, a outrance, por essa altura defendia: “devemos muito às anteriores gerações mas, por favor, saiam da frente”. Tanto na estética, tanto na política.

Portanto, nesse tempo, Mário Dias Ramos era a novidade. E nessa época a sua poesia me ia ganhando Foi assim que fui ganho para as suas “Caligrafias” e, décadas depois, para as “Quatro Estações”.

Deu muitas voltas o mundo, reencontrei o Mário em “A Tarde”, onde fui seu companheiro. Tivemos alguns desaguisados, quando ele integrou a comissão de trabalhadores e eu era subchefe de redação, mas nada que de todo nos afastasse. Fechei os olhos ao ele ter andado com o Kaulza de Arriaga (há muito que deixei de julgar o que não entendia), uma vez que nunca o identifiquei com a Direita, como anos volvidos o demonstrou em Braga: é certo que entrou na equipa de Mesquita Machado pelas mãos do cónego Melo… Mas, como diz o meu amigo Nicolau Saião, há por vezes coisas que não percebemos, nem conhecemos e que explicam tudo.

Mário revelou-se depois um excelente cronista. Basta ler o seu “Mandarins & Protozoários” para disso não ter dúvidas.

Costumo recordá-lo como um bom amigo e lamentar que vicissitudes da vida o tenham feito passar ao lado de uma grande carreira, que ele prometeu e merecia.

 

Nuno Rebocho

Nuno Rebocho - Nascido em 1945, em Queluz (Portugal), viveu em Moçambique desde os três meses de idade até 1962. Jornalista, poeta e andarilho – bastou-lhe ter estado preso por cinco anos na Cadeia do Forte de Peniche (por cinco anos, motivos políticos), para recusar ser animal sedentário. Viveu a imprensa regional (Notícias da Amadora, Jornal de Sintra, Aponte, A Nossa Terra, Jornal da Costa do Sol, Comércio do Funchal, entre outros), foi redactor da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, das revistas O Tempo e O Modo e Vida Mundial, em diferentes diários e semanários, e é chefe de redacção da Antena 2 da RDP. Colaborador de Acontece en Sorocaba (Brasil) e Liberal (Cabo Verde). Autor de “Breviário de João Crisóstomo”, “Uagudugu”, “Memórias de Paisagem”, “Invasão do Corpo”, “Manifesto (Pu)lítico”, “Santo Apollinaire, meu santo”, “A Nau da India”, “A Arte de Matar”, “Cantos Cantábricos”, “Poemas do Calendário”, “Manual de Boas Maneiras”, “A Arte das Putas” (poesia), “Estórias de Gente” (crónicas), “O 18 de Janeiro de 1934”, “A Frente Popular Antifascista em Portugal”, “A Companhia dos Braçais do Bacalhau” (investigação histórica), está representado em diversas antologias e colectâneas em Portugal, Espanha e Brasil. Tem colaborado em catálogos para exposições de artes plásticas: Ramón Catalan, Deolinda, Carlos Eirão, Alfredo Luz, Edgardo Xavier, João Alfaro, Maria José Vieira, Ricardo Gigante, Ana Horta, Isabel Teixeira de Sousa, Nuno Medeiros, Viana Baptista, Teresa Ribeiro, Rico Sequeira, João Ribeiro, José Manuel Man... Comissariou a Bienal do Mediterrâneo, Dubrovnik (Croácia), em 1999.

 

 
 

 

 




 



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