NUNO REBOCHO

Arcas encoiradas VI
Da Cela F ao Pavilhão B do Forte de Peniche

Encafuado na Cela F, no rés-do-chão do edifício anexo às instalações da PIDE, à Rua do Heroísmo no Porto, desde logo me apercebi da dimensão do rombo que a repressão policial nos dera. Como me apercebi de que houvera infiltração de um informador (um “bufo”) e de quem ele era: estavam presas caras que eu desconhecia, os documentos apreendidos eram demasiado elucidativos, a atitude colaborante de alguns dos detidos fazia que a polícia política não encontrasse dificuldades na desmontagem da organização. A linha de comportamento a ter na PIDE não fora claramente por nós definida. Apenas recusávamos adotar as medidas defensivas então tomadas pela estrutura do PC cunhalista: a política de “não falar” nos interrogatórios estava rechaçada e por motivos mais que óbvios – alguns dos heroicos e exemplares comportamentos propalados, acabaram por se revelar enganosa propaganda para não “desmoralizar militantes”, vide o caso de Canais Rocha. Por vezes, levada ao extremo essa atitude, tinha efeitos negativos – o que acontecera com José Rolim fora chocante: punido por cortar a língua durante os interrogatórios na PIDE… para não falar! Fazia-se tábua rasa de que os esbirros tinham métodos para sacar declarações: à tortura, somava-se a chantagem e o pentotal (o temível “soro da verdade”, que já fora utilizado). Fundamental, defendíamos nós: que os segredos organizativos fossem eficazmente resguardados, que ninguém fosse apanhado pela repressão em consequência direta das nossas detenções - que se ludibriasse com falsas declarações os torcionários. Era a linha defensiva anarquista e dos primeiros tempos do PC que devia presidir ao nosso comportamento na PIDE. Nada estava firmemente estabelecido. Os factos acabariam por dar alguma razão neste particular aos partidários de Álvaro Cunhal.

A margem de manobra que nos era dada ficava por demais limitada pelo estendal da documentação apreendida. Ela falava por si. Apenas me restava assumir responsabilidades, mesmo do que as não tinha, na esperança de que, com isso, estancasse o fio das investigações. Nessa linha, “confessei” pertencer a cinco organizações ao mesmo tempo para “justificar” o conhecimento de factos que constavam nos documentos capturados. Os interrogatórios policiais transformaram-se num jogo do gato e do rato, procurando driblar os interrogadores.

Tinha necessidade de contactar os companheiros, o que era difícil na minha situação. Estava sem cinto, sem relógio, sem papel, sem caneta, apreendidos pelos carcereiros. Ia identificando pelos passos cada um dos detidos na escada da polícia, apercebendo-me da sua localização. A minha mulher, a Dúlia, por exemplo, estava no mesmo edifício de que eu, mas no piso de cima: tinha em comum a casa onde, uma vez por semana, se banhava - ficava noutro edifício. Pus a imaginação a funcionar: com toalhas de papel higiénico, espinhas de peixe e o café do pequeno-almoço fiz material de escrita, que embrulhei em prata dos maços de cigarros. Tentei encontrar um recanto da casa de banho que passasse despercebido aos carcereiros – começou por ser uma perna oca das cadeiras, acabou por ser o ralo do chuveiro. Funcionou, após experiências goradas. O isolamento a que a PIDE me condenara minorou.

Como Dúlia estava em adiantado estado de gravidez, consegui convencer a polícia que nos permitisse um “tête-a-tête”. Tinha um pretexto: precisava de combinar com ela um contacto com a minha sogra a fim de tratar de toda a documentação para um casamento oficial. De resto, essa era, desde o princípio, a minha intenção. Para os pides, o facto de a assumir seria algo que eles, hipocritamente, não deveriam contrariar. O meu encontro com Dúlia, apesar de estreitamente vigiada pelos polícias, permitiu que lhe sussurrasse formas de contacto através da casa de banho. E tudo esteve bem até que, por ser excessiva a carga de recados escritos e deixados no chuveiro, acumulados dentro de um pedaço de chumbo da bisnaga de dentífrico, rebentasse devido à pressão da água, precisamente quando um agente policial utilizava o duche. Houve ranger de dentes…

A polícia apercebia-se de que, através de batidas nas paredes, eu procurava comunicar com os reclusos nas celas contíguas. Tentou apanhar-me, mas quase sempre detetei-lhes o faro: por exemplo, quando na cela G introduziram um agente que me quis puxar pela língua...Foi por demais óbvia a intenção para que eu me deixasse iludir. Os processos de comunicação possível eram, aliás, um modo de passar o tempo, tal como a desesperada procura de possibilidades de fuga: não me podia esquecer que da PIDE do Porto fugiram Silva Marques (então, funcionário do PC que fora preso) e Palma Inácio (contumaz resistente, que comandou também o assalto ao Banco de Portugal na Figueira da Foz). Portanto, estava feita a prova de que a delegação da PIDE no Porto (da qual eu dizia que se entrava pela Rua do Heroísmo e se saía pelo cemitério do Prado do Repouso) não fora construída à prova de fugas. Os meus olhos vasculhavam e procuravam adivinhar as evasões possíveis.

Os interrogatórios policiais também “matavam o tempo” da reclusão: os pides não desarmavam. Vieram agentes de Lisboa – o inspetor Cunha, fumando o seu charuto, divertiu-se quando o temível Tinoco me interrogou. Deslocara-se propositadamente da capital: “como ´que você soube…?”. Não me recordo do assunto, mas lembro-me da minha resposta: “foi aquele lá de cima!”. “Aquele lá de cima, mas quem?”, insistia Tinoco. “Aquele lá de cima. Se você acredita que ele faz filhos, eu acredito que ele faz revoluções”. Tinoco ficou furioso. Cunha riu.

Impossibilitado de ler (não tinha acesso a jornais nem a livros), recuperei práticas que há meses perdera. Mentalmente, arquitetei alguns poemas. Recordo “Cela F” – começava assim:

“A porta da cela tem um nome e uma letra.

Há dentro da cela um púcaro e uma mesa.

Dentro da cela há um homem que passeia.

Está escrito no púcaro PIDE e tristeza”

E o poema, em duas estrofes, acabava: “um guerrilheiro canta A Internacional”.    

As diligências da PIDE deixavam-me entender que ela procurava alguma coisa mais, não sabia eu o quê. Soube que a secreta espanhola viera igualmente ao Porto, para tentar catar na documentação capturada indícios que lhe interessassem. Um dia, no corredor de acesso á sala de interrogatórios, colocaram-me encostado a uma parede, entre pides e emigrantes clandestinos detidos, para que alguém me identificasse como “Afonso Vieira Dias”… Nunca ocultara que fosse tratado com esse nome. Mas a diligência permitiu que reconhecesse militantes detetados pela polícia política que, embora “queimados”, tinham escapado à captura. Cansado da tortura do sono (perdi a noção exata dos dias e noites a que a ela me submeteram), resolvi agredir o agente Fins – “remédio santo”, pancadaria em resposta até ao knock out, atiraram-me para a enfermaria e acabaram o interrogatório. Percebi que devia ter tido essa reação há mais tempo… Escapei assim à “estátua”, tortura em que o preso era impedido de se sentar.

Começara o processo do meu casamento oficial. Dúlia saíra da prisão para ir ter o nosso filho, cujo nome já fora por nós escolhido – Ernesto, em homenagem a Guevara, e Bento, invocando o mítico Bento Gonçalves (ex-secretário geral do PCP) e o amigo Bento Vintém, detido antes de mim. Nos seus primeiros anos, Dúlia e eu tratávamo-lo por Che Bento, nome que irritava os carcereiros. Nasceu em Vila Nova de Gaia, em casa de uma amiga. Quisemos o matrimónio a 1 de maio, tanto pelo significado da data como por ser aniversário do dia em que nos conhecêramos. A PIDE opôs-se: formalizámos o casamento para o dia seguinte, 2 de maio, cerimónia numa sala da polícia política, a presença dos pais de Dúlia e os meus. Ernesto nasceria semanas depois. A mulher regressou à cadeia e nela esperou o julgamento no Tribunal de S. João Novo…

Encerrados os interrogatórios, fui reunido aos demais detidos do meu processo numa camarata situada ao fundo das instalações pidescas. Entretanto, durante a sua saída da cadeia e numa ida ao mercado do Bulhão, Dúlia protestara veementemente contra a violência policial cometida sobre uma vendedeira: presa em consequência, as vendedeiras juntaram-se em solidariedade e os jornais noticiaram o incidente - a “senhora engenheira” (assim a trataram) protestara contra a barbaridade, surgira movimento contestatário. Nunca cheguei a ler a local: a censura da cadeia, socorrendo-se da tesoura, suprimiu-a do jornal. Apenas dela tive conhecimento oralmente, numa visita que recebi.

Com a minha prisão, as relações com o meu pai pareciam melhorar. Enganei-me. Sem ter consciência do significado do lugar onde me encontrava, numa das suas visitas que me fez ao Porto, meu pai saiu-se com a afirmação desajustada ao ambiente, refletindo a mentalidade que eu considerava “burguesa” mas correspondia ao que ele então pensava (tempos mais tarde, dar-lhe-ia razão, ainda que a considerasse inapropriada para as circunstâncias): “vocês, comunistas, falam muito da liberdade, mas querem acabar com a liberdade dos outros”. Exaltei-me, recusei receber mais visitas suas - não mais me procurou na cadeia.

Durante alguns poucos dias pude ter o meu filho junto a mim na camarata comum com os outros detidos. Nela fomos lendo as notícias do que acontecia no mundo: com o fim dos interrogatórios, chegavam revistas espanholas e francesas que narravam os acontecimentos do maio de 1968 em Paris, entre nós apaixonadamente debatidos. O maio gaulês era uma verdadeira revolução cultural e fazia prova de que estava esgotada a superestrutura moral e cultural daquele século vinte, tal como então a conhecíamos. A juventude já não a suportava, varria o gaullismo mas não exterminava os “gauleiter”. As forças do bloqueio, fossem elas quais fossem, não poderiam estancar as forças emergentes: a força mental mostrava ser superior à força das armas. Era certo que a revolução do maio francês nada tinha a ver diretamente com a chinesa “revolução cultural” – esta, compreendi-o mais tarde, poderia evitar a deriva burocrática que precipitara o estalinismo e que, de algum modo, Liu Shao-chi representava. Eram as “massas” em movimento contra o “aparelho”, evitando essa espécie de “Termidor burocrático” que começava a desenhar-se na China Popular – invocando Staline, Mao afogava Staline no que resumíamos numa frase: “a China vai de Mao a Piao”. Mas, nesse momento, tais questões eram por mim somente intuídas.

E chegaram as notícias da queda da cadeira de Salazar e da sua substituição, na chefia do governo corporativista, por Marcelo Caetano. Abriam-se janelas de esperança de que alguma coisa iria mudar. Caetano, porém, já fazia uma grave cedência à partida: consentia na farsa da manutenção de Salazar como primeiro-ministro, alimentada por Américo Thomaz e pelo gangue dos “irredutíveis salazaristas”. Mas as esperanças que irrompiam adormeciam os “velhos” republicanos, entre os quais estava o então meu advogado, figura oposicionista, grada nos meios nortenhos. Aparentemente, cabia-lhe razão: constava que Salazar, nos últimos dias do seu consulado, tencionara transferir para o Tarrafal de Cabo Verde os presos políticos portugueses, pelo menos era esse o boato que chegara à cadeia. O “marcelismo” desfazia essa ameaça. As ilusões de um episódico abrandamento do regime e as teses dos advogados vingaram, afastando a ideia de uma afirmação de fé militante no julgamento que se preparava - decisão coletiva dos detidos, tomada num conciliábulo havido entre nós. Estaríamos de corpo presente na sala do Tribunal, abdicando de toda e qualquer declaração: seríamos “bem-comportados”. Com esta decisão, fomos seis a julgamento. Fui condenado a três anos e meio de prisão maior com “medidas de segurança”, Pedroso da Mota a dois anos, Lamego a ano e meio, os restantes (Dúlia incluída) a penas suspensas. De acordo com as acusações de que era alvo, em condições normais da ditadura seria condenado a oito anos de reclusão, mais “medidas”: o regime aparentava “benignidade”… Nestas condições, Pedroso da Mota cumpriu pena no Porto, Lamego e eu fomos trasladados para o Forte de Peniche. Simão, que estivera detido e connosco fora a julgamento, teve um desastre de automóvel que o vitimou – fora à fronteira de Espanha transportar um foragido à polícia e, no regresso, sofreu um despiste. Foi um fogoso companheiro.

Em Peniche não havia lugares vagos nas celas individuas (Pavilhão B), Lamego e eu ficámos inicialmente instalados na mesma sala do Pavilhão A: treze em cada uma. Éramos os únicos sem ligação ao PC, tratados como “amigos”. Nas salas do segundo piso, estavam alguns presos nos processos da FAP, mas nunca nos cruzámos com eles. Com fama de “trotskista”, todos inicialmente me hostilizaram. Levou tempo a desfazer-me desse labéu. Recordo um dos reclusos com quem tive relações mais estreitas – Baridó. Vidreiro da Marinha Grande, participara no levantamento daquela vila em 1934, na criação do seu “soviete”, estivera desterrado no campo prisional do Tarrafal, em Cabo Verde: significava, no meu imaginário, os momentos áureos do PC.

Pouco depois, quando houve vaga, fui transferido para as celas individuais e perdi os contactos com Lamego. Convivia agora com dirigentes do partido cunhalista: António Dias Lourenço, Domingos Abrantes, Blanqui Teixeira, Ilídio Esteves, José Magro, Guilherme José de Carvalho, Pires Jorge, Joaquim Fogaça, Rogério de Carvalho, Veiga de Oliveira… No pátio do recreio, acompanhava Fogaça (que passava os seus longos anos de cadeia com minuciosos estudos sobre a História de Portugal), para dele ouvir o historial partidário. Pertencera ao Secretariado do Partido, com Bento Gonçalves e José de Sousa, presos em 1935 durante um encontro clandestino diante da Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa. O “camarada Ramiro” (seu pseudónimo) estivera no Tarrafal, comprometido com a chamada “política nova”, de regresso a Portugal liderou o partido na fase do “desvio de direita” do princípio dos anos 50, voltara a ser preso e fora expulso do PC, acusado de homossexualidade. Era casado com outro mito do partido: Cândida Ventura.

Fogaça narrava-me a história que vivera. Chegado à cela, passava ao papel o que escutara com o cuidado de codificar o escrito para que os guardas prisionais não percebessem o que estava escrito. Recordo que “pai” era o PC, “queb” (de quebrado) significava partido. E assim por diante. As narrativas de Fogaça inquietavam o “comité Carrilho”, célula organizada do PC dentro do Forte de Peniche – destacaram Rogério de Carvalho (que tinha fama de KGB) para vigiar as nossas conversas. Expulso da organização partidária, “Ramiro” devia-lhe (apesar) obediência – regras da “disciplina”. No entanto, continuou a sua explanação comigo que cuidadosamente eu anotava. Mais tarde, quando me juntei a Francisco Martins Rodrigues, passei-lhe toda essa resenha, depois discutida no coletivo dos presos e confiada a Fernando Rosas (foi a base para a História do PC por si redigida).

Estava de fascina à cozinha do piso do terceiro piso, quando (não me recordam os motivos) fui castigado pelos guardas a seis dias de cela disciplinar. Encerrado na cela, sem direito a recreio e visitas, ao terceiro dia, quase à hora do almoço, ouvi pela janela de grades o Francisco Martins Rodrigues gritar “ninguém come, ninguém come”. Eram os presos da FAP em greve da fome. Fiz o que devia, sem sequer saber os porquês do protesto: se presos estavam em greve de fome, deveria ser solidário. Contrariamente a nós, os acusados de serem do PC não aderiram à greve: para mim, eram “rachados”. Ouvidos os gritos que chegavam do 2º piso, e dado que era o preso mais novo, cheio de força e no meio da correnteza de celas, passei a servir de altifalante – passaram a ribombar os nossos gritos na vila de Peniche. Ameaçaram-me: ou comia ou era entubado.

A situação complicava-se. Estava de castigo quando a greve se iniciara, não conhecia as suas razões, não sabia o que fora combinado, se acaso o fora. Agravantes: o preso da cela ao lado, Ângelo Veloso (“funcionário” do PC) furava a greve, não me podia com ele aconselhar. Na outra cela, ficava o Filipe Viegas Aleixo, da LUAR (detido quando integrava um comando que, em Trás-os-Montes, se internava com armas para iniciar a luta armada em Portugal; fora, com Henrique Galvão, um dos assaltantes do paquete “Santa Maria”), que era muito velho e surdo – trabalhara a vigiar uma betoneira. Batendo na parede, em código, tentei saber o que estava combinado. Escusado! Quando acabei de bater, respondeu-me Viegas do mesmo modo: “bate mais alto, que não oiço”. Comecei a esmurrar a parede, o resultado foi o mesmo.

Sem instruções, resolvi resistir. Fui o primeiro a ser atacado pela brigada prisional, nem sequer tinha o exemplo de outros por que me orientasse. Era o que tinha maior fôlego (uma das consequências de ser então o prisioneiro mais novo em todo o Forte), impunha-se para os guardas que fosse rapidamente silenciado. Com os colchões do leito a barricarem-me a porta da cela, peguei no recipiente de barro para conservar água e atirei-o à cabeça dos guardas, seguindo-se o tampo do balde dos dejetos noturnos. Sem mais “munições” para arremessar, a cela foi invadida por três guardas, a cabeça projetada contra os gradões da janela, derrubado pelo guarda Moreira que, repetidamente, me bateu com a cabeça no chão e rasgou-me as calças. Fazia gestos para não me deixar entubar, convencido de que o tubo de soro me seria introduzido pela boca – não fazia a mínima ideia de como se faria o entubamento. Quando os guardas e o médico Viegas, que colaborou na operação, saíram de cima de mim, corri para o balde, levei os dedos à goela e vomitei.

Em consequência da greve da fome, os carcereiros separaram os presos: os grevistas, considerados “mal comportados”, “terroristas”, foram transferidos para o terceiro andar; os “bem comportados” (que tratámos por “revisas”) para o segundo. Ficámos assim no terceiro piso o Sebastião Capilé, o Viegas Aleixo, o Francisco Martins Rodrigues, o Pulido Valente (quando regressou do Hospital Prisional da Caxias), Saúl Nunes, ainda o Alexandre Alhinho de Oliveira, o Fernando Brederode Santos (presos em Lisboa, dias antes de mim), o Lucas e o Henrique Neto (do MPLA), o Saldanha Sanches (que rompera com o PC), os irmãos d’Espiney (Rui, Sérgio e Zé Luís), o Domingos Arouca (FRELIMO), Vítor Santos e Orlando Santos (democratas), o Manuel Serra (católico de esquerda, que participara no falhado golpe militar de Beja) e eu. A nós se juntaram depois o Fernando Rosas (MRPP), os presos da ARCO (Ação Revolucionária Comunista), Ferreira Neto e Joaquim Pinto de Andrade. Pinto de Andrade, então Presidente Honorário do MPLA, que, a seu pedido, fora transferido para o nosso piso, afirmaria à sua mulher, Vitória, na primeira visita que dela recebeu: “agora sei o que é uma cadeia para homens…”.

Denunciei as sevícias (de que fora alvo) na primeira visita que recebi da Dúlia. A visita foi-me interrompida pelo guarda e suspensas todas as visitas que dela, quase todas as semanas, recebia no parlatório, sentado atrás de uma placa de vidro. Dúlia enviou-me a mãe: fiz-lhe, em voz alta, a mesma denúncia. Repetiram-se as consequências: visita interrompida. Veio o advogado, então o Sebastião Lima Rego. Igual denúncia, igual reação. Escrevi para casa: “Agora, enviem o papagaio”! Os protestos choviam sobre a Direção dos Serviços Prisionais, no Ministério do Interior, a Amnistia Internacional chegou a propor-me para “preso político do ano”, o que não aceitei erradamente convencido de que a Amnistia Internacional era emanação da CIA – em meu lugar, foi escolhido um preso do PC, António Graça.

O regime teve que ceder e as suspensões foram levantadas. Para nós, presos que nos pretendíamos coerentes, Peniche – mais do que um lugar de castigo – era um local de luta, a nossa “universidade”: não daríamos aos carcereiros nada que os congratulasse como “vitória”. Recusávamos pedir a liberdade condicional quando entrávamos em situação das chamadas “medidas de segurança”, celebrávamos as datas revolucionárias (melhor roupa e alimentação no 18 de janeiro, data da insurreição da Marinha Grande; no início da insurreição em Angola; no primeiro de maio; na data da revolução cubana; 1 de outubro, data da libertação da China; na da revolução russa, 7 de novembro), acabámos por recusar mesmo as episódicas transferências para o Hospital Prisional de Caxias no suposto que sugerir doença (que obrigasse a internamento) significaria evidenciar que a repressão tivera êxito. Recusámos também ter mais de três refeições de bacalhau por semana – os Serviços Prisionais tinham um acordo com Henrique Tenreiro (fascista e armador de bacalhoeiros) pelo que era raro o dia em que não houvesse “fiel amigo” na ementa. Decidimos pôr cobro à praga: foi numa altura em que quase bastava formular uma reivindicação para os guardas cederem. 

Todas as questões eram discutidas em coletivo dos encarcerados e decididas por maioria. Os que professavam o marxismo-leninismo reuniam-se uma vez por semana para o balanço crítico das notícias e, também semanalmente, discutíamos questões de doutrina política e história do movimento operário – conseguíramos introduzir clandestinamente na prisão textos de Karl Marx, Lenine, Staline e Mao Tse-tung. A leitura ocupava a outra parte do tempo – podíamos ter na cela sete livros ao mesmo tempo e podíamos receber publicações da biblioteca prisional (evitávamos referenciar qualquer leitura para evitar que a censura introduzisse mais títulos no índex por reconhecimento de algum título do agrado dos presos). Eram-nos vedadas estatísticas, o que me obrigou a matricular em Geografia, cujo curso implicava o seu estudo. Saldanha Sanches abastecia-me de livros de Teoria Económica e de História, uma vez que o seu curso permitia recebê-los.

O culto dos conflitos com os guardas prisionais transformara-se num desporto: estávamos em luta contra o regime prisional, procurando melhorá-lo diariamente em nosso favor; os “revisas” eram com ele complacentes, teríamos que ser radicais. Durante anos, o pêcêpista  “Avante” denunciara as arbitrariedades do “fascista Poupa”, o mais execrado e facínora dos carcereiros. Exigimos que fosse afastado do convívio com os presos e, sempre, que ele entrava ao serviço no pavilhão prisional, quase havia uma insurreição. Os presos do PC passaram a tratá-lo por “amigo Poupa” e a com ele ostensivamente confraternizarem.

O regime prisional melhorou de facto muito no último ano em que estive em Peniche, o que não evitou que fosse o penúltimo preso castigado a sete dias de “segredo”, assim chamávamos a cela de isolamento (foi a minha última greve da fome) – Saldanha Sanches foi o derradeiro que lá esteve. Uma vez, os do PC protestaram quando introduziram candeeiros nas nossas celas. Tiveram resposta do diretor da cadeia: “sabíamos que, se os terroristas não os recebessem, protestariam. Com vocês é diferente. Aceitam tudo”. Foi o seu epitáfio.

A melhoria do regime prisional, à custa de mais quatro greves da fome em que participei e os cunhalistas sempre furaram, foi acompanhada pela renovação dos guardas e pelo regime de celas com porta aberta, passando nós a por elas transitar. O seu chefe, Ramos, participara nos pelotões de fuzilamento dos franquistas na Guerra Civil de Espanha (integrava os reforços que Salazar enviara a seu amigo Francisco Franco) e foi substituído. O diretor, reconhecidamente mentecapto, foi substituído primeiro pelo médico Viegas e depois por um técnico prisional. Viegas começara como dentista e subiu a clínico quando o anterior hipócrates, das Caldas da Rainha (fazia o serviço na Cadeia duas vezes por semana), a isso renunciou. Viegas tinha doze dioptrias e, às apalpadelas, tratava da saúde bocal dos prisioneiros: certa feita, Saldanha Sanches desmaiou na cadeira do dentista, quando este lhe espetou a agulha da seringa na gengiva; quanto a mim, arrancou-me alguns dentes e sempre recusei a implantação de postiços. “Sou uma vítima do fascismo” e abria a boca para o mostrar. Quando se fez médico da cadeia, as suas “boutades” ficaram famosas. Dizia ter remédio para tudo com o receituário que recolhia num livro espanhol que tinha em casa, o Cervantes. Resultado, um dia quase enlouqueceu o economato: o Francisco Martins Rodrigues sofria de ureia no sangue, os guardas percorreram todas as vendagens até Torres Vedras para infrutiferamente acharem os “plátanos” que ele receitara. Viegas não sabia que “plátano” era o nome que os espanhóis davam à banana.

Em novembro de 1972, vivia eu o meu quinto ano de prisão (recordo que fui condenado a três anos e meio de prisão maior, mais medidas de segurança que, se o regime quisesse, poderiam ser verdadeira “prisão perpétua”), quando Marcelo Caetano resolveu abolir essas medidas – demagogicamente, o “marcelismo” queria aparentar “rosto humano”. Com essa decisão, os pides tiveram que me libertar: apenas de quinze em quinze dias seria forçado a, por lei, me apresentar às instalações da PIDE e não podia ausentar-me de Lisboa. O guarda Moreira – que me tinha espancado na primeira greve de fome – estava nesse dia na chefia do pavilhão, chamou-me, anunciou que eu iria ser libertado, pediu-me desculpa pelo havido e sugeriu-me que deixaria passar nas minhas malas tudo o que eu quisesse, era ele mesmo me faria a revista. Pensei maduramente no convite… e aceitei. Resultou: consegui passar para o exterior diversos documentos. A firmeza dos prisioneiros acaba sempre por despertar o respeito dos carcereiros.

Quando ia já no portão de saída do Forte de Peniche, quiseram que pagasse 2$50 de portagem. Recusei: “não paguei para ser preso, não pagarei para ser libertado. Façam como quiserem”. E voltei para a cela. Já noite fechada, foram-me buscar e colocaram-me em liberdade vigiada. Dúlia e José Alecrim (o ex-“camarada Rosário” do PCP), já exasperados, esperavam-me para me levarem para Lisboa, onde fiquei acoitado na casa do eng. Acácio Barradas, ex-militante da FAP. Fomos soltos treze com o fim das medidas de segurança. Apenas dois se recusaram a pagar a portagem de Peniche. Fui um deles.

 

Nuno Rebocho

 
 
 
 
Nuno Rebocho - Nascido em 1945, em Queluz (Portugal), viveu em Moçambique desde os três meses de idade até 1962. Jornalista, poeta e andarilho – bastou-lhe ter estado preso por cinco anos na Cadeia do Forte de Peniche (por cinco anos, motivos políticos), para recusar ser animal sedentário. Viveu a imprensa regional (Notícias da Amadora, Jornal de Sintra, Aponte, A Nossa Terra, Jornal da Costa do Sol, Comércio do Funchal, entre outros), foi redactor da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, das revistas O Tempo e O Modo e Vida Mundial, em diferentes diários e semanários, e é chefe de redacção da Antena 2 da RDP. Colaborador de Acontece en Sorocaba (Brasil) e Liberal (Cabo Verde). Autor de “Breviário de João Crisóstomo”, “Uagudugu”, “Memórias de Paisagem”, “Invasão do Corpo”, “Manifesto (Pu)lítico”, “Santo Apollinaire, meu santo”, “A Nau da India”, “A Arte de Matar”, “Cantos Cantábricos”, “Poemas do Calendário”, “Manual de Boas Maneiras”, “A Arte das Putas” (poesia), “Estórias de Gente” (crónicas), “O 18 de Janeiro de 1934”, “A Frente Popular Antifascista em Portugal”, “A Companhia dos Braçais do Bacalhau” (investigação histórica), está representado em diversas antologias e colectâneas em Portugal, Espanha e Brasil. Tem colaborado em catálogos para exposições de artes plásticas: Ramón Catalan, Deolinda, Carlos Eirão, Alfredo Luz, Edgardo Xavier, João Alfaro, Maria José Vieira, Ricardo Gigante, Ana Horta, Isabel Teixeira de Sousa, Nuno Medeiros, Viana Baptista, Teresa Ribeiro, Rico Sequeira, João Ribeiro, José Manuel Man... Comissariou a Bienal do Mediterrâneo, Dubrovnik (Croácia), em 1999.

 

 
 

 

 




 



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