NUNO REBOCHO
Arcas encoiradas XII
De volta a África

 Parecerá que tive uma vida intensa. É verdade, intensa e bem vivida. Os factos evidenciam que apenas tive a virtude - se virtude houve - de sobreviver e ser um dinossauro. Cansado de peripécias, cuidei que delas me desafogava retirando-me para Cabo Verde: era quase o regresso à meninice em África, na longínqua Moçambique. Prefigurava dias de tranquilidade, de sossego, numa placidez crioula.

Os anos na RDP, se foram gratificantes, também trouxeram dissabores, agruras e desencanto com os enredos. As dificuldades tornaram-se sufocantes quando Hernâni Santos foi substituído na Direção de Informação por Pedro Cid, com quem já tivera desinteligências aquando fui repórter parlamentar: acusava-o de me ter surripiado, na Assembleia da República, uma agenda de contactos (a “enxada” de qualquer jornalista). Fiquei de pé atrás com a sua nomeação e meti férias mal ele foi nomeado. Segui para Vila Nova de Foz Coa. Levava um chapéu madeirense. No Douro, mergulhei-o no rio, diante de quem o quis ouvir: “eu te batizo com o nome de Pedro Cid. É o último barrete que ponho na cabeça”. Como esperava, foram contar o episódio ao Cid (desconfio bem quem o fez). Quando regressei a Lisboa, fui chamado do diretor, que me disse: “Tinha pensado esquecer os problemas que entre nós houve. Estava mesmo disposto a dar-te um bom cargo. Mas soube o que aconteceu nas tuas férias…”.

Cid tornou público que me promovera a chefe da secção de programas, o que significava que objetivamente me despromovia, passava-me de Chefe de Serviços a chefe de secção - ou seja, perdia uma centena de contos por mês. Quando li no jornal que fora “promovido” pelo Cid, comentei: “se tenho mais duas promoções destas, vou para a rua pedir esmola!”. Não acabaram aqui as “vinganças” - para subchefe de redação, nomeou o Eduardo Fidalgo, que tinha tanto de incompetência como de gordura. Para o defender, tivera mesmo um confronto com Hernâni Santos que o quis proibir de ir a antena. Como era seu chefe direto, opus-me aos métodos de Hernâni, embora reconhecesse a incompetência do Fidalgo, a quem alcunhei de “Batráquio” – destaquei-o para conduzir o programa “Pelo Sim Pelo Não”, o que ele fez sem qualquer golpe de asa. Fidalgo inchou como subchefe, em tudo era pequenino: a perseguição começava. Tiraram-me a secretária e até a cadeira. Foram meses infernais que me levaram a apresentar baixa médica.

Com a saída do Pedro Cid, voltei ao trabalho de reportagem – meses a fio calcorreei de novo o Alentejo, quase sempre acompanhado pelo Galego. Fomos destacados para o grupo de trabalho encarregue da cobertura da Expo 98: quase um ano a caminhar até à foz do Trancão. Concluído esse destacamento, fui nomeado chefe de redação da Antena 2. O que fez transbordar o copo: há anos que me opunha ao relógio de ponto. Ainda estava no estúdio do Quelhas quando ele foi introduzido. Perante o firme repúdio da redação (o relógio de ponto chocava-se com as prerrogativas dos jornalistas - sem horário fixo, ao contrário dos administrativos, tinham liberdade de trabalho), a Administração da RDP garantiu à Comissão de Trabalhadores, que eu integrava - o relógio de ponto nunca seria aplicado aos profissionais da Informação. Já na Marechal Gomes da Costa e após a fusão da RDP com a RTP, a Administração voltou à carga: o mal fora a entrada de um relógio de ponto na empresa, tornando-se imprescindível com a junção das empresas. Lembrado das garantias, recusei-me a utilizar o relógio de ponto sem cuidar que o meu jornal (o das 18 horas) se tornara incómodo para o Poder Político (socialista). Ameaçaram-me com um processo disciplinar com vista a despedimento. Antes, fizera um último trabalho de reportagem: de gravador na sacola, acompanhei os peregrinos a Fátima – caminhada a pé. Queria perceber o que movimentava massas, qual a substância do que o vulgo chama “fé”. Mostrou-se algo de poderoso, que ultrapassa as fronteiras da religião, das minhas convicções agnósticas. Enfim, algo sobre o que me deveria debruçar com seriedade.

Estava cansado de lutar contra tudo e todos. Clamei: “Basta. Vou-me embora. Segundo a lei, os anos de cadeia contam a dobrar para a reforma. Façam contas comigo!”. Era o de que a Administração estava à espera.

O estrito profissionalismo andara a paredes meias com as pequenas diatribes e brincadeiras. Nos primeiros tempos do novo “O Século”, era subchefe de redação, responsável pelo turno da tarde e Vasco Resende era redator da área desportiva. Resolvi divertir-me à sua custa: aproveitando-lhe a ausência, tomei a sua máquina de escrever (uma Adler, tal como a minha) e troquei-lhe a ordem dos botões dos teclados – do nacional (HCESAR, que eu usava) para o internacional (AZERT, com que o Resende trabalhava). Quando Vasco chegou, começou a escrever. Estava já com a página em meio, releu a prosa. O texto estava todo baralhado. Perplexo, mudou de folha de papel e recomeçou. Tudo continuava ininteligível. Levantou-se, vestiu o casaco, gritou “Estou bêbado!” e saiu esbaforido.

Pequenas brincadeiras, entretenimentos das redações. Vasco Resende era bom companheiro. Escrevera um romance (“Antónia mulher coragem”) que foi premiado. Nele utilizou o meu nome como personagem - “és o gajo que conheço que melhor conta histórias”. Repetiu a “gracinha” em “A mistificação de Shakespeare”. Já não achei piada… Por essa época, já desistira da ideia de elaborar um trabalho sobre as rameiras de Lisboa. Vasculhara os meandros noturnos, os bares e “boîtes” da cidade, sobretudo as da Praça da Alegria, conhecera pessoalmente algumas das profissionais lisboetas (mesmo protegera-as das investidas policiais): tinha o seu respeito pois sabiam que delas apenas queria informações. Conhecera demasiado bem bas-fond lisboeta e o negócio de exploração de prostitutas conduzido no Cais do Sodré por quem, mais tarde, se fez um conhecido presidente de clube de futebol – coisas que o disparatado clubismo encobre.

Essa curiosidade quase coincidiu com a época em que fui contratado para trabalhar na candidatura presidencial de Freitas do Amaral: pediram-me que elaborasse uma resenha das contradições de Mário Soares, o seu rival de campanha. Significava quase produzir uma síntese dos oceanos. Quando concluí a revisão das “afirmações” por ele arroladas ao longo de anos e anos (mais do que quantas andorinhas existem numa primavera) e entreguei à candidatura o extenso relambório coligido. Apareceu todavia no mercado outro livro sobre esse mesmo tema. A minha recolha fora inútil, ainda que paga, como acordado.

Começaram nessa época as minhas relações com Manuela Ramos – fora minha colega na CP e assistira aos meus contactos telefónicos com a aluna com quem fugi e como o meu “entusiasmo” por ela se esfumara. Sem eu o perceber, interessou-se por mim. E a sedução aconteceu. Desta vez, Dúlia enfureceu-se e separámo-nos. Fui viver para Cascais, numa cave alugada na Travessa dos Navegantes. Durou quase um ano essa separação, que foi altamente produtiva – nas noites em que não estava de piquete na RDP, refugiava-me em casa a escrever e a ler desalmadamente. Manuel Ramos sonhou “agarrar-me”: com o intuito de me prender, comprou um “monte” entre Moura e Vidigueira, o Monte Novo do Carvalhal. Fugi a sete pés dessa tentativa. Decididamente, Manuela não tinha as caraterísticas necessárias para ser a companheira. Mas ficámos amigos.

Estava à beira da rotura o casamento com Dúlia. Tinha consciência de que, em grande parte, tal se devia a culpa minha: não tivera coragem para conter uma aproximação com Manuela Ramos que, de antemão, tinha a perceção que daria em nada. Deixei arrastar a situação que se criara.

As perspetivas que se abriam em Cabo Verde desenvolviam-se, especialmente graças ao meu relacionamento com amigo cabo-verdiano, o Marcos Rodrigues, que conhecera quando trabalhara no Ministério da Habitação – ele era empregado de um restaurante na Baixa lisboeta que eu frequentava amiúde. O restaurante encerrou, socorri-me de amizades para lhe arranjar colocação noutro restaurante no aeroporto de Lisboa. Homem dos sete ofícios, Marcos envolveu-se em negócios e convidou-me para o auxiliar a montar uma serigrafia na cidade da Praia. Era o regresso a África.

Estava há muito tentado a sair do continente português: aquando da nomeação de Silva Martins (ex-sindicalista social-democrata) para o executivo de Macau, fui convidado para assessor do Governo macaense. Aceitei. Passado algum tempo, Martins telefonou-me para avisar de que estava apontado para esse cargo e que o bilhete de avião vinha já a caminho: Dúlia queria vender as coisas para partirmos, felizmente que me opus enquanto o bilhete não chegasse. Nunca chegou e desconheço as razões. Confrontado com o clima de intriga política e de negocismo naquele território, depois relatado por amigos que nele viveram e com o que aconteceu ao meu ex-colega António Ribeiro, agradeço nunca ter partido para Macau.

Também fui convidado para chefiar a redação do “Diário de Notícias” do Funchal, tive reuniões em Lisboa com o seu diretor e, a seu pedido, cheguei mesmo a estruturar um plano de trabalho – deparei-me com a oposição de Alberto João Jardim, para quem eu era um “cubano” (português do continente europeu). Mais tarde, nos últimos anos da RDP, convidaram-me para Bratislava (Eslováquia), onde se pensava abrir uma delegação do Instituto Camões – não passou de intenção!

África não me era uma novidade: vivera a juventude em Moçambique, com passagens pela Suazilândia e África do Sul. Conhecia S. Tomé e Príncipe e Angola (frequentei parte do 1º ano do Liceu em Luanda). Estivera em Marrocos com Cartaxo e Trindade, ajudei na geminação de Sintra com El Jedida. Andara pela Guiné-Bissau com Alpoim Calvão (a esquerda portuguesa apontava-o como criminoso de guerra, responsável pelo ataque português a Conakry. Nino Vieira, Presidente guineense, convidou-o a visitar Bissau – fui o jornalista que o acompanhou. Com ele fui a Nhacra, Farim, Bolama, Guilege e Bubaque. Entre as demagogias e a dura realidade dos factos, muitos mundos há).

Cabo Verde ficava como uma alternativa de fuga. Com a miragem da serigrafia (que teve a colaboração do meu filho mais novo, Bruno) veio o convite para trabalhar na propaganda da candidatura de Nasolino Santos à presidência da Câmara da Praia. Garantiram-me (Lourenço Lopes) que havia condições de vitória e, mal cheguei à Praia, a quinze dias das eleições, tive reunião com Carlos Veiga – total confiança nos resultados eleitorais. O que vi no terreno alertou-me: acompanhei a campanha em Achada de S. Filipe e fiquei assutado. Fiz uma pequena sondagem pelo telefone para medir a popularidade do candidato entre o eleitorado feminino (a maioria da população praiense) e percebi que, provavelmente, apenas a sua mulher, Salomé, nele votasse. O mal não estava no candidato, Nasolino, até um indivíduo interessante, mas nas condições da candidatura e no excesso de confiança do então partido governamental, o Movimento para a Democracia: os erros políticos do Primeiro-Ministro, Gualberto do Rosário, tinham sido mais do que muitos, talvez em parte fomentados pela entourage embalada por “facilitismos” dos marqueteiros brasileiros de que se rodeara e em quem depositava excessiva confiança. O seu gabinete, de resto, completamente minado pelo adversário – os chamados “submarinos”.  

A derrota era inevitável. Por mais que fosse um veterano das campanhas eleitorais portuguesas, não podia forjar o impossível. Descobria em Cabo Verde o mais raso maneirismo político que ofendia os mais simples pressupostos democráticos. Altas horas da noite, fora encontrar escondido na serigrafia de Marcos Rodrigues (em Ponta Belém), e à revelia deste, o principal adversário de Nasolino (Felisberto Vieira, Filú), a preparar os seus cartazes: expliquei-lhe pacientemente e com frontalidade o que neles era correto e era errado. Com espanto meu, ouvi na televisão cabo-verdiana o mesmo Filú anunciar que documentos da campanha de Nasolino eram da autoria de portugueses. Enganava-se. Os documentos que apresentou na tv eram os únicos que, desde a minha chegada, não eram da autoria de um português – a demagogia de faca na liga em nada ficava a dever à demagogia que vira em Portugal. Tinham maus mestres!!!

Aconteceu que, nesses dias, fui a Assomada (a uma dezena de quilómetros da Praia) e vi o inqualificável – um carro de som da campanha eleitoral do MpD aparecia em algum local, logo outro aparecia (do PAICV) a sobrepor-se ao som do rival. Nunca isto vira noutro país que se considerasse democrático. O “boca-de-urna”, a compra de votos ou de consciências eram prática comum. Como evitar tais atropelos? Não sabia o que fazer…

Regressado a Lisboa, recebi segundo convite do Marcos Rodrigues: propunham-me que voltasse a Cabo Verde para dar formação a assessores do Governo de Gualberto. Aceitei. E convidei para participarem como formadores o Braga-Amaral (que conhecera na Régua, através do meu amigo Jorge Velhote) e a Maria de Lourdes Pelicano. Problemas de cumprimento de horários (que não está nos hábitos dos cabo-verdianos) e das competências dadas aos assessores foram os problemas maiores que encontrei. Um dos assessores, o Miky Cabral, queixou-se: “os ministros nunca aceitariam as minhas opiniões!”. Ou seja, cada governante considerava-se um predestinado a quem um assessor ficava dispensado… de assessorar.

A situação agravou-se com os atrasos de pagamentos. O Ministro da Cultura, Arq. António Jorge Delgado, procurando uma solução para o problema, propôs-me que escrevesse uma história dos judeus em Cabo Verde, ideia que desapareceu de cena e rapidamente percebi porquê – grande parte da nomenclatura Verdiana era, e é, de origem judaica. Logo depois atitou-me para uma assessoria ao então presidente da Inforpress, Apolinário das Neves, de quem me tornei amigo.

Na altura, o jornal “Horizonte” dependia da Inforpress. Uma das minhas tarefas era o de ser seu copy-desk. Tornei-me amigo de Fernando Monteiro, diretor do jornal, e consegui a aproximação entre o administrador Apolinário e o Fernando – as suas relações enfermavam da falta de diálogo. O Ministro Delgado sugeriu-me a criação de uma nova publicação, “O Independente”, convidei a Rossana de Almeida para o dirigir. O projeto não passou de projeto.

Voltei a Portugal. Pouco tempo depois, o Apolinário (o Governo mudara do MpD para o PAICV) convidou-me para uma nova aventura: o lançamento de um semanário privado, claramente de oposição ao Executivo. Seria o “Expresso das Ilhas”. Assumi do desafio. Conseguiria pô-lo à venda em três meses. Convidámos para diretor o Fernando Monteiro, escolhemos uma redação (o Vává, o António Monteiro, a Helga, a Kátia, o Lúcio Rodrigues, o Txota …), fui mesmo morar para a sua redação no bairro da Terra Branca. O jornal fez-se dentro dos prazos previstos, o administrador José Tomás Veiga deu uma festa - chefiei a sua redação nos primeiros seis meses, após o que regressei a Portugal, onde metera licença sem vencimento ainda na RDP. Aproveitei para escrever um conjunto de crónicas publicadas no jornal que, mais tarde, reuni numa coletânea ainda não editada – “Quebra-Canela, aventuras e desventuras de um portuga nas ilhas do Cabo Verde” (retrato do que foi a Praia nos anos 90).

Nessa altura, gozando de alguma popularidade, comprazia-me em responder à provocação com provocação – em não a deixar sem troco. A concorrente “A Semana”, afim do PAICV, quis denegrir-me e, para tentar escandalizar os leitores, vendeu a mentira de que eu auferia no “Expresso” algo como trezentos contos mensais (um exagero para Cabo Verde). Quando isso li na publicação que, deste modo, se comportava como um pasquim, apresentei-me na sua redação – engasguei a diretora quando lhe disse que vinha receber o dinheiro devido: eu ganhava 100 contos no meu jornal, eles noticiavam que afinal recebia 300, portanto teriam de desviar 200 para si. Eu queria o dinheiro de volta. “A Semana” tinha que mo pagar. Foi remédio santo: deixaram-me em paz.

Fiquei como correspondente em Lisboa do “Expresso das Ilhas”, cargo a que renunciei quando o Apolinário foi afastado da sua administração. Escrevi a Ulisses Correia e Silva, nomeado administrador da Media Capital, mostrando o meu desagrado: “vocês, cabo-verdianos, herdaram o pior dos portugueses – afastam quem trabalha e se bate pelas coisas, e promovem os amigos, mesmo que sejam incompetentes”, expus na carta que lhe enviei.

Estava ainda na RDP quando Apolinário de novo me contactou: era mais uma campanha eleitoral em Cabo Verde que se preparava. Eu ficara escaldado com a experiência havida na candidatura de Nasolino. O MpD enfermava, congenitamente, do resultado de como emergira na cena política – originariamente, fora uma frente de tendências unidas na luta contra o totalitarismo e o partido único. Convertera-se num partido. A luta interna das diversas tendências funcionara como força centrífuga para a sua automatização, de acordo com o velho princípio estalinista de que “o partido fortifica-se, depurando-se”. A subida ao Poder da tendência “rabentola” (fundamentalista, radical, reivindicando-se de uma pretensa ortodoxia), liderada por Gualberto do Rosário, obrigara que o grupo reunido em torno de Eurico da Fonseca (onde se encostavam os chamados trotskistas cabo-verdianos) e o grupo em torno de Jacinto Santos debandassem e formassem novos partidos. Herdeiro do partido único e cada vez mais distanciado da sua matriz ideológica, cada vez mais funcionando com um conglomerado de interesses, estava o PAICV, agora regressado ao Poder com um simulacro de neoliberalismo - de facto, o seu estatismo centralizador, tingido de discurso liberalizante, permitia os mais diversos maneirismos táticos, ao sabor das circunstâncias.

Desta feita, tratava-se de candidatar Ulisses Correia e Silva à presidência da Câmara da Praia em confronto com Felisberto Vieira, Filú. A disputa prometia, desde que a campanha fosse seriamente preparada. Pensei duas vezes, sugeri que na campanha participasse o Braga Amaral (bom técnico de imagem), o que foi aceite. Pela terceira vez, regressava a Cabo Verde. Pôde congeminar-se uma campanha bem estruturada, com uma linha política oleada, com cautelosas medidas defensivas contra o que chamei de “esperteza crioula”: concebi a sua palavra de ordem (linha de força para o ambicioso programa – “Praia tem solução”), dei colaboração no “Jornal de Cabo Verde” (o que me deu proteção) de que, mais tarde, fui chefe de redação. Era propriedade do Apolinário e dirigido por Daniel Medina.

Foi campanha vencedora, contra as artimanhas de Filú e as expectativas de José Maria Neves (PAICV), que rendera Gualberto na governação das ilhas. Cidade da Praia perderia em oito anos os seus arremedos pretensamente africanistas para se modernizar e ganhar novo fôlego. Foi mudança profunda. Com a candidatura de Ulisses criavam-se condições para o paulatino reagrupamento de tendências no seio do MpD – era o rassemblement. Primeiro foi o retorno do grupo de Eurico da Fonseca, depois de o de Jacinto Santos. Aos poucos, devolvia-se o MpD às suas caraterísticas originais, para tanto chamando de novo Carlos Veiga à sua liderança. Ele seria candidato do MpD à Presidência da República.

Preparou-se a campanha, chamando de novo o Braga Amaral e trazendo de Portugal o José Leite, que me ajudara nas campanhas da Aliança Democrática e velho conhecimento dos tempos de “O Diabo”, “Estética” e “Ideal”. Leite trouxe atrelado, para surpresa nossa, um seu conhecimento de Lisboa: Alte Pinho. Juntou-se-lhes a Inês Ramos, designer de excelente qualidade. Logo inicialmente se cometeu um grave erro, aceitando a palavra de ordem proposta pelo Amaral – “Mesti muda” (expressão crioula que significa “é preciso mudar”). Os argumentos contrários avocados não vingaram: o eleitorado é resistente a “mudanças”, prefere a “estabilidade”, seja ela o que seja. Por outro lado, sendo o MpD o maior partido autárquico (maioritário na generalidade das Câmaras), e sucedendo-se de imediato às eleições presidenciais as autárquicas, avançar com o “Mesti muda” seria fornecer ao adversário uma arma que ele poderia depois arremessar-nos.

De nada valeram os argumentos contra. Amaral impôs os seus pontos de vista contra tudo e todos, socorrendo-se de duplicidades: apresentava ao comando político as suas ideias como sendo nossas, e apresentando-as a nós como sendo do comando político. Sobre ocupados com um novo jornal de campanha (“Já”) e com um jornal digital diário (“Liberal”), não estávamos - Apolinário e eu - em condições para centrarmos totalmente as nossas atenções na candidatura de Carlos Veiga. Demais, Apolinário estava assoberbado com a realização de sucessivas sondagens. Em retrospetiva, fica fácil entender que o caminho deveria ter sido outro: nas anteriores presidenciais, só por judicialmente reconhecida fraude eleitoral Veiga a perdera para Pedro Pires – como muito mais tarde foi reconhecido por insuspeito tribunal, mais de metade dos poucos votos com que Pires foi dado como vencedor ou eram de falecidos ou manuseados em duplicado! Uma indecorosa burla à moda dos “coronéis” brasileiros. Os autores da burla foram condenados à cadeia, mas Pires (imperturbável) manteve-se na Presidência. O anedotário da vigarice política motivou mesmo o meu romance – “A segunda vida de Djon de Nha Bia”: história de um morto ressuscitado, em pleno caixão, pelo governador a fim de poder ir votar. Foge para se escapar à tirania desse governador. É uma história crioula que se estriba em factos ocorridos.

Perdida a eleição presidencial, os jornais ficavam pendentes da capacidade de investimento havida. A situação era periclitante. A crise económica batia à porta: tive que abandonar a casa em que vivia no Palmarejo, abrigar-me na vivenda de Apolinário em Achada de S. Filipe, na Praia. Fomos contratados para um efémero apoio à candidatura autárquica de Scapa (Spencer Lima) na Câmara da ilha do Sal (PAICV) – sendo conhecidas as nossas identificações com o MpD, tal apoio não poderia ser assumido, além de que (como as sondagens o indicavam) a candidatura não tinha qualquer hipótese de vitória.

Comprometida (por falta de suporte financeiro) a sobrevivência de “Liberal”, por sugestão de Apolinário propus-me como assessor da Câmara Municipal de Ribeira Grande de Santiago. Fui aceite. Com o Vince e a sua mulher alugámos casa na Várzea da Companhia, passei a diariamente me deslocar a Cidade Velha. Porque tinha bons contactos em Portugal, desloquei-me por várias vezes à Europa. Por sugestão do chefe de Gabinete do Presidente da Câmara, Orlando Santos, intervim nos processos de geminação de Cidade Velha com Câmaras portuguesas.

Posteriormente, colaborei na reedição de “Liberal”. Com o falecimento de Orlando Santos, intercedi para Apolinário das Neves ganhar o cargo de Diretor de Gabinete do Presidente da Câmara de Ribeira Grande de Santiago. Um AVC limitou-me imenso: fui internado na Praia, fiquei coxo, desloquei-me a Portugal onde fui hospitalizado em Alcoitão. Apesar disso, fiz uma última campanha eleitoral: integrei a “task force” para a reeleição de Manuel de Pina à presidência da Câmara. Em Cabo Verde, participara em cinco eleições – em duas ganhara e em três perdera.

No ínterim, continuei a escrever: um livro de poesia, “Canto Finissecular”, a edição digital de “A Ilha de Amianto” (poemas escritos na Córsega), uma plaquete de poesia (“A Papaia”), um outro livro de poesia no prelo, “Rotxa scribida” (homenagem a Cabo Verde), diversa investigação histórica em edições digitais (“Os Quilombos em África”, em colaboração com um professor universitário brasileiro Ademir de Barros; “A Irmandade dos Homens Pretos”; “A Tabanka do Salineiro”; “A Companhia do Grão Pará”; “Francis Drake, os corsários e a crise dinástica de 1560”). Ainda, em colaboração com João Lopes Filho, “O Sermão de António Vieira dito na Igreja de Nossa Senhora do Rosário, Cidade Velha” – aguarda edição. Na gaveta ficou o original de um romance (“Quem pode ganhar esta guerra?”) e um livro de crónicas (“Estrada da Beira”). Além de diversa publicação avulsa, participação em diversas antologias – “Do Amor”, “Portuguesia” (Brasil) e poemas da lusofonia, editada em Buenos Aires (Argentina) – e colaboração com Júlio Silvão no filme-documentário sobre Eugénio Tavares (prémio do CPLP DOC). Não foi mau.

 

Nuno Rebocho  

 
Nuno Rebocho - Nascido em 1945, em Queluz (Portugal), viveu em Moçambique desde os três meses de idade até 1962. Jornalista, poeta e andarilho – bastou-lhe ter estado preso por cinco anos na Cadeia do Forte de Peniche (por cinco anos, motivos políticos), para recusar ser animal sedentário. Viveu a imprensa regional (Notícias da Amadora, Jornal de Sintra, Aponte, A Nossa Terra, Jornal da Costa do Sol, Comércio do Funchal, entre outros), foi redactor da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, das revistas O Tempo e O Modo e Vida Mundial, em diferentes diários e semanários, e é chefe de redacção da Antena 2 da RDP. Colaborador de Acontece en Sorocaba (Brasil) e Liberal (Cabo Verde). Autor de “Breviário de João Crisóstomo”, “Uagudugu”, “Memórias de Paisagem”, “Invasão do Corpo”, “Manifesto (Pu)lítico”, “Santo Apollinaire, meu santo”, “A Nau da India”, “A Arte de Matar”, “Cantos Cantábricos”, “Poemas do Calendário”, “Manual de Boas Maneiras”, “A Arte das Putas” (poesia), “Estórias de Gente” (crónicas), “O 18 de Janeiro de 1934”, “A Frente Popular Antifascista em Portugal”, “A Companhia dos Braçais do Bacalhau” (investigação histórica), está representado em diversas antologias e colectâneas em Portugal, Espanha e Brasil. Tem colaborado em catálogos para exposições de artes plásticas: Ramón Catalan, Deolinda, Carlos Eirão, Alfredo Luz, Edgardo Xavier, João Alfaro, Maria José Vieira, Ricardo Gigante, Ana Horta, Isabel Teixeira de Sousa, Nuno Medeiros, Viana Baptista, Teresa Ribeiro, Rico Sequeira, João Ribeiro, José Manuel Man... Comissariou a Bienal do Mediterrâneo, Dubrovnik (Croácia), em 1999.

 

 
 

 

 




 



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