NUNO REBOCHO

Baptista-Bastos e “os que se vão da lei da morte libertando”

Vão rareando as fileiras. Com tiro certeiro, a Inimiga abate um a um e, como Cutter em Little Rock, sinto-me cada vez mais isolado. A perda de Baptista-Bastos trouxe-me montanhas de recordações, algumas que vêm de, quando jovem, nos anos 60 (como já sou “antigo”!), da tertúlia da leitaria Passo, no Rossio.

A tertúlia – e eram diversas nesses tempos de Lisboa - reunia-se em torno do “renard argenté” (Armando Ventura Ferreira - crítico e poeta, a sua “Astronave” era o chamariz e os seus textos no “Jornal de Letras” atraíam a congregação). Lá amesendavam, mais ou menos insistentemente e alguns de passagem, o António Borga, o Palla e Carmo, o Fernando Grade, o Manuel da Fonseca, o Manuel Ferreira e a Amarilis, o Costa Mendes, o João Nascimento, o Mário Elias, o Vítor Fortes, o Romeu Correia, as manas Pimentel, o Júlio-António Salgueiro, o Hugo Beja, e eu (novato entre galifões). Em frente do seu whisky, aos fins de tarde, o Armando ouvia e galhofava, preparando incursões que arrastavam o bando: até ao “peixe frito”, em Algés, a uma taberna na Rua dos Douradores (a “Cabeça de Vaca”, assim lhe chamávamos em referência ao bovino exposto nas paredes) onde se dizia que parara Fernando Pessoa para beber os seus copos com absinto, ou mesmo até ao Ginásio da Baixa da Banheira, onde o Manuel da Fonseca, certa feita, armadilhou a minha infeliz primeira intervenção pública.

Tempos em que eu, ritualmente, vinha da Rua das Taipas, da casa da Maria Almira Medina (onde conhecera o Leão Penedo e namorava a Antónia Gadanha), para horas de conversa e de aprendizado – o Passo era a minha “universidade”. Lá engracei com o Baptista-Bastos. Um fim de tarde, ambos circunspectos, o BB (como o tratávamos) e o Jacinto Prado Coelho chamaram-me a uma mesa no canto para “conspirar”: a ditadura de Salazar encerrara a Sociedade Portuguesa de Escritores por vingança contra a premiação de Luandino Vieira, então detido. Preparava-se a resistência e o protesto, precisava-se de quem gritasse as palavras de ordem nas manifestações que se previam e ajudasse na recolha de assinaturas nos abaixo-assinados que se anteviam. O Carreira Bom e eu oferecemo-nos como voluntários: foi a nossa estreia nestas andanças.

Anos depois destes incidentes do “Passo dos esconjurados”, já após a minha efémera passagem pelo movimento estudantil e pela clandestinidade contra a ditadura e de anos nas masmorras fascistas de Peniche, reencontrei-me com BB – éramos já companheiros de jornalismo, ele distinguindo-se com as suas famosas crónicas no “Diário Popular” e eu arrastando-me pelo “Jornal Novo”. Lembro-me de duas deslocações em serviço à Alemanha, uma acompanhando o Presidente Eanes e outra Mário Soares, à época Presidente da República. Aconteceu que, na nossa passagem por Hamburgo, ficámos hospedados no mesmo quarto de hotel, o que nos permitiu rememorarmos, em cavaqueio, os “velhos tempos”, quando arremedava a poeta num abortado Movimento Desintegracionista e com o meu primeiro livro, o “Breviário de João Crisóstomo”, dedicado a Urbano Tavares Rodrigues.

Baptista-Bastos dizia não compreender a minha evolução. Na sua opinião, eu tinha um passado antifascista, lutara contra o regime salazarista, vivera as cadeias políticas e surgia com a camisola social-democrata. Respondia-lhe que os tempos avançavam, as pessoas mudavam, recordava-lhe os meus amigos Chico da CUF e Silva Marques, afirmava-lhe que, afinal, eu sempre estivera em favor da liberdade e que “muitos dos que antes me perseguiram, me perseguiam agora, sob outras cores e outras bandeiras”. Compreendi que, perdurando a velha amizade, nele pesava o “sentimento de esquerda” mais do que bem digeridas teorias políticas. Ao cabo e ao resto, era a voz de Júlio Fogaça (“camarada Ramiro”, velho companheiro de Bento Gonçalves e José de Sousa no Secretariado do Partido Comunista) que me segredara nas passeatas pelos recreios do Forte de Peniche que, até aos anos 60, os presos chegavam às masmorras do regime pouco mais lendo que “A Mãe” de Gorki e o Manifesto do Partido Comunista, em contraste com os jovens do tempo das guerras coloniais que, na maioria, conhecia bem os textos de Marx, de Engels, de Lenine, tinham lido Staline e Mao Tse-tung e, nalguns casos, Trotzky e Guevara.

Da vez que fomos com Mário Soares à Fundação Friederich Erbert e a Stutgard, companheiros de Fernando Assis Pacheco e de Fernando Rosas, resolvemos homenagear o político, a bordo do avião a caminho de Lisboa, porque, embora discordássemos em muita coisa com as afirmações do Presidente da República, muito nos impressionara e congratulara o modo como valorizara Portugal junto dos alemães, apresentando-se junto deles como um vencedor da causa da democracia e da liberdade. O Baptista-Bastos ficou encarregue do discurso.

A morte do BB relembrou-me estes e outros momentos de convivência. À medida que o meu prazo de vida vai escasseando, sinto, cada vez mais, a obrigação de não deixar em arcas encoiradas o testemunho de quanto tive a felicidade de presenciar.

Nuno Rebocho

Nuno Rebocho - Nascido em 1945, em Queluz (Portugal), viveu em Moçambique desde os três meses de idade até 1962. Jornalista, poeta e andarilho – bastou-lhe ter estado preso por cinco anos na Cadeia do Forte de Peniche (por cinco anos, motivos políticos), para recusar ser animal sedentário. Viveu a imprensa regional (Notícias da Amadora, Jornal de Sintra, Aponte, A Nossa Terra, Jornal da Costa do Sol, Comércio do Funchal, entre outros), foi redactor da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, das revistas O Tempo e O Modo e Vida Mundial, em diferentes diários e semanários, e é chefe de redacção da Antena 2 da RDP. Colaborador de Acontece en Sorocaba (Brasil) e Liberal (Cabo Verde). Autor de “Breviário de João Crisóstomo”, “Uagudugu”, “Memórias de Paisagem”, “Invasão do Corpo”, “Manifesto (Pu)lítico”, “Santo Apollinaire, meu santo”, “A Nau da India”, “A Arte de Matar”, “Cantos Cantábricos”, “Poemas do Calendário”, “Manual de Boas Maneiras”, “A Arte das Putas” (poesia), “Estórias de Gente” (crónicas), “O 18 de Janeiro de 1934”, “A Frente Popular Antifascista em Portugal”, “A Companhia dos Braçais do Bacalhau” (investigação histórica), está representado em diversas antologias e colectâneas em Portugal, Espanha e Brasil. Tem colaborado em catálogos para exposições de artes plásticas: Ramón Catalan, Deolinda, Carlos Eirão, Alfredo Luz, Edgardo Xavier, João Alfaro, Maria José Vieira, Ricardo Gigante, Ana Horta, Isabel Teixeira de Sousa, Nuno Medeiros, Viana Baptista, Teresa Ribeiro, Rico Sequeira, João Ribeiro, José Manuel Man... Comissariou a Bienal do Mediterrâneo, Dubrovnik (Croácia), em 1999.

 

 
 

 

 




 



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