::::::::::::::::::::::::::::::::ADELTO GONÇALVES
A odisséia amazônica de Ferreira de Castro

FERREIRA DE CASTRO: UM IMIGRANTE PORTUGUÊS NA AMAZÔNIA, de Abrahim Baze. Manaus: Editora Valer, 192 págs. 2005. E-mail: editora@valer.com.br

Ferreira de Castro (1898-1974) era um rapazola de 14 anos de idade, órfão de pai, quando deixou a aldeia de Salgueiros, freguesia de São Pedro de Ossela, concelho de Oliveira de Azeméis, em Portugal, rumo a Belém do Pará com a esperança de encontrar emprego no comércio para escapar às agruras da pobreza. Esperava contar com a ajuda de um padrinho, mas logo descobriu que não havia lugar para si no armazém de seu suposto protetor. Sem encontrar emprego em Belém nem em Manaus, deixou-se convencer pelas histórias que ouviu sobre a extração do látex e acabou por empregar-se num seringal, em plena selva amazônica, para viver sob um regime de semi-escravidão.

Foi uma vida difícil, da qual teve força para escapar três anos depois, quando ainda não havia atingido a maioridade, embora, por dentro, já fosse um homem extremamente maduro em razão dos momentos de miséria pelos quais passara, longe da família. Ao retornar a Belém e até regressar a Portugal, em 1919, já levava consigo histórias vividas e sofridas que lhe permitiram escrever Emigrantes (1928) e A Selva (1930), romances de grande êxito tanto no Brasil como em Portugal que, hoje, ocupam lugares capitais na história da literatura de expressão portuguesa e estão traduzidos em 36 línguas estrangeiras.

Para resgatar a odisséia do grande romancista na selva amazônica, Abrahim Baze empreendeu profunda pesquisa em arquivos do Amazonas e de Portugal que lhe permitiu descrever com rigor o que foi a saga desse imigrante português, reconstituindo com exatidão o cenário de uma época fundamental para a formação sócio-econômica e cultural do Amazonas de hoje. É o que o leitor vai encontrar em Ferreira de Castro: um imigrante português na Amazônia, ensaio biográfico já publicado em Portugal e que, agora, ganha a sua edição brasileira pela Editora Valer, de Manaus.

Como se sabe, até 1910, a Amazônia viveu o seu período de auge econômico com a exportação da borracha, mas, já em 1911, a região começava a sentir os primeiros efeitos de uma decadência que se tornou inexorável em razão da concorrência internacional. Atacadistas do látex, casas exportadoras e proprietários de seringais — todos começaram a sentir dificuldades financeiras que se refletiram na maneira ainda mais cruel e desumana como foram tratados os seringueiros que se haviam embrenhado na mata tropical em busca de uma vida menos ingrata.

Humilde empregado do seringal Paraíso, o jovem José Maria Ferreira de Castro, saudoso da mãe, irmãos, parentes e de sua aldeia natal, passou a viver as mesmas dificuldades de centenas de nordestinos que sobreviviam amontoados em alojamentos precários à beira do rio Madeira e da selva, vítimas de doenças tropicais, dos ataques dos índios parintintins e de serpentes amazônicas. “Sem a perspectiva de uma emancipação financeira, eram escravos dos patrões e da mata virgem, reservando-se-lhes apenas o direito de caçar ou pescar a sua própria sobrevivência”, escreve o biógrafo.

Para recuperar o que foram os dias amazônicos de Ferreira de Castro, o autor valeu-se também de documentos e fotografias do arquivo de Silvino Santos, que datam da segunda década do século XX. Com detalhes sobre a vida da família Teles Monteiro e de Juca Tristão, proprietária e gerente do seringal Paraíso, respectivamente, à época em que lá andou Ferreira de Castro, a biografia preparada por Abrahim Baze oferece, de maneira inédita, fotografias e documentos de pessoas que inspiraram o romancista a criar as personagens de A Selva. Exibe ainda uma carta datilografada e assinada pelo escritor em 17/1/1965, em sua morada à Rua da Misericórdia, 68, em Lisboa, e dirigida a um amigo de Manaus. É esta obra, enfim, um complemento indispensável para quem já leu A Selva.

Abrahim Baze, nascido em Manaus em 1949, tem uma vida dedicada à pesquisa em diversas áreas, inclusive como responsável pela organização de diversos museus no Estado do Amazonas: Museu Fernando Ferreira da Cruz-Beneficente Portuguesa e Centro Cultural Luso-Brasileiro do Amazonas. Formou-se em magistério no Instituto de Educação do Amazonas e graduou-se em História.

Como resultado de seu trabalho como pesquisador, tem várias obras publicadas, como Real e Benemérita Sociedade Portuguesa Beneficente do Amazonas: 125 anos de História (1873-1998) e Escravidão: a Amazônia e a maçonaria edificaram a História. Em 2004, lançou A História do Amazonas: contribuição econômica do látex no Amazonas, que saiu em edição de 500 exemplares pela Revista Portugal e teve execução gráfica nas oficinas do jornal A Voz de Azeméis, de Oliveira de Azeméis.

É presidente do Instituto Brasileiro de Antropologia do Amazonas e pertence ao Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, Academia de História do Amazonas e Academia Amazonense Maçônica de Letras, entre outras instituições. É responsável ainda pelo programa Literatura em Foco da Amazon Sat/Rede Amazônica (www.portalamazonia.globo.com).

Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage - o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br
 
 

 




 



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