::::::::::::::::::::::::::::::::ADELTO GONÇALVES

LIVRO DE SOPHIA, de Álvaro Alves de Faria, com textos de apresentação de Graça Capinha, professora de Poesia e Poética Contemporâneas da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, e de Miguel Sanches Neto, poeta e escritor brasileiro. Coimbra: Palimage, 33 págs., 2008. E-mail: palimage@palimage.pt

Canção para Sophia
I

O mais português dos poetas brasileiros. É assim que o poeta Affonso Romano de Sant´Anna (1937) define Álvaro Alves de Faria (1942), poeta lírico brasileiro que acaba de lançar Livro de Sophia, poema longo dirigido a Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), escrito a 2 de julho de 2004, dia em que ouviu o anúncio do seu falecimento, por coincidência num período em que estava em Portugal e se sentiu na obrigação de fazer esta homenagem a uma das maiores poetas da língua portuguesa, distinguida em 1999 com o Prêmio Camões, em 2001 com o Prêmio Max Jacob de Poesia e, em 2003, com o Prêmio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana.

Naquele dia, tomado de grande emoção, passou a escrever, por horas seguidas e em vários recantos lisboetas, o grande poema que a Sophia dedicou. “Na verdade, apenas conversei com ela, a andar por Lisboa, a falar com ela sobre o poema e a poesia, até que de mim se despediu, já madrugada, desaparecendo assim como surgiu”, escreve na abertura do novo livro.

 Filho de portugueses, Faria, em sua maturidade, tem feito uma poesia que se tem caracterizado por uma busca de suas raízes pessoais, talvez decepcionado com os rumos que o seu país vem trilhando nos últimos anos, depois que a redemocratização mostrou a verdadeira face daqueles que, misturados aos que de coração lutavam contra a ignomínia que representava o regime militar (1964-1985), o que mais queriam eram uma oportunidade para se locupletar com as benesses do Estado. Talvez por isso, nos últimos anos, Faria vem fazendo na poesia o que o também poeta Miguel Sanches Neto (1965) definiu como “uma longa viagem de volta”. E que pode ser constatada neste trecho da elegia a Sophia de Mello Breyner:

 (…) Estou na tua terra, Sophia, em busca desse poema que me falta,
 no teu país em que me percorro na minha intimidade
 como se assim pudesse ainda salvar minha alma de poeta que fui. (…)

 O desencanto do poeta com a poesia que se pratica no Brasil vem de longe, desde a década de 1960, quando o seu fazer poético foi questionado e, de certo modo, colocado de lado pela então vanguarda do movimento concretista. Ao lado de Mário Chamie (1933) e dos poetas influenciados pela geração beat norte-americana, Faria ficou imprensado entre o regime ditatorial que ceifava a liberdade de pensamento e a ortodoxia dos corifeus do movimento concretista — Haroldo de Campos (1929-2003), Augusto de Campos (1931) e Décio Pignatari (1927) –, que atacavam a produção poética da época, dominada pela geração de 1945, a quem acusavam de verbalismo, subjetivismo, falta de apuro e incapacidade de expressar a nova realidade gerada pela revolução industrial. 

 Defendendo o experimentalismo na linguagem a qualquer preço, a abolição do verso tradicional e o uso de uma linguagem sintática, além da utilização de neologismos e estrangeirismos, os concretistas, praticamente, ocuparam todos os espaços na imprensa cultural e nos meios universitários de São Paulo. Até porque não incomodavam o poder. Radicais sem causa, acabaram, praticamente, por erradicar o lirismo da poesia brasileira, como se percebe na acusação implícita que o poeta parece lhes dirigir nestes versos:

 (…) No Brasil, Sophia, a poesia não existe mais,
 morta que foi a golpes brutos
 que dela fizeram uma sombra que não se distingue,
 de tal sorte
 que o poema desfeito mais se desfez no próprio nada,
 retrato que não se nota,
 imóvel no seu féretro,
 imagem inútil dos poetas à margem da poesia. (…)

 Em tom coloquial, entre a epístola e a prece, como bem observa Graça Capinha na apresentação, o poeta faz recordar Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa (1888-1935), ao escrever um “poema que não é poema”, “que se nega como poema”.

 (…) Não sei se percebes, Sophia,
 já que neste poema que não é poema,
 faço a fotografia possível do que me invade
 com a notícia de que deixas o mundo.
 O que se salva é a poesia feminina,
 esse olhar que diferencia o poema. (…)

II

A extensa obra da homenageada não se resume aos domínios da poesia, abrangendo também a ficção, o conto para crianças, o ensaio, o teatro e a tradução, como provam magníficas versões que fez de textos de Eurípides (c.485 a.C-406 a.C), William Shakespeare (1564-1616), Paul Claudel (1868-1955) e Dante Alighieri (1265-1321). Mas foi sempre na poesia que se destacou, desde que publicou o livro Poesia (1944), que contém versos que definem uma questão central em sua obra, como aponta Clara Rocha em texto que consta do site do Instituto Camões, de Lisboa: a relação entre poesia e magia. Esses versos são os seguintes: 

  

  Palavras que eu despi da sua literatura,
  para lhes dar a sua forma primitiva e pura,
  de fórmulas de magia.
 

“Pode dizer-se que constituem a primeira arte poética de Sophia e a mais importante deixa para os livros subseqüentes”, acrescenta Clara Rocha. 

Nascida no Porto, no seio de uma família aristocrática, Sophia, principalmente depois de casar em 1946 com o jornalista, advogado e político Francisco Sousa Tavares tornou-se atenta às questões sociais do seu tempo, assumindo uma atuação cívica, tanto antes como depois do movimento de 25 de abril de 1974, que devolveu a democracia a Portugal: esteve sempre na oposição ao regime ditatorial de António Salazar (1889-1970) e na defesa das liberdades, foi co-fundadora da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos, presidente da Assembléia Geral da Associação Portuguesa de Escritores e, após o movimento de 1974, deputada na Assembléia Constituinte.

De origem dinamarquesa por parte do pai, a sua educação decorreu num ambiente católico e culturalmente privilegiado que influenciou a sua personalidade. Freqüentou o curso de Filologia Clássica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, talvez em função de seu fascínio pelo mundo grego, o que a levou igualmente a viajar pela Grécia e por toda a região mediterrânica. Não chegou, porém, a concluir o curso.

Um de seus filhos, Miguel Sousa Tavares (1952), é hoje jornalista consagrado em Portugal e autor de romances de êxito também no Brasil, como Equador (Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 2004) e Rio das Flores (são Paulo, Companhia das Letras, 2008).

Sabendo-se agora um pouco da história da homenageada, pode-se ler melhor o poema de Faria, profundo conhecedor de sua obra, que, quase ao final de sua canção, diz:

 (…) Tua nau, Sophia, que atravessa o mar que te cobre,
 o vento que sopra partidas nas horas próximas,
 a sombra que te abrange em tuas distâncias,
 o cigano Cristo que te dá as mãos,
 as águas que amaste com olhos de sal,
 tua cidade do Porto já antiga na tua memória,
 quase desaparecida palavra de um poema esquecido,
 teus deuses gregos a correr ausências pelas florestas,
 teu grito no grito grave do grito para dentro,
 como quem fala observando os temporais. (…).

III

Para se ter uma idéia do retorno de Faria às suas raízes lusitanas, basta ver que, nos dez últimos anos, publicou sete livros de poesia, seis deles em Portugal. Pela ordem: Vinte poemas quase líricos e algumas canções para Coimbra (1999), Poemas Portugueses (2002), Sete anos de pastor (2005), A memória do pai (2006), Inês (2007) e agora este Livro de Sophia.

 Nascido na cidade de São Paul, Faria é jornalista e escritor, com mais de 50 livros publicados, entre poesia, romances, crônicas, contos, ensaios, livros de entrevistas literárias e peças de teatro, uma delas sobre Augusto dos Anjos (1884-1914), que considera o único poeta brasileiro universal.

 No Brasil, publicou neste ano Os melhores poemas, numa das coleções mais importantes da literatura brasileira, com seleção e ensaio de Carlos Felipe Moisés, e ainda uma nova edição de O Sermão do Viaduto, com o ensaio “Álvaro Alves de Faria e seu Sermão do Viaduto para o mundo”, de Aline Bernar, doutoranda na Universidade de Coimbra sob a orientação da professora doutora Graça Capinha.

 O Sermão do Viaduto é constituído por poemas que foram lidos em recitais publicados realizados no Viaduto do Chá, no centro histórico de São Paulo, no início da ditadura militar (1964-1985). O poeta realizou no local nove recitais, com microfone e alto-falantes, e, acusado de subversão, foi detido pela polícia cinco vezes.

 Em 2007, foi homenageado no X Encontro de Poetas Ibero-americanos, realizado em Salamanca, na Espanha, nesse ano dedicado ao Brasil. Teve, então, uma antologia de seus poemas publicada no evento, Habitación de olvidos, com seleção, ensaio e tradução do poeta peruano-espanhol Alfredo Perez Alencart. Seu livro Babel – 50 poemas inspirados numa escultura do artista plástico Valdir Rocha –, publicado em 2007, recebeu o Prêmio da Academia Paulista de Letras como o melhor livro de poesia do ano.

 Crítico literário e jornalista cultural, Faria escreve para várias publicações questionando a poesia que se faz hoje no Brasil, que considera “mergulhada numa densa escuridão, descontadas algumas exceções”. Mantém ainda uma participação constante num programa noturno da Rádio Jovem Pan, de São Paulo, em que igualmente faz comentários sobre lançamentos de livros de poesia.

Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage - o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br
 
 

 




 



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