NICOLAU SAIÃO

O irreal quotidiano
Um pedido ao senhor presidente

Fiquei parvo! Pensei a dada altura que estava a ouvir mal ou a perceber mal ou que estava com os copos. Apesar de eu não beber nada – excepto lá de vez em quando um tinto do Reguengo, um branco de Borba, um rum da Jamaica, um anis de Badajoz, um xerez de La Serena, uma aguardente de Tavira, um conhaque de Sevilha…

Mas creio que já me perceberam: pensei que estava a ficar um pouco xoné ou então que por uma brusca mutação me transformara naquela personagem do Bradbury que tem o coração à direita e o fígado à esquerda por ser um habitante do outro lado do espelho.

Senão vejamos: vi e ouvi com estes e estas que a terra há-de comer o senhor doutor Cavaco Silva, que está como se saberá presidente da República, afirmar em plena reportagem televisiva que ele almejaria que os cidadãos nacionais, ou seja portugueses, não se resignassem (sic). Suponho, se é que estou a interpretar bem o estadista em apreço, que o que ele queria dizer na sua é que os referidos lusitanos não devem contentar-se com o pedacinho de relva que lhe tem cabido na repartição da terra quotidiana (falo simbolicamente, claro) deste nosso Portugal.

Dir-me-ão: frase equilibrada, serena e justa – pois toda a gente sabe que isto é absolutamente de aconselhar. Já muitos homens públicos, nomeadamente alguns políticos quando parecem estar mais pachorrentos, têm exprimido tão sagazes propósitos. Mas tal ser dito pelo mais alentado magistrado da Nação - isso é que fez tremer de excitação um romântico como eu…

Mas o melhor ainda estava para vir em matéria de libertário incitamento!

Logo a seguir o mesmo senhor, em que a parte mais progressiva da pátria tem posto as suas complacências e até os que em geral estão do outro lado da barricada – vulgo críticos marotos – encaram com aprazimento porque parecem não ter outro remédio, incitou a rapaziada cá da pátria a não ser subserviente perante o Estado, esse Estado de que ele é o maior e talvez melhor representante!

Bem sei que tal oração de sapiência a proferiu o senhor presidente no Dia de Portugal, numa altura em que os cidadãos necessitam empolgar-se por causa dos importantes acontecimentos desportivos que estão a acontecer lá para as bandas do Reich. E que sendo quase Verão precisávamos de algo que nos espevitasse – uma espécie de sursum corda – para entrarmos nas férias descansados.

No entanto e para a ementa ficar completa, eu pedia ao chefe de Estado uma coisinha simples, que certamente não me fará a desilusão de não me conceder: enderece uma advertencia, aí coisa de dois minutos, a uma razoável percentagem dos membros das forças vivas que aqui actuam, nomeadamente a uma considerável porção dos que agora mandam no partido em que Vossencia já mandou: quando algum cidadão não se resignar, quiçá rebingando com espírito cívico e barafustando educadamente, eles que não comecem logo com manobras de intimidação, com apartes acintosos, com atitudes de escaqueiramento para com o fulano doutrinado por vossa Senhoria. Como se dizia no tempo em que éramos gaiatos, que não nos tomem logo de ponta.

Olhe, por exemplo no Alentejo – onde numa certa cidade que eu cá sei quem dá a entender que não deseja resignar-se (mediante o trabalho prático de criticar justa e acerbamente os ex-colegas de partido de Vossencia ou até de fazer coisas cujo sucesso não podem sufocar), vê logo erguerem-se contra si os cacetes e os punhais (continuo a falar simbolicamente) que tentam que ele nunca mais siga qualquer eventual conselho presidencial.

Porque sabe, senhor presidente, as coisas é no mundo da realidade que comprovam a sua eficácia. Não se pode rebingar (é uma expressão alentejana muito sugestiva) nem protestar contra silhuetas virtuais. Não podemos negarmo-nos a ficar resignados contra simples imagens num espelho. Isso tem destinatários bem materiais. Quem não se resigna fá-lo sempre em função de qualquer coisa palpável.

E é evidente que o Senhor sabe isso muito bem – e por tal facto nos aconselhou judiciosamente, para que possam duma vez por todas ser ultrapassados os atrasos, os desvigamentos, as maneiras de ser que tolhem este país e de que têm sido maiores beneficiários os tais que aponto à sua advertência e que devem ter ficado com as orelhas a arder com o que Vossencia disse.

Uma vez que, e honra lhe seja, a sua postura intranquilizadora, quase libertária, não foi a meu aviso apenas uma atitude de hipocrisia para inglês ver, como infelizmente muitos praticam com o maior dos despudores. É verdade que ainda há bocado houve um malandreco amigo, um desses que não se resignam mesmo nunca (mas também eu cantei-lhe das boas!) que me disse sem brusquidão mas com um acinte de que não gostei: “Ó meu lorpa! Então tu não percebes que o Cavaco, como é mais esperto que os outros e já concluiu que este Estado não resolve nada, agora quer atirar o ordálio da trabalheira para cima do lombo da maralha? Naquele estilo que a gente já lhe conhece dos tempos em que ajudou a malta a pensar que eram tudo favas contadas e já tínhamos o paraíso à porta? Boa vai ela, meu palonço…“.

Não creio que o meu velho amigalhaço desta vez tenha razão!

ns

 
 

 

 

 

 

 

 


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