NICOLAU SAIÃO

RETRATOS DE FANTASMAS NÍTIDOS ( fragmentos )

Todos nós temos intensas recordações que constituem o pão e o sal dos tempos que vivêmos, com todo o sabor e o cheiro dos dias que se foram.

Ao plasmar estas figuras do meu passado, santos civis ou demoninhos familiares, pus ao acervo que escrevi o título que ali vai acima.

Ao dar a lume os seus perfis vos farei com elas companhia, o que será também uma forma de saudar um antigo e, assim o espero, partilhável deslumbramento.

A Protagonista em Pessoa – Aí pelos meus doze anos, estando o meu pai como funcionário de confiança no stand da Peugeot de meu padrinho de crisma – que eu frequentava depois das aulas para ler livros e selecções do Reader’s Digest acantonados num armário do pequeno armazém – disse-me em certa ocasião, talvez tarde talvez manhã: “Vai levar esta encomenda ali a casa da D.Rosa”. Era mesmo em frente, nos altos do Café Facha que esta senhora D.Rosa Maria, viúva dum professor de Liceu e sobrinha (quase da mesma idade!) de meu padrinho, morava acompanhada de sua criada Clementina. Casara algo sobre o tarde, parece que também por gosto de seus tios. E meu padrinho era o sr. João Vinte-e-um – um dos nomes, talvez pelo inusitado, mais conhecidos na cidade, tanto mais que a família, pela operosidade da famosa D.Rosalina, era a dona da pensão-hotel onde estacionava José Régio e, também, toda a gente de estatuto que visitava Portalegre.

A D.Rosa (Fernandes de Carvalho) já eu conhecia de vista. Era senhora de cinquenta e picos, bem vestida, a quem a idade mediana ainda não retirara uma certa elegância e, claro, uns olhos negros e pestanudos de portuguesa de lei.

Foi a aia Clementina quem veio abrir. Também a esta a conhecia e ela tratava-me cordialmente quando nos cruzávamos na rua do pé da porta. Disse em voz alta lá para dentro, com a sua voz beiroa, quem eu era e ao que vinha. E lá de dentro uma voz educada retorquiu que mandasse esperar. Depois a senhora da casa apareceu – e trazia uma espécie de quimono de seda sobre as roupas habituais, o que bastante me admirou, pouco avezado que estava a tais elegâncias senhoris.

Olá, Chico – atirou-me sem detenças – entraaqui para a sala”. E daí a momentos de conversa, perscrutando-me: “Disse-me a Josefa que gostas muito de ler...”. Josefa era a minha professora de Português, drª Josefa M., que me facultava todos os livros que me apeteciam nas aulas em que se escolhia livralhada para ler em casa, hábito que não sei se inda existe na comunidade colegial. E drª Josefa era membro da família por mor dos da outra banda, também oriundos do norte.

Confirmei. E ela disse-me então mais ou menos o que segue: “Se quiseres, no Domingo passa por cá. Vais cá lanchar. E depois vês ali os meus livros e poderás levar algum que te agrade”.

Assim o fiz – e foi o começo duma amizade que durou vários anos em directo e, em indirecto, toda a vida.

Num domingo por mês, lá ia eu a casa de D.Rosa Maria. Lanchava, lia Séculos Ilustrados, a revista Eva, exemplares do Bugs Bunny (crismado por cá de Pernalonga) e à medida que fui crescendo no corpo e na sua estima passei a ir-me embora só depois do jantar, sempre servido a preceito pela operosa Clementina. Interessava-se pelos progressos nos meus estudos, num dia achou que já era tempo de eu ouvir Mozart, Schubert e outros da confraria. E o primeiro livro policial que li, o “Crime na Mesopotâmia” da Agatha Christie, acompanhado de “A cidade dos estranhos” do grande Sherwood Anderson, foi ela quem mos emprestou.

De vez em quando apareciam outros familiares, entre os quais uma mocita loira quase da minha idade – e eu punha-me a pensar como é se podia ter uma cor de cabelo assim, tão estranha e como que doce. Julgo saber que mais tarde casou com um cidadão sul-americano e foi brutamente infeliz. Coisas da vida, pois então, que uma simples côr de cabelo não pode, que pena, resolver.

Num dia, pesquisando nas prateleiras dos dois altos armários da sala onde guardava os livros, peguei num que pus de parte para levar. Tinha uma dedicatória do autor e rezava mais ou menos assim: “Para a D.Rosa Maria, que me forneceu o nome e o perfil. A muita estima do José Régio”. Quando pus sobre a camilha os três livros que seleccionara, a minha amiga pegou nele e disse-me: “Chico, não leves este. Pode estragar-se, apesar de seres cuidadoso e eu não queria ficar sem ele”. Anuí, sem fazer alarde.

E foi tempos mais tarde, ao lê-lo nas instâncias escolares, que comecei a juntar A mais B.

Quando fui para a tropa e depois para a Guiné, D.Rosa deu-me um grande abraço e uns beijinhos repenicados. Estava, via-se, comovida. E, findo o meu exílio prematuro, na volta fui visitá-la e agradecer-lhe frente a frente os aerogramas que me mandara com palavras de conforto e umas notazitas de banco para animar a rota.

E lá segui meu caminho...

Um dia, já os anos estavam maduros – e as visitas espaçadas – encontrei-me com ela ao pé da Farmácia Romba. A Clementina morrera, ela vivia agora com uma prima lá no bairro dos ricos, no extremo da cidade. Estava quase cega. Perguntou-me pela família, pelos filhos, pela vida. “Já pouco tempo cá hei-de andar, Chico. O tempo é que nos leva...”. E levou. Finou-se, segundo me disse um seu sobrinho professor, daí a semanas, durante a noite e parece que serenamente.

Belos passeios tinha Portalegre para dar. Rosa Maria, já mais calma, pensava no que ia ser a sua vida, naquela sua futura grande solidão em que o destino a lançara”.

Cito de memória o Régio, que nem tenho coragem de ir lá dentro buscar o livro para citar correctamente.

O Político Truncado – Iria ter linda carreira, mas a bernarda abrilina modificou-lhe a trajectória. Deixou-o meio em seco e ligado a uma formação partidária dessas que balançam com o vento do Oeste ou, vegetando, concedem escassos réditos para tão grandes apetites.

Quando no tempo da outra senhora passeava de mãos a dar-a-dar, solene e pimpão, acompanhando os raciocínios e as confidências dum corifeu da situação passo a passo junto à esplanada do “Café Tarro” – era belo de ver: imponente, tostadinho e bem penteado como um galã de bairro de média estatura. Ficou lívido com o colapso do regime das conversas em família (marcelismo). Durante uns tempos esteve confinado aos seus botões, decerto atónito com o furacão que lhe desabava sobre as certezas e lhe cirandava em roda das dúvidas. Ele, que sempre olhara para dentro numa imitação de meditação profunda, ganhou uma espécie de melancolia que pareceu assentar-lhe como uma luva. Depois, espertou. Apreciador de homens providenciais, ainda é solene de ademanes e parco de conversas, excepto quando através de um líder a valer a pátria parece pedir. Um dia o maroto do mundo deixar-se-á lá dessa arrelia das liberdades para todos e mudará para o que convém: e ele terá finalmente um cadeirão à altura da sua fidelidade perdigueira.

Mas que não seja tarde de mais, que os anos passam e aos roncões de média estatura o tempo costuma pregar partidas desagradáveis.

A Velhota das Estrelas – Vendia-as, estrelas de farinha e açúcar com ervas de cheiro a condimentar, em loja modesta de frutas e legumes num recanto escuso duma rua improvável. É que se apanhava com o aroma das laranjas, queijos, nabiças, de repente – pois a lojeca ficava numa curva onde não se esperava que estivesse. Para mim, contudo, cheiros compensadores, límpidos para gente que goste de bosques, quintas e hortejos. Hoje a loja desapareceu, engolida pelos quotidianos desesperados. E, para minha maior mágoa e ligeira fúria, nem sequer lhe deram sumiço mediante um bar finório ou uma taberna manhosa - limitaram-se a fechar a grossa porta pintada de castanho. Já entenderam o porquê da fúria: é que me ficou ali como um cadáver requentado, absolutamente cegueta e mudo. E, clarete, nem valeria a pena rebentar-se a porta à patada para, ao entrar, apanhar a adolescência evolada numa das prateleiras vazias.

Mulher de preto, a cara era como se diz um pergaminho. Não faria êxito num moderno supermercado. Lenço na cabeça, as mãos grosseiras de quem sabe dosear o doce nos caminhos da vida e nos bolos de canela, de arroz e nas leves boleimas ou, como em outros lugares se crismam, enxovalhadas. Muito calada, um ar grave de pessoa que tivera ou passara mundo. Passara, não passara – quem lho iria perguntar?

Desapareceu andava eu no fim das secundárias, que nas primárias a filava manhã sim manhã sim, com os meus tostões prontos para amendoins e as tais estrelitas, bolo de canela que ainda hoje move a minha gula saudosa. Escrupulosa nos trocos, duvido que alguma vez tivesse enganado algum petiz ou graúdo mesmo com distracções pelo meio. Fiquei-lhe devendo muitos minutos de gozo mastigador. E a não menor delícia daquele ar bondoso de aia exilada. E um resto impalpável, um não-sei-quê de desventura ou íntima tristeza. Cá para mim aquilo não era comércio, era puro destino fixado em dias ora melancólicos ora decididamente alegres oferecidos de graça, nos dias ensolarados, aos passantes fixos e descontínuos. E como deixar em escrita aquele silêncio interior, aquele perfume de realidade real que, agora, sei que gozei nos meridianos da doçaria humilde mediante esses contactos matinais, pensava eu que fortuitos e já perdidos no tempo?

Hoje já não há por aqui lojas daquelas. A última que naquele estilo conheci foi uma taberna na rua do Mercado, transformada ao presente em quitanda com luzes e balcão moderno. Curiosamente, também gerida nesses outroras por uma velhota parecida no pormenor, de perna arrastada e trajando de escuro.

Coincidências temporais, quero crer, numa cidade com viúvas para dar e vender.

O Homem das Malas – Dormia num quartito emprestado e comia nas tabernas, a princípio ora aqui ora ali. Depois passou a comer, vinda a democracia, num sítio fixo pelo interesse de um benemérito.

Um olho sem vida, bola de carne vítrea de garoto mal-nascido que, todavia, a meu ver não inquietava os adultos nem assustava as crianças, mas curiosamente lhe dava um ar terra-a-terra de actor sem filme. Barba mal feita, casaco de clown bissexto ou de padre despadrado, pitando o seu cigarrinho irreparavelmente. Um estilo natural de quem sabia que nunca iria para um paraíso ou para o Café dos ricos sem um recado a entregar. Voz um pouco rouca como convém aos santos civis a quem quase se não liga em cidades distraídas ou constipadas. Mãos de carregador ao sol e à chuva. Trabalhando, trabalhando sempre como onagro estafado de solar ou de quinta das redondezas: como rapaz-de-mandados, levando embrulhos para este e aquele comerciante, com um carrinho-de-mão transportando malas e malões e um sorriso ingénuo de pássaro mal-amanhado.

Ainda de bibe, creio que o vi pela primeira vez junto ao lago da Corredoura onde meu pai me fora mostrar os patos navegadores, atracção ao tempo da criançada portalegrense. Saudou respeitosamente “o senhor comandante” e afagou-me o rosto de passagem. Eu fiquei a olhá-lo com uma surpresa que não sei classificar.

Mal vestido, decerto mal alimentado, os chuis tinham-no por semi-beberrão e nem o incomodavam, apenas de quando em quando lhe atiravam uma que outra palavra como que por desfastio, serenos na sua imponência de servidores desvelados do regime. Com, ponhamos assim, condescendência de pequenos sobas mirando fraca fruta para um apetite de omnívoros bem treinados.

Aqui e ali o fui encontrando ao acaso da passagem dos meses e dos horários da Escola e do Liceu, dos bilhares, dominós e jogatanas a doer (cartas bem batidas e que às vezes nos deixavam sem cheta) e das deambulações à cata de namoricos tirocinando amores precários nas ruas das beldades operárias para os lados do Terreirinho e no bairro da gente fina, com suas pequenas madonas tafuis e distantes, sopeiras incluídas. E nas fitas do Cine-Parque hoje defunto. Muitas vezes lhe cravei, porque ele era generoso, belos exemplares da sua marca preferida, o apreciado “Três Vintes” já passado à história, uma saudade no seu invólucro amarelo-torrado que até parecia guloseima para fumadores fartamente abonados (e nunca, coração, um cigarrito me soube tão bem, tirante os “kentuckys” de mestre Gervásio, o carpinteiro que eu observava durante horas no seu labor de fino construtor de carroças).

Chamar-se-ia, de seu nome funcional, José, Armando, Zacarias? Simão, Joaquim ou António? A malta e toda a cidade lhe chamava “ó Sério” e não era por pirueta. Joaquim Sério não lhe ficaria mal, mas nunca o soube na verdade: ou se o soube fragmentou-se, evolou-se enquanto designação identificada. Muito poucas letras tinha, poucas coisas devia saber. Mas era democrata, mais que isso socialista e, uma vez, no fim dum comício em que levantei os corações arrebatados com sete frases libertárias, veio estreitar-me a mão e disse-me com enlevo militante: “Conheci-o desde pequeno…” e cerrou-me revolucionariamente o punho musculado no braço direito.

O que guardo para valer em pé de página, digamos, é a sua figura curvada, já quase nos tempos do fim, sempre com o ingénuo sorriso de vagabundo filósofo pastoreando as ruas da cidade, suas companheiras de vida interior e exterior. Um São Bento Labre alentejano e sem exageros, que ele já estava reformado e trazia o fato limpo pelas senhoras da Misericórdia.

Na última vez que o vi a senhora dona morte, com a esperteza que se lhe conhece, deve-o ter aconselhado a ofertar-me um abraço. E eu voltei, talvez um pouco depressa de mais, para o carro para que ele não me visse os olhos marejados. Que ele não gostaria, decerto, de ter que dizer a São Pedro que o companheiro de revolução, de cigarrêtes e de fitas se fizera um pachelgas.

Deve concerteza, neste momento, levar pacotes ou recados de um santo qualquer para outro colega de merecimento. Ou, numa artéria celestial, sorver o seu cigarrinho com serenidade convicta. E, se calhar, já com os dois olhos emparelhados para passeios remansosos e segredos intemporais.

À esquerda de deus pai.

O Polícia de Papelão – Diziam-no um bom sacanola, pachorrentamente no giro como um buda ambulante de segurança pública. Suspeitavam mesmo alguns, cochichando-o aos correligionários, que fornecesse os arquivos secretos com material bom e fresco. Nunca tirei isso a limpo, se acaso se verificava, de resto ele era para mim muito mais uma gravura típica que propriamente um cívico. Barrigudinho, como se usava na época frequentemente nas agências de autoridade, tinha um carão avermelhado denotador – para além da estrutura biológica – do seu algum apreço por Baco. Com má consciência? Provavelmente, pois ainda não chegara o tempo da boa liberdade em que os mantenedores da ordem (do regime, quer-se dizer) têm largueza para frequentar os lugares onde escorre o sumo-de-uva com, talvez, excessiva frequência. Mas vão outros os tempos, dantes até se dizia à boca pequena que quando um cívico ia à tasquinha era para executar trabalho, verbi gratia espetando a orelha para conversas de gente que escavava ardilosamente na obra do homem de Santa Comba (Salazar).

Quando trajava à paisana, quase nunca o reconhecia: ficava como que transfigurado, mas um tique o denunciava – as manápulas atrás das costas e o passo cadenciado de quem tinha muitos metros de rua para desbastar ao correr das horas de serviço, por acaso de folga. Fazia voz grossa, que um dia bem lha ouvi num raspanete a um colega de estudos liceais. Devia ter seus azeites, mas ainda não incomodavam tecnocraticamente, em estilo gestapo, chegados que ainda não tinham sido os modernos tempos caceteantes de mestre Diasloureiro, que foi cá no país democrático o renovador de semelhante festarola.

No fundo um pobre diabo diligente quanto bastasse para chegar à reforma. Um pobre homem, afinal, de certezinha camponês despejado na profissão, exilado na cidade e de certo picado pelos do topo.

Teria alguma vez, na verdade, prejudicado ou feito mal a alguém? A mim parece-me que não, pois não possuía do esbirro mais que a figura caricatural. Um azar, digamos. Como nas fitas, o físico do papel. E querem maior desculpa para um sujeito que, se calhar, nem via filmes policiais?

A Rosa de Todo o Ano – Não se chamava Rosa, ‘tá de ver, mas eu chamava-lhe assim. Criada de todo o serviço duma família de teres, ia à praça, varria as escadas do prédio de seus patrões, lavava janelas e batia tapetes, lá para dentro certamente se dava a misteriosas tarefas de cosimentos e cozinhados, habituada a alombar, percebia-se, com tudo o que requisitasse suor. Quando eu morava na parte velha da cidade, nos meus tempos de gaiato, encontrava-a frequentemente numa loja de tecidos a mercar carrinhos de linha e a buscar a caixa das amostras de botões, aparelho misterioso e encantado com encaixes sobrepostos como jardins suspensos que também eu transportava para minha tia, que cosia para fora como franco-atiradora de linhas e agulhas.

Sempre jovial, dava-se bem com vizinhos e lojistas. Quarentona, ainda denotava que fora linda cachopa. Mas, retirada das lides do coração, ficava-se perceptivelmente pela existência de mourejadoura a todo o pano. Constava que tinha um filho lá para os longes de uma mirífica Lisboa, marçano ou manga-de-alpaca de pequeno porte em lugares mais ou menos lendários. Portalegre naquela altura ficava longíssimo da capital, daí o desapego aparente. Um dia, ia eu nos meus catorzes/quinzes, perguntou-me onde comprara uma capelinha de macela que por esses dias de S.João eu levava nas mãos (todos os anos as compro, rendido às flores secas da tradição).”Foi ali na do senhor Xis, senhora Rosa…”, disse-lhe eu deixando escapar a boca para a crisma que lhe dera. “Eu não me chamo Rosa, menino! Sou (…)” e lá me disse o nome que agora omito a vosselências. E daí em diante, sempre que nos cruzávamos, cumprimentávamo-nos como velhos conhecidos. Sabia lá ela quanto eu apreciava a sua lhaneza natural, a sua inocente bondade de burrinha de trabalho e que eu somente deixava transparecer na minha saudação respeitosa!

Como outros de outros mesteres, perdi-lhe depois o rasto ao mudar de casa para lugares mais centrais. Ainda estará viva? Se assim for deve decerto trabalhar para os netos, nessas paragens lisboetas onde talvez se tenha juntado ao filho por reforma bem suada. Deverá, concerteza, continuar anciã de boa catadura: os pequenos lojistas e os vizinhos devem apreciá-la, num relacionamento fácil e contente com este saintéxupery feminino e anónimo cruzando a terra dos homens do quotidiano esvoaçante.

O Tio Pequenino - Homem do campo dos seus quarentas/cinquentas, topava a sua figura pequena e escorreita em todas as Feiras (das cebolas, das cerejas) e em tudo o que era festa ou romaria (do Bonfim, do Reguengo, da Sant’Ana, da Ribeira de Nisa, do Senhor dos Aflitos) onde eu me deslocava canonicamente acompanhando os pais e vizinhos com quem se fraternizava. Correctamente vestido, muito direito e asseado, notava-se que tinha nos ombros e nas mãos fortes e calejadas os sóis e os trabalhos da quinta ou da horta, do romper do dia ao cair da noitinha. Era proverbial, a certa altura, na barraca dos comes-e-bebes escorripichando com denodo e aprumo o seu tintol acompanhado de viandas delicadas como o costado, a isca, o peixe frito…

Nunca com ele troquei palavra ou aceno que fôssem. Nunca soube a sua graça ou a quem pertenceria e em que courelas(pequenas propriedades)granjearia o seu pão. Até um dia, mas já lá vamos. Para mim era apenas, com toda a velada simpatia interior, o “tio Pequenino” e bastava-me esta alcunha p’ra meus internos usos. Muito cordial e respeitador, tratava com cortesia, numa voz suave e campesina, os convivas avulsos. E a sua cara escanhoada e seca abria-se às vezes num leve sorriso de singeleza. A partir de certa altura, enquanto eu crescia e passava de infante a adolescente e de adolescente a adulto, como que deixou de fazer anos. Imutável, sentia-o deslocar-se através dos tempos como uma presença pacífica e serena. E que alegria eu senti, depois de ter voltado da loucura da guerra com a inocência feita em fanicos, quando um dia na Festa dos Aventais topei encostado ao balcão de tábua duma barraca bendita o meu “tio Pequenino”, que com grisalha convicção atirava a terra uma sandes de lombo de lindo recorte!

Se a festa era na cidade, digamos a do Senhor dos Passos, “tio Pequenino” deslocava-se ao Largo da Sé a mercar o seu torrão de Alicante e a sua boa ervilhana na barraquita posta rés-vés ao edifício dos Paços do Concelho. Sempre composto, sempre urbano e solitário nas suas andanças todavia comparticipativas. Também o via às vezes no mercado municipal (um dos meus locais sagrados) falando com este-aquele hortelão seu companheiro de labutas – mirando este figo, relanceando aquela meloa, apreciando esta couve…Eu era visto e achado, principalmente nos sábados, a deambular circulando o edifício da Praça. Coisa que ainda hoje, que já vivo por bandas vitais muito distantes, é um dos meus grandes gostos. E – cabeçorra distraída - também era meu colega na ida à massa-frita, ao santo brinhol como se diz na minha vila de Arronches, acompanhado pelas canecas de café de cafeteira, fracote mas com um sabor que nunca mais, minha mágoa, terei na vida…

Ora um dia, passeando de carro (emprestado) com a família, teria eu uns dezanove anos, o meu primo que guiava fez-nos ir ter a um lugar que não conhecíamos bem, em busca de um outro parente de raspão, desses em sétimo grau mas que são indispensáveis. O meu pai desceu do automóvel e abeirou-se de um murozito de pedra em cujo lado de lá um hortelãozito, tapado com um velho chapeirão, mourejava ali à beira e perguntou-lhe sobre a morada do tal parente. O trabucador aprochegou-se, descobriu-se…e era o “tio Pequenino”, que em frases curtas e apropriadas iluminou a informação. Soube então que era dali que ele partia para as suas incursões festivas! E sem me dirigir palavra, num diálogo mudo, percebi nos seus olhos plácidos que também me reconhecera. Foi, durante um segundo, uma espécie de cumplicidade. Senti que ele pensara: “Olha…este é o tal…”. Que eu, para ele, devia ser o que ele era para mim – presença sentida aqui e acolá de seres que passam quase ao mesmo tempo pela Terra irmanados num destino comum de jamais trocarem palavra. Coisas da sociedade e dos acasos, diria eu.

Mais tarde – já ele começava a transformar-se numa presença esfumada – desapareceu-me do horizonte. Soube depois, ao folhear um periódico com a data já requentada, que morrera. A foto lá estava, era o “tio Pequenino” dos meus tempos de criança transfigurado em eternidade pela necrologia noticiosa. Ficou-me um nó na garganta, que a morte tem destes desembaraços: traz de súbito à nossa comoção uma figura de outrora, como se o olhar se irmanasse com a saudade dos tempos idos. Como, afinal, cumpre a quem vive, mesmo que virtualmente, como retrato perpétuo e inesquecível.

O Santo de Pau Carunchoso – Metafisicamente, um peso leve. Ao que parece Deus manda-lhe lembretes adequados e ele, com gravidade mas sem cerimónia, com a naturalidade dos que se sabem escolhidos (sem vaidade!) distribui-os caritativamente como cumpre aos ungidos pela graça. É humilde, bem falante, ama os pobrezinhos e até compreende os ateus, esses desnaturados. Na sua santa compreensão sabe que o são apenas (não é verdade?) por desorientação. Que um dia voltarão ao redil – mas mesmo que não voltem merecem uma oportunidade. Assim como assim não são todos filhos do (seu) Senhor?

A tal ponto humano, delicado e escorreitamente uma alma de eleição, este Bossuet de pacotilha, este S.Tomás de trazer por casa fez sempre a minha admiração estupefacta: disseram-me com verdade que teve duas criadas anciãs e que no estado de moribundas lhes pegou na mão até darem o salto para a eternidade. Questionado sobre o facto, referiu que era para as auxiliar no momento derradeiro! E não ter uma delas voltado – ou até mesmo as duas – por um minuto à vida para lhe escarrarem na cara a verdade básica de que naquele momento um ser humano deve ser deixado em paz, porque cada um tem direito à sua morte sem que ao lado esteja a bondade de um patrão!

Tão dedicado, serviçal e esclarecido nos quereres da Providência – que faz perceber aos mais lúcidos ou versados nos assuntos da Dogmática e da Patrística que decerto o sinal do demo não lhe anda longe. Ou seja: vai ter uma grande surpresa quando chegar o último suspiro e o Criador – em que ele crê com os quatro lombos – previsivelmente o atirar com um gentil mas decidido pontapé no traseiro para o purgatório, que gente como ele nem inferno merece. Mas talvez, ó céus, isso seja ainda matéria de júbilo, porque para estes semprempés místicos tudo é matéria de comprazimento e auto-consolação, tudo é magnífica ocasião de ascenderem, como ele vai ascendendo pouco a pouco, ao seio da mais celestial e gratificante santa abominação.

O Tio Mané Vítima – Ou só o “Vítima”, que os anos abreviam até as alcunhas inventadas. Era carvoeiro e quando apregoava “Olha o picão, picãããão!” o seu grito publicitário era uma queixa rouca e desgarradora que fazia pena e riso em simultâneo. Como uma acusação feita ao destino, quase no género dum Pamplinas sonoro. Daí o nome de Vítima que de pronto lhe colei para gastos internos.

Todas as tardinhas, com o jerico liberalmente carregado, passava o “Vítima” perto da minha casa. Às vezes um bocado aos trancos, que Ti’Mané gostava da sua pinga e não devia ser peco a servir-se da caneca. E sendo o burrico o seu meio de transporte, não corria o risco de ter de soprar no balão ou ser autuado, com vilania, pelos pasmas(polícias). Daí, concerteza, a sua solitária e serena reincidência que lhe desatava a língua e o punha em conversas íntimas, com perguntas e respostas só lá p’ra ele, num tom algo entaramelado mas convicto. Que filosofias de mágoa ou espanto lhe percorreriam as meninges? O “Vítima” jogava nos diálogos a uma voz, visitando lugares inacessíveis aos outros nos continentes dum discurso próprio e, confesso, isso fazia a minha admiração juvenil. Pela evidente constância, decerto dirigida aos manes.

Às vezes acompanhava-o um filho ainda novito mas que ele já dera às artes ígneas da carvoaria. Tinha uns olhos duma tristeza infinita. Mas, como eu o conhecia da escola, sabia que isso se devia mais ao enfarruscado do rosto – marca inevitável em quem praticava semelhante tarefa. Calado, sobre o magro mas rijote, conhecia como seu pai as lides do fogo, o largo espelhado das chamas e, depois, o fumo acre e oloroso sobre os campos. Daí, talvez, o seu algum afastamento da malta colegial, rapaz-homem que já era. Mas pacífico – e com uma humildade comovente de pobre. Um dia, um peralta qualquer ofendeu-o e, ameaçador, colocou-se em posição ante os olhos algo acossados do jovem carvoeiro.

Impante, bruto como as casas, humilhou-o com desfaçatez. Ou seja, teve azar. Com a minha delicadeza de orangotango fui-me a ele e deixei-o feito em cacos: e que isso conte a meu favor, essa zaragata de que me orgulho, nas contas a efectuar com os anjos guardiões do senhor deus-dos-exércitos. E nem sei se ele me olhou com os seus lúzios de labutador sem usura.

Há uns anos, andando eu a passear numa das vilas-dormitórios da grande Lisboa onde tantos cabo-verdianos moram, dei com ele – com um filhote à ilharga – a entrar num cafézito de bairro. Fiz-me também entrado e tomei anonimamente qualquer coisa enquanto o nosso herói desbaratava uma sandes acompanhada a cervejola. Não era, portanto, um adepto do tintol como o senhor seu pai já falecido.

Paguei o não sei quê que bebera. Saí, com o coração a bambolear como o Ti’Mané fazia. E na rua, enquanto ia respirando o ar proletário daquele bairro de operários, só me apetecia gritar baixinho “Olh’ó picão, picãããão!”.

Como uma queixa saudosa, digamos. Ou uma saudação daqui para o além - burrico incluído.

O meu Belo BrummelFoi na tropa, na Trafaria, mais exactamente no Batalhão de Reconhecimento de Transmissões, que eu conheci o Paraíso. Não, não me refiro ao mítico Éden, que nisto de aquartelamentos não se usava ir por aí, mas ao Manuel Paraíso, meu colega de crípticas saladas militares. E não digo isto por acaso, pois éramos ambos tirocinantes lampeiros da especialidade de criptografia, esses secretos labores de cifras e maquinetas reservadas. Para quem não esteja a par do léxico soldadesco: tirávamos o curso de “material e segurança cripto”, que era a gajada que no exército fazia/faz os códigos secretos e velava para que não caíssem em mãos erradas. Estudávamos no duro não só a forma como o conteúdo dos irreveláveis cruzamentos, a psicologia da espionagem e defesa pessoal pelo meio, o que deu para termos como professor o Melo Antunes e outros oficiais que mais tarde fariam parangonas jornalísticas no âmbito da justa abrilada.

O Paraíso, um moço de média estatura mas bem lançado e com uns cariciosos olhos acastanhados sob a melena pouco desbastada, tinha na vida civil depois de ter tirado as secundárias numa escola comercial a excelsa profissão de, como dizem os franceses - que em lábia linguística ninguém lhes ganha – maquereau, ou seja gigolo ou, se preferirem, acalentador profissional de corações. Já perceberam ou preciso de entrar em mais detalhes?

Aí ao fim duma semana de camaradagem militar, apanhando-me numa certa privacidade dirigiu-me com vincada delicadeza um dos mais inefáveis elogios que como escritor já recebi: “Já te topei! Tenho andado a observar-te…És da profissão, não é assim?”. Fitei-o um pouco surpreso: não entendia o que ele buscava dizer. E o Paraíso, voltando à carga e sendo mais explícito: “Faz-te de novas… Então! As gajas…’tás a ver? O pilim… Também és do meio, que eu já te tirei a pinta!”. Devia referir-se ao bigode que sempre tenho ostentado e que, por requerimento, eu safara (excepção feita ao tempo da recruta, que aí santa paciência ia tudo a eito) à máquina zero. E talvez, também, à minha maneira amável de falar com a malta. E, muito provavelmente, a uma saudosa e escorreita elegância na glória dos meus vinte anos, ajudada pela prática do pugilismo a sério (fui aluno de mestre Georges Gogay, campeão escocês da nobre arte). E continuando: “Pois eu tenho feito o Estoril…Bom vasilhame, safo-me com as camones e as bifas. Tu tens feito, se calhar, o Algarve, não?”. Porque de facto eu não era familiar às suas paragens.

Não o desiludi, nem com o não nem com o sim. Um simples gesto no ar e um revirar de olhos que a nada obrigavam foram um arremedo de código com que entrei na sua camaradagem…trabalhadora.

O Paraíso vinha de uma estirpe valorosa: o pai era carteirista, a mãe receptava. Tinha um irmão “escalador” ao qual nenhuma fechadura de porta de vivenda resistia muito tempo. O Paraíso, porque tinha bom físico, boa conversa e uma sustância varonil, fora para chulo. Mas um chulo sério, que não se dava ao jogo pouco limpo de viver à custa das esforçadas profissionais do mais velho trabalho do mundo que, tal como eu, nunca frequentou. “Eu cá, ó Portalegre – era como ele me chamava – sou um dandy com’ó Brummel. Já ouviste falar? O mangas mais elegante de Inglaterra, fica-te com esta. Até o príncipe o invejava!”.

Resolveu introduzir-me no seu meio de específica mundanidade. E, por uma questão de cultura geral, tenho o desgosto de confessar que por algum tempo o segui nessas andanças – como que numa homenagem ao Rimbaud! Pois não foi este irmão de escritas que nos indicou ir até onde as forças das letras aconselhassem?

O Paraíso achava que eu tinha muito futuro na profissão, mas numa tarde dum sábado, lá pelas arribas da Caparica, desiludiu-se:”Atão tu zarpas da madama só porque a achas um camafeu? Mas que brummel és tu? Um gajo trabalhador não se põe com porras dessas…Não ‘tás ali p’ra gozar, meu mano – trabalho é trabalho, conhaque é conhaque! E tu, que tens tão boas condições!...”. As condições a que o meu confrade se referia deviam ser o eu não fazer nada – porque nada sabia fazer nessas lábias de engatatão: limitava-me a ouvir as damas e a ser muito natural, porque para mais não dava a minha sabença (nula) de sedutor. Mas ele achava que isso era o máximo, uma espécie de segredo que eu mantinha como arma decisiva. E tornava:” És um brummel que nem precisas de palheta…Atão, pronto, não te podes baldar”. E sem me deixar dizer que a bifa era horrorosa: “Olha se eu me pusesse com esquisitices! ‘tava desgraçado… Mas que raio de brummel és tu?”.

O fim da especialidade veio tirar-me de embaraços. E lá fui para Évora, até que chegou a horinha de ir para as Guinés.

E um belo dia, passados uns meses, lá no Café mesmo em frente da Casa da Cuf, ao pé da fortaleza da Polícia Militar e antes do Pixiguiti, quem vejo eu acompanhado de uma morenaça de se perder o fôlego? Pois o meu Paraíso, que com alegria pelo reencontro me estreitou castamente nos seus braços mourejadores. E confidenciou-me: “É a garina dum sargento…Eu estava em Nhacra…Agora estou por cá…Há por aí grandes boas sortes, Portalegre. Um brummel orientado safa-se nas calmuchas!...”. Percebi o recado dos seus olhos ternurentos: estava de novo, esquecidas desilusões, a puxar-me para a má vida. Mas eu resolvera assentar. Bem…não com tanta rapidez como isso. Ai, ai, ó meu confrade Paraíso, estavas no melhor do teu itinerário de grande vindimador…

Perdêmo-nos daí a uns tempos, nas voltas do ambiente guerreiro. Eu e a minha malta íamos cada vez mais para o mato a entregar material. E cá por coisas eu comecei a perder a vontade de aventuras daquele jaez.

Anos mais tarde soube dele por um colega de escritas que também lá estivera na tropa connosco e me transcrevia a memória duns jornais: o meu Brummel tinha estado encravado num confuso affaire que metia, de juntura co’a sua famelga, umas pulseiras e uns colares…(E agora que será feito dele? Qualquer dia, tirando-me de minhas tropecinhas, no milieu de Lisboa onde por causa das pesquisas sobre policiarismo conservo (conservava) bons contactos entre ladrões, burlões e outros profissionais que tais – às vezes muito melhores do que certa gente (séria) amadora - ainda vou palpar-lhe o rasto.).

Desliguei, com a saudade a bater-me nos ouvidos.

No fundo nunca me separei totalmente da honorável profissão – no entanto, só como observador. Ou seja, folgo em ter referenciados os gigolos das letras, que por cá os há mais do qu’ó que se pensa (e nas letras é indesculpável!) e, com algum pudor o digo, não apenas no paralelo ofício de versejadores…

 

ns

 
 

 

 

 


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