NICOLAU SAIÃO

Em jeito de receitas de cozinha

Como sabem e os chefes de Estado dum bocado do mundo creio que também, pois se reuniram de emergência em Paris, há por aí uma crise.

Escusam de olhar para mim algo acerbamente porque, juro, a culpa não foi minha. Nem, naturalmente, de vós que tendes a bondade de me relancear a prosa.

Mas segundo disse um especialista em...em...não me recordo agora exactamente em quê, mas enfim é um especialista isso vos garanto eu, de sua graça A.Branco – creio que era isto – a crise é da responsabilidade de todos nós! Dos que lideram bancos, dos que manejam as lecas nos bancos, dos que financiam, sustentam, dirigem, auferem, partilham bancos; e,  por último, os que se sentam, acho eu, nos bancos, já não bancos como tal de negócios argentários mas de jardim público. E isto porque, pela minha parte – e se calhar convosco é o mesmo – a minha única ligação com bancos é sentar-me neles, nestes a que aludo, quando a tarde está amena ou quando, de manhã, me dá a nostalgia do passado em que eu me sentava nos do florido parque alentejano da antiga Corredoura, a ler ou a catrapiscar, sem maldade, as moçoilas que por ali cirandavam.

Mas parece que – sem que meta prego nem estopa no excelso mundo dos banqueiros -   também sou, como vós, culpado da relativa hecatombe...

Desconfio que o alvo especialista não tem razão. Culpados haverá, concerteza, não deve ser como naquela surpreendente e triste estória da ponte que caíu lá para o norte e, com mansuetude, afinal depois de muito matutarem os possidentes da Senhora da Balança verificaram que ninguém era responsável!

Mas a verdade é que isto da crise me tem apoquentado as meninges.

E vai daí, por um ímpeto compensatório de adrenalina, incrementei o hábito de entrar intermitentemente, se acaso me encontro mais mentalmente desembaraçado ou pachorrento, num dos espaços públicos interactivos que, tal como no TriploV, não se pratica censura, essa coisa nefanda que, à socapa, tantos que embora não o digam apreciam com algum deleite (pois lhes facilita eventualmente a tarefa de nos esmifrarem sem protestos). Tenho lá publicado alguns textinhos. Uns mais doces, outros mais doces ainda...

Sobre cultura – o caso do Milan Kundera, esse grande novelista, afinal se ter descoberto que começou a sua carreira denunciando um oposicionista à tcheka, que lhe aplicou 22 anos de trabalhos forçados para manter a linha – sobre sociedade, sobre cinema, sobre política...

Assim como que em estilo de receitas de cozinha, em estilo de verbetes de estoriador com pouca estaleca. Poderei apresentar-vos estes cinco que ali dei a lume ultimamente?

1. Marcelo critica Manuela por estar calada perante a acção de Sócrates

Está muito certo que Marcelo se queixe de Ferreira Leite, a Senhora é mesmo, com efeito, um descalabro enquanto líder activo dum partido da Oposição, que tem a responsabilidade de ser a voz de todos os que não querem o atribiliário Sócrates.

Ela devia lembrar-se que, da sua acção incapaz, sofreremos todos nós, porque no sistema de partidos que há, um mau governante é substituído não por um popular qualquer mas pelo dirigente máximo da Oposição. Que tem de ser talentoso e arguto.

Vivemos em Democracia, ainda que tendencial, logo o luminoso engenheiro não pode ser afastado com um tiro ou uma paulada, e sim com maioria de votos!

Daí que a acção de Ferreira Leite conte. Ela tem responsabilidades - de competência, de estratégia, de liderança eficaz para uma vitória justa e que tire a nação das mãos emprestáveis do "menino de oiro" e "animal feroz da política", como tem sido afavelmente cognominado pelos mídias que o bajulam.

Há que dizer que Marcelo também é grandemente culpado pelo estado a que a nação chegou, mediante a sua retórica bota-abaixo contra os próceres que não lhe agradem (Menezes é um exemplo da hostilidade marcelista) mas, muito mais, pelo ambiente mental de relativismo que tem ajudado a incrementar com os seus autenticos talk shows de puerilidade e má-língua pseudo-genial.

Creio que ninguém esqueceu ainda que este homem, que agora tenta apresentar-se como uma espécie de "grilo do Pinóquio" ou seja, de consciencia moral dum regime, foi - espero que já não seja - aquele sobre quem se disse que, a exemplo do cavalo de Átila, por onde passava a palavra dele a erva político-social não tornava a crescer.

Ou, com o devido respeito e sem acinte, que era realmente "Maquiavel à moda do Minho".

Pensemos nisto tudo. Para, depois de Sócrates, não sermos enganados agora por esta dupla.

2. Cachapa faz filme sobre Urbano e diz que ele se mantém “o escritor, o resistente, o que acredita no melhor do Homem

Urbano acredita no melhor do Homem, diz Cachapa referindo-se a Urbano. Está certo.

No entanto, é um pouco difícil de conciliar tal coisa com o facto de que Urbano sempre apoiou o regime totalitário soviético. Decerto pelas melhores razões, claro.

E quem se esqueceu das atitudes que subscreveu, por altura do PREC, sugerindo, numa clara tentativa de "ensinar"como devíamos pensar, qual era o discurso progressista que um escritor do lado do povo devia ter?

Felizmente, com a passagem do Tempo, que como referiu Gide é o melhor dos críticos, estes "pensadores proletários" vão-se morigerando e até, felizmente, deixam após o passamento (que espero lhe venha muito longe!) uma imagem positiva de humanismo e bom-senso.

Já com Cunhal (Manuel Tiago) sucedeu o mesmo, nos últimos tempos fazendo chamadas (e decerto seriam sinceras) para a necessidade de se escrever livremente - ele que ficara célebre pelas barreiras violentas que levantou a Régio numa polémica em que votou o grande autor de "Benilde ou a Virgem mãe" à condição de reaccionário hostil a uma "literatura boa para o povo", só porque este persistia em pensar pela própria cabeça e não por uma qualquer cartilha de partido?

Os grandes espíritos reencontram-se, como dizia Vítor Hugo!

3. Assumir a democracia

Esta história de, quando se pretende impedir alguém de exprimir as suas opiniões, se dizer "este quer é assumir protagonismo!"é típica da chantagem moral tão em voga em sectores totalitários, ainda que se tapem com vulgatas "progressistas".

Não tenho simpatia pelos grupos nacionalistas, a quem tenho frequentemente criticado e aos quais me tenho oposto decididamente, sou socialista/democrata/libertário, mas entendo que esses grupos têm o direito de se exprimir. Exprimir, não agir violenta ou ilegalmente.

Democracia é isso mesmo, o Outro poder expressar as suas opiniões por contrárias a nós que sejam.

Portanto, mesmo que queiram assumir protagonismo, eu perguntarei: e daí? Assumir protagonismo é o que qualquer homem público faz e é legítimo a qualquer um assumi-lo.

Chama-se a isso direito de expressão. Algo que repele chantagens, mesmo de cunho do lugar comum em estilo papagaio.

E, se acaso alguém o faz ilegitimamente, ilegalmente - os tribunais que decidam, é para isso que existem. Que os pagamos com os nossos impostos.

Dizia Gandhi, e com muita justificação, que "democracia é o meu contrário poder exprimir-se, assim como eu em relação a ele".

Qualquer democrata, de esquerda ou de direita, subscreverá creio eu esta ideia do grande pensador e político indiano.

Só os totalitários - nazis, comunistas, fascistas ou fundamentalistas - procedem de maneira diferente.

Temos de assentar nisto definitivamente: Portugal é uma democracia ou não é? É um país de Direito ou não é?

Estas são, mais que perguntas nucleares, efectivamente fundacionais.  O resto...é autoritarismo disfarçado.

4. Milan Kundera denunciou um cidadão à Polícia Secreta comunista por querer fugir do país. Este foi condenado a 22 anos de trabalhos forçados, enquanto o escritor subia na carreira.

Esta revelação não me causa qualquer estupefacção. Os sequazes, sejam comunistas ou fascistas, ou de outra capela, são capazes de isto e de muito mais.

O grave é que Kundera não era nem é um qualquer, tinha inteligencia e cultura; e tem inteligencia e cultura, pelo menos para escrever livros festejados pela "inteligentsia" internacional.

Mas inteligencia e cultura não é tudo, não é suficiente, também é necessário ter-se ética. Como tinha Cseslaw Milosz, como tinha Soljenitsine, como tinha Camus ou Mário Cesariny. E como têm outros ainda vivos.

Entre nós também tem havido exemplos de denunciantes "progressistas" (e agora não falo dos outros) como sucedeu no PREC e ainda hoje existe - de escritores que se atiravam a colegas e outras pessoas e que só não o fizeram ou fazem como Kundera porque, felizmente, não existe polícia política ou regime de excepção (embora haja sinais inquietantes).

Mas há muitos autores que são marginalizados, mesmo hostilizados e perseguidos nos cinzentos entrepostas da Literatura obrigada ao mote destes senhores: veja-se o que tentaram fazer a Ruy Ventura (prémio nacional da Ass. Port. Escritores) ou o que foi feito a Amadeu Baptista, um dos melhores poetas portugueses modernos, premiado várias vezes internacional e nacionalmente. E poderíamos falar de outros.

As más reses podem ter velos de ouro!

5. Ex-director financeiro “funcionário” de uma empresa de construção civil está na prateleira há 17 anos por ter falado demais...

Amigo: compreendo-o bem, quase o mesmo sucedeu comigo quando trabalhava numa camara municipal alentejana, porque denunciei num jornal local um caso de corrupção aqui havido: funcionários que, com a complacência de um superior hierárquico, falsificavam leituras de consumo de água e metiam a massa no bolso e beneficiavam amigalhaços.

Durante dois anos e meio estive "confinado" numa salita, sozinho e sem fazer nada, vá lá que aproveitava o meu tempo para escrever, desenhar, ler...

Se pensam que finjo ou minto, responsabilizem-me e veremos então se não é verdade.

Entretanto, mercê da minha acção intelectual, tornei-me um autor conhecido, mesmo premiado e com notoriedade até no estrangeiro, o que fez recuar aquela gente.

Hoje estou aposentado, mas a chaga apesar de ultrapassada ficou sempre cá, como um prego no coração, por ter sido tratado como um cão pestífero. O meu nick não é o meu nome, mas será fácil saber-se de quem se trata.

ns

(Textos in Portugal Diário)

Nicolau Saião. Nascido em 1946 em Monforte do Alentejo (Portalegre). Poeta, pintor, publicista e actor/declamador. Tem colaboração diversa em revistas e publicações como "águas furtadas", "DiVersos", "Bíblia", "Bicicleta", "Elvas-Caia", "Abril em Maio", "Saudade", "365", "Os arquivos de Renato Suttana", "Imagoluce", "Judo e Poesia", “Colédoco”... Autor de "Os objectos inquietantes", "Flauta de Pan", "Os olhares perdidos" (poesia),"Passagem de nível" (teatro), "Os labirintos do real - relance sobre a literatura policial" . É membro honorário da Confraria dos Vinhos de Felgueiras. Até se aposentar recentemente, foi o responsável pelo "Centro de Estudos José Régio"(CMP). Vive em Portalegre.

 
 

 

 

 


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