NICOLAU SAIÃO

Maduro Maio - uma evocação pessoal

"Dedico este texto à memória de Eugène Le Roy (1836-1907), que soube evocar na sua Obra inteira a gesta amarga dos despossuídos"

Caro Linaldo

   Correspondendo à sua sugestão/solicitação, entro na sala das memórias e apanho a gaveta referente a 1968. Pego no dossier de Maio. Como é relativamente pesado, como está um pouco encarquilhado e como sobressai nele um tom amarelo!

  Começo por me admirar: na primeira página, preso por um clip, está o retrato a preto e branco - pois ainda não havia fotos a cores - dum fulano esbelto, de basto cabelo castanho-claro que a máquina zero do exército colonial a seguir iria rapar, olhando para mim com uma certa expressão indefinível, entre o sonhador e o espantado. Com certa surpresa reconheço-me nesse jovem de 22 anos que apesar de ter já no pêlo 13 meses de tropa e se lhe perspectivarem mais dois anos ou mais de Guiné, ainda excursionava por uma certa esperança que os anos depois lhe roubaram. A primeira esperança: não morrer na guerra. E a segunda: não ficar encordoado, perro, doido pelas andanças de  tiros e quedas que pareciam esperá-lo.

  O pobre diabo da foto não morreu. Mas talvez tenha tido que matar.

  Em primeiro lugar a inocencia e uma certa suavidade de maneiras - que a Guiné não dava para cavalheirismos. Depois, as certezas ingénuas de pensar que um ser humano merecia respeito, nomeadamente de coronéis, generais, tenentes ou capitães. Mas nisto não irei falar, para não sentir na boca um sabor azedo de desprezo e nos olhos um fuzilar de comiseração por essa gente fardada que nos tratava como se estivéssemos numa quinta de animais de abate. Silencio... Deixemos que seja a História a compor-lhes a figura exacta e merecida. Tanto mais que, se foi na tropa que conheci alguns dos maiores canalhas de que tenho memória, foi também ali que achei a gente mais nobre e devotada, companheiros admiráveis de dignidade e estatura interior varonil e merecedora da minha recordação, de que me lembro.

   Estava pois na Guiné, na tropa, em Bissau, em Maio de 68.

   Foi por vagos periódicos (República, Diário de Lisboa) já atrasados, cedidos fraternalmente por um sargento companheirão, que soube do que se passava nas doces terras de França agitadas por um vendaval que buscava que o homem tivesse mais clareza em torno de si. Digo assim para não politizar muito estas nótulas, inteiramente dadas aqui com a nostalgia que baste. Mas sempre me cabe e quero dizer que o que de lá me chegava não me tranquilizava inteiramente: pois se tomei contacto com a figura libertária e justa e limpa dum Daniel Cohn-Bendit, também sabia que se agitavam pelas ruas que tanto amo dos Champs-Elysées e dos arredores da Sorbonne as bandeiras repugnantes e totalitárias dos maoístas e estalinistas encenando-se em amigos do Povo.

  Foi depois de ter contemplado, no Diário de Lisboa (ou seria no República?) uma fotografia onde uma bela jovem olhava a câmara de frente, com o seu rosto de morena encantadora, dando o braço a diversas companheiras e companheiros coroados por uma bandeira negra, que escrevi o meu primeiro poema "africano", que começava assim: " Ter prazer em falar/ como quem fôsse/ um simples animal, um ser da treva/Ter prazer em nascer, como quem desse/ o nascimento à própria solidão(...)". Mas esse Maio distante, para mim eivado de calor e do cheiro pungente, doce e misterioso da terra africana, naquela altura não despertou em mim mais congeminações de teor societário: estava demasiado longe, entregue às penas duma guerra que não escolhera, que não me aprazia e que quase me levou ao calabouço, adversário que era do colonialismo e do cripto-fascismo lusitano de fachada ocidentalizada.

   Passei por Maio e por Junho, pelos setembros e pelos janeiros até que num belo dia regressei à minha terra. E foi, estranhamente, nessa época que Maio mais me apanhou pela banda do pensamento especulativo, pelas abas da criação poética e da entrada no sedutor mundo do companheirismo com artistas, pintores, actores e actrizes e jornalistas e poetas que no Café Monte Carlo e no Café Monumental se juntavam pelas noites e pelas tardes lisboetas dum outro Maio, o de setenta, mas onde ecoavam ainda os rumores do outro que existira na Paris que amo como amo Lisboa, que só admiro simplesmente na humana e comovente medida em que me é ou me tem sido também fraternal, fecunda e amiga como um jardim de Portalegre ou de Guimarães.

   Foi então por essa altura que pude perceber mais intensamente o que Maio de 68 representara e era para mim, as pistas que nos deu (que ainda hoje nos dá, se o soubermos entender!) esgarçadas já pelas voltas e adequações do tempo as ingenuidades menos defensáveis. Depois - e agora muito mais - entendi melhor a razão que assistia a Raymond Aron e a outros lúcidos observadores, que alertavam as consciencias para o facto de que, se pelas ruas de Paris se soltara um evento salubre de liberdade e salutar exigencia, também corriam miasmas que buscavam atrelar o ser humano e as pessoas por extenso a novos conformismos, novos destrambelhamentos de cariz duvidoso. Percebi então que por debaixo do alcatrão não estaria apenas a praia mas, ardilosamente camuflados, bicharocos monstruosos para mais uma vez morderem o luminoso coração das gentes sedentas de verdadeira emancipação.

   Maio de 68 radicou em mim aquilo que sempre fui: libertário mas não de obediencia estreita. E, por estranho que pareça, deu-me a certeza de que a tolerancia, que defenderei até ao fim, não deve nem pode confundir-se com cedencia ou cumplicidades com chantagens morais - ainda que se pretendam apresentar como a necessidade mais premente das populações e dos países.

Receba, caro Linaldo, um firme abraço do seu

Nicolau Saião
(Atalaião de Portalegre, em Maio de 2008)

 
 

 

 

 


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