NICOLAU SAIÃO

NA CONTRAMÃO
Amêndoas amargas

Vive-se neste momento em Portugal, tal como em certas alturas do chamado PREC, de novo um clima de confusão, de inquietação e de temor. Claro, insofismável, digamos que proposto com todo o descaramento por grados asseclas do poder, esse poder putativamente arrogante e autoritário que só está tranquilo quando manda ao arrepio e quando estabelece a apreensão na cabeça do Zé Povinho.

Certas entidades já nem mesmo disfarçam os seus intuitos visando desequilibrar o regime tendencialmente democrático e criar as condições propícias a um clima discricionário, arbitrário e obscenamente musculado, ou seja: não feito, como no antigo regime, através da pancada e do envio para o calabouço dos adeptos do “establishment democrático” – a Europa talvez não estivesse pelos ajustes – mas mediante o método mais soft (ou mais cínico e pervertido?) e convenhamos de facto mais eficaz, da aquisição da velada ameaça de “uma nova maioria absoluta” discricionária, como refere por todo o lado o slogan muito glosado dos nostálgicos do autoritarismo alvar, despejado, e servir-se disso depois para o conhecido “quero, posso e mando”. Não para governar melhor, mas para mandar mais e com maior descaramento!

Em determinadas localidades já nem mesmo se tapam como sói dizer-se: certos próceres declaram com santa ingenuidade que o seu alvo é, através dos bons ofícios do putativo próximo/mesmo regime, colocar no redil da marginalização pessoas que os estorvem (a isso chamam “gente que só gosta de chatear”).  Por outras palavras mais adequadas: que não os apoiem nem os sufraguem, numa atitude claramente anti-democrática que se espelha na jaculatória propagandística primária de certos sectores que mais não são que émulos dos que havia nos bons velhos tempos do autoritarismo expressivo, com um tipo de discurso que mais parece proveniente dos cinzentos corredores do pensamento e da prática havida durante o consulado do professor Salazar.

Percebe-se perfeitamente que para certos fulanos a democracia de partidos que tenham voz além da sua é um estorvo  - e a democracia “tout court” uma espécie de azia que sairá com os sais de frutos de uma pretensa maioria absoluta despejadamente antipopular: pois já o expressam nos mídias - se o povo fala, a isso já chamam de novo populismo (?).

Em certos lugares, como na tal localidade a que me reporto, a receita é simples: marginalizam-se os dissidentes nos diversos campos onde actuem… – muitas vezes deixando que siga curso a eventual difamação e a calúnia (seria boa a atenção do Sr. Procurador-Geral da República) – cala-se-lhes a boca através da discriminação e das presuntivas ameaças. Pode preve-se que mais tarde e quando já tiverem tudo nas mãos impolutas seguir-se-ão, se necessário, outras acções mais decididas e “viris”? De acordo com o que se vai deixando constar, se tal se mostrar preciso far-se-á o que for de fazer para meter juízo nas cabeças “implumes” dessa gente que, como diz a expressão vernácula, levantam cabelo mediante a assunção da dignidade pessoal. Não é para isso que servem os sistemas jurídicos favoráveis ao arbítrio, sectores “favoráveis” de forças militarizadas e esbirros declarados acantonados em “órgãos de informação” frequentemente anónimos e onde se usa praticar a injúria soez?

Não pensem os bem-intencionados que por vivermos na “civilizada Europa” estamos defendidos destas coisas sibilinas e inquietantes: basta olhar-se para a Itália e meditar-se no que o complexo Berlusconni tem feito à pátria de Miguel Ângelo. Só no Terceiro Mundo é que estas coisas acontecem? Ora, ora…

Há sectores que jogam na consabida falta de memória das populações, no seu desejo de facturar mesmo que a produção escassa não o aconselhe, no egoísmo dos que depois de delapidarem as gordas esmolas de Bruxelas querem também delapidar os poucos cobres que se salvaram da voragem consumista posta a correr precisamente pelos grandes financistas que se incrustaram nas cadeiras desse poder particular que só tem recebido carinhos do poder institucional depois de macular gravemente a economia da nação.

Para falarmos claro: esses sectores que só esperam um decisivo passo em falso do venerando primeiro-ministro actual para, num passe de mágica, nos continuarem a saltar à garganta…simbolicamente

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Nicolau Saião – Monforte do Alentejo (Portalegre) 1946. É poeta, publicista, actor-declamador e artista plástico.

Participou em mostras de Arte Postal em países como Espanha, França, Itália, Polónia, Brasil, Canadá, Estados Unidos e Austrália, além de ter exposto individual e colectivamente em lugares como Lisboa, Paris, Porto, Badajoz, Cáceres, Estremoz, Figueira da Foz, Almada, Tiblissi, Sevilha, etc. 

Em 1992 a Associação Portuguesa de Escritores atribuiu o prémio Revelação/Poesia ao seu livro “Os objectos inquietantes”. Autor ainda de “Assembleia geral” (1990), “Passagem de nível”, teatro (1992), “Flauta de Pan” (1998), “Os olhares perdidos” (2001), “O desejo dança na poeira do tempo”, “Escrita e o seu contrário” (a sair).  

No Brasil foi editada em finais de 2006 uma antologia da sua obra poética e plástica (“Olhares perdidos”) organizada por Floriano Martins para a Ed. Escrituras. Pela mão de António Cabrita saiu em Moçambique (2008), “O armário de Midas”, estando para sair “Poemas dos quatro cantos”(antologia).     

Fez para a “Black Sun Editores” a primeira tradução mundial integral de “Os fungos de Yuggoth” de H.P.Lovecraft (2002), que anotou, prefaciou e ilustrou, o mesmo se dando com o livro do poeta brasileiro Renato Suttana “Bichos” (2005).

Organizou, coordenou e prefaciou a antologia internacional “Poetas na surrealidade em Estremoz” (2007) e co-organizou/prefaciou ”Na Liberdade – poemas sobre o 25 de Abril”.

Tem colaborado em  espaços culturais de vários países: “DiVersos” (Bruxelas/Porto), “Albatroz” (Paris), “Os arquivos de Renato Suttana”, “Agulha”, Cronópios, “Jornal de Poesia”, “António Miranda” (Brasil), Mele (Honolulu), “Bicicleta”, “Espacio/Espaço Escrito (Badajoz),  “Bíblia”, “Saudade”, “Callipolle”, “La Lupe”(Argentina) “A cidade”, “Petrínea”, “Sílex”, “Colóquio Letras”, “Velocipédica Fundação”, “Jornal de Poetas e Trovadores”, “A Xanela” (Betanzos), “Revista 365”, “Laboratório de poéticas”(Brasil)...

Prefaciou os livros “Fora de portas” de Carlos Garcia de Castro, “Mansões abandonadas” de José do Carmo Francisco (Editorial Escrituras) e “Estravagários” de Nuno Rebocho (Apenas Livros Editora).

Nos anos 90 orientou e dirigiu o suplemento literário “Miradouro”, saído no “Notícias de Elvas”. Com João Garção e Ruy Ventura coordenou “Fanal”, suplemento cultural publicado mensalmente no semanário alentejano ”O Distrito de Portalegre”, de Março de 2000 a Julho de 2003.

Organizou, com Mário Cesariny e C. Martins, a exposição “O Fantástico e o Maravilhoso” (1984) e, com João Garção, a mostra de mail art “O futebol” (1995).

Concebeu, realizou e apresentou o programa radiofónico “Mapa de Viagens”, na Rádio Portalegre (36 emissões) e está representado em antologias de poesia e pintura. O cantor espanhol Miguel Naharro incluiu-o no álbum “Canciones lusitanas”.

Até se aposentar em 2005, foi durante 14 anos o responsável pelo Centro de Estudos José Régio, na dependência do município de Portalegre.

É membro honorário da Confraria dos Vinhos de Felgueiras. Em 1992 o município da sua terra natal atribuiu-lhe o galardão de Cidadão Honorário e, em 2001, a cidade de Portalegre comemorou os seus 30 anos de actividade cívica e cultural outorgando-lhe a medalha de prata de Mérito Municipal.

 

 

 

 


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