NICOLAU SAIÃO

INCURSÃO PELO IMAGINÁRIO

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    Há um imaginário rural, assim como há um imaginário citadino.

  Esta diferenciação, que poderia parecer estranha a observadores menos precavidos, articula-se de forma própria.

  Com efeito, até há bem pouco tempo – e, em certos lugares, a situação dada é ainda manifesta – o meio rural estava bastante separado do acesso aos mass-media mais qualificados, que são os que com maior relevo difundem, controlam, sustentam e forjam um certo imaginário padronizado.

   É pacífico que o imaginário citadino é extremamente condicionado pela televisão, a rádio, os jornais e os espaços interactivos a que os meios rurais tinham e têm ainda um acesso relativamente precário ou flutuante.

     Posto isto, debrucemo-nos agora sobre o imaginário rural.

   Com uma carga muitíssimo específica e bem caracterizada, ele está profundamente ligado ao ritmo das Estações, ao perfume do solo, às reuniões de famílias, de vizinhos, de maiores ou menores fragmentos da comunidade para o qual frequentemente os ritmos citadinos existem mais como figurações alheias, como verdadeiras paisagens exteriores. Pode dizer-se, assim, que o imaginário tradicional se radica e está entranhado, na sua pureza, principalmente nas regiões campestres. E são os núcleos que se mudaram para as povoações maiores que, em geral, o levam consigo e o vão preservando como se uma vivaz nostalgia os acompanhasse. 

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     No seu livro “A arte e a literatura fantásticas”, texto canónico a muitos títulos, diz-nos acertadamente Louis Vax a dada altura: “O arrepio que as narrativas fantásticas, a literatura de imaginação científica, os quadros surrealistas provocam no leitor moderno, já o povo o conhecia graças às lendas que se transmitiam de geração em geração. As histórias de almas do outro mundo, de lobisomens, de vampiros e de maus olhados, causaram outrora a angústia e as delícias dos aldeões reunidos à volta do lume”.

     Pelo que me diz parte, posso confirmá-lo.

   Na minha infância vivi algum tempo no campo, campo esse por onde continuo a jornadear e que, sob certos aspectos substanciais, muito pouco se modificou (não devemos esquecer-nos que a região a que aludo, a da Serra de São Mamede, é um dos lugares mais isolados do País, sendo de igual modo um dos mais atraentes para quem goste da ruralidade). E recordo com grande prazer, forte emoção e bastante saudade aquelas vezes em que, depois do jantar e antes da deita (que naqueles rincões alentejanos das Covas de Belém e do Chancrão costumava suceder cedo) um grupo de vizinhos chegavam para o serão.

    Para além das conversas sobre os respectivos animais das quintas,  o sucesso do que se semeava e colhia (as novidades, como se lhes chamava) a certa altura era proverbial alguém puxar a parlenga noutra direcção: e eram contadas histórias, provindas da imaginação tradicional ou do quotidiano elaborado com certos requintes de invenção ou garantidamente reais. Estorietas de “medos” e de aventuras perturbantes, vivências transfiguradas e espantações onde não deixava de assomar o espectro da malina que punha tremores e suspensões na alma de pequenos e grandes...

   Aprendi na altura canções ligadas às Estações e aos seus eventos próprios e típicos. Se

trovejava, sabia-se bem como esconjurar o mau-jeito: “Santa Bárbara bendita/ que no céu está escrita/ com papel e água benta/ livrai-nos desta tormenta./ Levai-a lá p'ra bem longe/ levai-a lá p'rá moirama/ onde não haja pão nem vinho/ nem flor de rosmaninho/ nem se oiça cantar o galo/ nem repenicar o sino”.

   Como se verifica pelo simples enunciado, a tradição pagã, ou mesmo mágica, cruza-se com o assimilado da missionação cristã: a flor do rosmaninho e o galo são a caução arcaica do sino, do vinho e do pão.

    O próprio facto de o recitante se dirigir a Santa Bárbara – há outra versão, com ligeiras variantes, dirigida a São Jerónimo – indica uma forte implicação que tem a ver com a feição mágica. Com efeito, a santa aparece nela mais como interlocutora directa do que como intercessora.

  Esta pequena incursão à guisa de parêntesis permite-nos exemplificar, na verdade prática, o seguinte considerando: o rico imaginário rural, que sempre teve mais a ver com a poetização que com a sacralização, foi durante os séculos sempre fortemente pressionado pela presença obcecada da propaganda eclesial, com o seu cortejo de interdições, de recomendações imperativas, de histórias de proveito e moralidade geralmente mais retiradas ou vindas do preconceito do residente e da sua forma específica de encarar a mensagem de Roma, que da religião (religare) como factor de interligação entre os mundos de baixo e de cima, do espírito e da carne salutarmente postos em cena por uma harmonia cósmica. Não é, assim, de estranhar que em paralelo com a figuração fideísta muito se contasse com as capacidades das mulheres ou homens de virtude que, no plano da “possibilidade de manobra”, da “capacidade operativa” além do quotidiano simples, estavam naquele espaço ao nível do médico ou do sacerdote qualificados.

 É fácil verificar, pela análise das histórias tradicionais do Ocidente e que na contemporaneidade encontraram a sua mais ampla divulgação, que existe nelas, subjacente ou mais expressa, uma forte carga sentimental-sexual inerente ao ser humano, por vezes transparecendo sob o hábito ou o véu duma escamoteação cristã (como os templos sob as ermidas...).

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   O maravilhoso é a face feérica do fantástico. O fantástico, por seu turno, gere as dúvidas dum real subitamente colocado frente a factos que ultrapassam o entendimento linear. A sua pátria é o medo que de repente cobra existência saltando para os interstícios que vão do concebível ao possível. Como estranhar pois que o imaginário rural fervilhe de animais embruxados, seres vagueantes por pinheirais e por colinas onde, nos tempos idos, com frequência se ia colher a mandrágora, o heléboro e a camomila?

    Profundamente ligados à terra, é daí que os rurais retiram as suas melhores horas, ultrapassadas que foram pela modernidade e a contemporaneidade as dominações espúrias da opressão anciã. As quais se espelham em contarelos, recitações e cantares. O cancioneiro português popular tradicional – que nada tem a ver com o pacóvio ou pedante cançonetismo da massificação, pimba ou nem tanto – é extremamente valioso e, mesmo ao nível do que as canções ligeiras lhe foram buscar, muito rico e sugestivo. Há todo um sector que utiliza da melhor forma os temas rurais e campesinos: cantares sobre a macela, o cuco, os namoros junto à madressilva que ornava os logradouros, a ida às  fontes vicinais, as desfolhadas e as ceifas, as manhãs de neve dos dias invernosos ou as longas tardes de calor no pino do Verão – tendo em alguns casos transbordado para a canção mais culta ou mesmo superiormente elaborada (trago ao de leve Schubert à colação, com o que no seu país ao tema diz parte).

   Os próprios factos e sucessos do imaginário citadino, científico ou apenas de relação quotidiana (a ida à Lua e a existência de casos que tais, mas também a realidade de comboios, de carros, de arranha-céus, os aprestos das casas e até os electrodomésticos) são transfigurados até com ironia, ficando então a pertencer ao imaginário rural enroupados embora com outro tipo de indumentária...

   Se me observarem que esse cancioneiro rural é muito mais rico em Espanha, França, Inglaterra, Europa Central ou do Sul, etc. - concordarei de imediato. Isso deve-se a dois factores principais: a maior qualificação cultural daqueles lugares e a sua esquiva, mais eficaz que neste pequeno país, ao caciquismo vivificado pela beatice e o atraso existencial.

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   Exemplifiquemos com uma pequena recitação que claramente aponta já para uma miscigenação de imaginários (o que pode aliás ser um firme progresso e um sinal de permanência salubre) e que me foi dada a conhecer numa região norte de Espanha: “Menina de olhos risonhos/ aqui lhe deixo uma papoila/ para prender no casaquinho/Se andar de carroça não a perca/ se andar de carro segure-a bem/ que o meu amor não a falseia/ E todos os anos renasce/ como a água dos ribeiros/de manhã ou ao sol-pôr”.

    Atente-se que em certas regiões da Europa Central as moçoilas são instadas a que não tragam flores vermelhas nos vestidos, pois isso podia acarretar-lhes as miradas voluptuosas e devoradoras de vampiros e assombrações semelhantes. Também é conhecido o facto de, nas noites de lua cheia, se dever fazer boas provisões de flores do alho – que são brancas com afloramentos amarelos – para manter afastados os fantasmas.

   A literatura recolheu muitas destas tradições, glosando-as mediante contos e novelas universalmente conhecidas. A poética, por seu turno, uma vez que lida intensamente com as funduras inconscientes do ser humano, realiza em múltiplas direcções o mistério e os enigmas do mundo, tanto nas cidades como nos meios rurais. Aí, dá-se com frequência uma interpenetração dos signos, utilizando o artista símbolos comuns ao rural e ao citadino.

  Deixemos agora, por alguns momentos, o nosso espírito vaguear um pouco pelos bosques e pelas ruas. Pelos campos abertos ou pelos bairros de apartamentos e vivendas.

  Aqui, encontramos os animais das quintas ou dos terrenos livres entregues à sua existência peculiar entre as árvores e os arbustos ou nos cercados dos casais, tendo contudo sempre, de longe ou de perto, a presença imanente do bicho-homem.

    Ali, vemos gente que de dia ou de noite, a pé ou em transportes próprios ou comuns, segue o seu destino entre casas ou, até, entre parques normalizados, rodeados pelo estridor dos automóveis e das outras presenças humanas.

    O imaginário é o que resulta de tudo isso e de tudo o que advém ou provém dos ritmos que esses universos conformam, materiais ou espirituais. O rural encontra a estranheza e a aventura nas luzes da cidade, para falarmos simbolicamente, enquanto o homem citadino se descomprime e recreia excursionando pelo lugar quotidiano do outro. (Não é por acaso que nos últimos tempos os operadores, sempre atentos, têm incrementado o turismo rural bem como o turismo de aventura, ainda que este tenha especificidades e decorrências que não iremos agora abordar). Se formos um pouco mais fundo, para além do óbvio, verificaremos que havendo pontos de contacto existem igualmente, e bem marcados, pontos de ruptura que podem inclusivamente transformar-se em pontos de transgressão de determinados limites lúdicos. Constitui, a nosso ver, um índice de má-consciência da parte de certos operadores públicos não se admitir que existem efectivas diferenças sensíveis entre os mundos do campo e da cidade que os obrigam a terem um lebensraum (na acepção de Friedrich Ratzel e não dos que depois viriam) que lhes determinam enfoque singularíssimo e que deve encarar-se seriamente.

   Giovanni Papini referiu mesmo, num dos seus textos teóricos/ensaísticos, que “A cidade é uma represália à natureza selvagem”, entendendo-se como tal a tentativa de separação que subjaz ao acto de concentrar em vastos aglomerados milhares senão milhões de seres, quantas vezes absurdamente desconhecedores do que sejam os reais ritmos do dia e da noite – para alguns citadinos mera passagem de luz a sombra e de sombra a luz – com todos os seus prestígios seculares. “E foi então, enquanto descia a colina com a bicicleta rodando serenamente debaixo do céu de Agosto, que me apercebi de quanto tinha esquecido as estrelas que o enchiam desde os meus tempos de rapazinho”, para citarmos um fragmento de um livro do escritor americano Ron McLarty.

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     Não estamos, é evidente, a propor uma opção que privilegie o campo em detrimento da cidade, mas a acentuar a necessidade de se ter a noção clara de que é nos campos que, como o Anteu da mitologia, podemos colher o que de mais salubre e plásmico vive em nós, no nosso relacionamento com os tempos e a natureza das coisas vivas. E, dado que nos mantemos apenas e só no plano da escrita, vejamos como um Almanaque – que durante anos e anos foi a principal fonte de leituras do meio rural e ainda tem uma larga difusão – se refere aos meses. Em relação a Janeiro, que é o mês em que se semeia o agrião mastruço, a alface de cortar e os rabanetes de Inverno, reza assim: “Indo para Norte passam os bicos cruzados e os estorninhos. Floresce a maonia e o heléboro negro. Em Stº António os dias crescem a passo de monge. Dia de S.Mauro gelado, metade do Inverno está passado”. E em relação a Agosto, mês correspondendo na esfera astrológica ao tempo dos mistérios dos assírios e caldeus, quando no céu cintila a Vega inspiradora de magos e arquitectos, diz-nos assim: “Passam voando em direcção ao Sul a galinhola, a cegonha, o maçarico real, a poupa, o cartaxo, a narceja e a becoínha. Floresce o sol radioso. As avelãs estão boas. Quando chove em Agosto chove mel e mosto. Agosto amadurece os frutos, Setembro colhe-os”.

   Desnecessário é, creio, acentuar toda a beleza destas linhas simples e tão claras, verdadeiros poemas involuntários contendo toda a carga inerente à simbiose homem-terra da tradição, que vive em nós ainda que inconscientemente.

    A imaginação, seja no campo ou na cidade, refuta exemplarmente a rotina e o hábito que podem limitar a existência em plenitude. A poesia – que, não o percamos de vista – começou por ser um acto de incursão e de reflexão sobre o sagrado e a natureza naturante (desde o “Cântico de Gilgamesh” às “Geórgicas”, desde o códice maia do “Popul Vuh” quíchua ao “Os trabalhos e os dias” - na verdade transtorna os tempos ao acrescentar-se ao imaginário, pois mescla fórmulas de existência tanto no campo como na cidade. Os imaginários são uma resultante do espírito do lugar ou, como queria Marc de Boislevy, “O nosso ser interior depende não só da herança física dos nossos ancestros mas também do ar das moradias que eles habitaram, dos rios que transpuseram e dos caminhos por onde viajaram quer o quisessem ou não”.

  É a poesia das coisas que nos rodeiam, somada à que se põe em letra de forma, dispersa nos quotidianos, que constitui a ponte entre os dois mundos, fazendo a juntura tão cara, por exemplo, aos filósofos per ignem.

   A este propósito, convirá dizer – e ressaltar com a justa vivacidade – que muito do que nos é apresentado e proposto como poesia popular e poesia popular rural não é mais que produto delido e incaracterístico provocado por décadas de aculturação, de submissão induzida ardilosamente a estuários poluídos que nada têm a ver com a forte, poderosa, cintilante poesia das gentes não manipuladas. É frequente ver-se, em poetas pretensamente populares – muito acatitados por certos autarcas maganões e de olho-vivo... - inflexões espúrias provindas e incentivadas ou pelos moralismos de recurso (fideístas e outros de igual coturno) que nada nos dizem sobre a agilidade, a graça, o perfume da grande tradição cravada nas pautas campesinas e aldeãs. Nelas, frequentemente, se vê espalhada não a religação mas a beatice, não o lirismo mas o casca-grossismo pindérico de arrivistas de mau tom. Digamos, que não diremos mal, que é uma versejação visitada pelo piscar-de-olho reducionista de citadinos que episodicamente trocaram a calça de ganga pela de surrobeca dos caminhos secundários – até que de novo, enjoados da experiência, reentram na autoestrada.

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   Os provérbios populares, com tantas ligações ao solo campestre, também nos dizem muito sobre o como dos imaginários, sendo de notar que certos ditados com clara origem camponesa passaram posteriormente, com alguma velocidade, para o outro imaginário: “Ao homem farto até as cerejas amargam”, “Semeia-me na lama mas faz-me boa cama – diz o trigo”. E a viagem também pode ser inversa: “Em sua casa governa o carvoeiro como galo em seu poleiro”, “Redes no mar, moinhos de vento, benesses de padres, pomares de pessegueiros, bens de rendeiros – chegam a segundos mas não chegam a terceiros”.

  Repare-se que a denominada “sabedoria das nações” é simultaneamente constatação e proposta, pelo que o seu percurso tem a ver tanto com as conclusões a que os séculos chegaram como com aquelas a que alguns pretendiam fazê-los chegar imperativamente...

  Temos pois que há um fundo comum aos dois imaginários que, a dada altura, se separa. No espaço intestercial entre um e outro é que actua (quando não nasce mesmo) o  imaginal, assim encarado por Gilbert Durand. Este é, portanto, uma sequência mais profunda, aritmética para além dos limites, completamente estruturante e vivificadora. As vivências são diferentes bem como diferentes são os enfoques, logo os resultantes que deles partem. E se é verdade que em boa medida vivemos numa aldeia global, no fundo ainda persistem no Homem os ruídos nocturnos dos grandes espaços sob a Lua silenciosa. A assumpção da cidade não pode nem deve ser a recusa da Natureza sob o pretexto de que é nas cidades que reside a mais alta civilização. A proceder-se assim haverá cortes bruscos no imaginário, separado de si-mesmo por via dum recalcamento societário que tenta recusar a multiplicação dos signos legítimos a que só os grandes ritmos da Terra têm acesso. É desta autêntica supressão imaginal que provêm as disfunções, como sejam por exemplo os selvagens ritos de passagem que consistem ora no massacre sobre golfinhos, havida ciclicamente nas Ilhas Faroe da civilizada Dinamarca, ora de jericos da orla desértica efectuada por povos islâmicos barbarizados.

   Embora na hora actual as gentes do campo sejam, como maioritariamente as das cidades, atingidas pela protérvia primarizante dos mídias, a proximidade da terra e do ritmo bem marcado das Estações permitem-lhes raciocinar o mundo duma forma mais plástica, mais povoada de elementos reconhecíveis como estrelas e sóis.

   O que se lamenta, portanto, é que a cidade – tão gratificante a vários títulos - encarada como concentração abstrusa de seres e não como um agregado de humanizados, de pessoas unidas para um fim comum de maior capacidade intelectiva, criativa e imaginativa, integre e propague tão mal um imaginário crivado de sedimentos, fracturas, frustrações e, nos casos limites, criminosas infelicidades. Há um imaginário citadino de forte poder criativo (mas atente-se no que se passa em certas áreas de Madrid, de Paris, Sevilha ou Bruxelas, para citarmos apenas estas que conhecemos e que muito estimamos; não falando noutras como S. Paulo, Calcutá ou Teerão - nestas duas últimas, para tal concorrem coordenadas provindas do fanatismo extremo e de reclusão existencial e governativa).

  Claro que em tudo isto têm parte fundamental os desvigamentos sociais oriundos da modernidade mal articulada por uma economia egoísta e cínica ou pelo império das religiões (mal) reveladas

   Como exemplo mínimo, na área do desporto-espectáculo (haverá algum elemento mais citadino do que o futebol?) cada vez mais se acumulam - depois de despertados por um ambiente de inércia propositada do eticamente desqualificado sistema judicial - os tiques violentos expressos, que têm a ver com um ambiente cuidadosamente construído por operadores de tendência ideológica intrinsecamente totalitária, os quais repescam dados dum passado sinistro (como os grupos de ginástica e desporto do regime pré-nazista) para os aplicarem de maneira actual e contundente (as célebres pandilhas de hooligans ou das claques clubistas adeptas da brutalidade codificada).

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    Grosso modo, mas de forma adequada, poderíamos definir os imaginários como activos e reactivos. O imaginário rural é mais activo que reactivo, pois tem a ver principalmente com a maior proximidade da natureza da qual tudo parte basicamente. O imaginário citadino será reactivo na medida em que é, em grande parte, produzido pela opinião pública e as relações intrincadamente sociais.

   É isto que produz frequentemente a ideia, aliás errónea, de que as gentes do campo seriam incultas, uma vez que o imaginário corrente ou dominante, nos locais expressos das instituições, é genericamente de origem citadina. (Estamos a lembrar-nos de uma comédia australiana, muito famosa há uns anos, protagonizada por um bushman branco que, transplantado por uns tempos para a cidade, choca a sua sabedoria “primeva” mas eficaz com  a sofisticada parolice dos metropolitanos).

  O imaginário rural depende de outros factores, o que não o torna mais nem menos valioso que o outro, a nível comparativo, sendo a inversa igualmente verdadeira. É curioso e muito instrutivo, salientemo-lo, verificar que os pintores impressionistas, vincadamente citadinos e com os quais nasce a modernidade nas artes plásticas e, mesmo, a tradição da pintura como tal, como Jean-Dominique Rey assinalaria, conseguiram mesclar cidade e campo ao procurarem uma mais adequada solução para o problema posto pela evolução da pintura: lembremo-nos de Renoir com as suas telas fixando os bailes citadinos populares e, paralelamente, aquelas em que nos dava trechos de caminhos boscosos subindo entre ervas altas ou as florestas e parques vicinais nos limites de Paris. Ou de Van Gogh e os seus cafés e ruas de Arles ou Sain-Rémy, as herdades jucundas de Crau, as ceifas em Auvers-sur-Oise. Ou de Cézanne com a sua montanha de Sainte Victoire a par do casario de Aix-en-Provence.

  Um dado importante e significativo, que aqui deixamos ao leitor: as histórias fantásticas são em geral situadas no campo ou nos solares da periferia. Por seu turno, são raras as histórias policiais ou de terror ambientadas no campo. Evidentemente que há algumas excepções, que canonicamente confirmam a regra. Contudo, podemos afirmar sem exagero que os monstros sociais (serial-killers, endemoninhados e criminosos) pertencem ao imaginário e ao universo das cidades, ao passo que os monstros fantásticos pertencem ao campo ou têm nele a sua origem (Drácula, Frankenstein, Werewolf, os Vrucalacks).

  Serve dizer: o mundo rural excursiona primeiro pelo feérico e só depois pelo fantástico e o inquietante; o citadino pelo inquietante, o fantástico e finalmente pelo feérico (Walt Disney, citadino perfeito com os seus encantadores animais antropormofizados, até tem um enorme e significativo parque temático na cidade mais cidade conceptual que há – Paris).

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    Para finalizar convirá assinalar, ou recordar, que ultimamente se tem perfilado na grei uma certa movimentação de “regresso à natureza”. Evidentemente que é a nostalgia que fala e não procurarei agora saber se tal é bom ou mau ou se corresponde a sentimentos verdadeiros ou a simples moda. A tendência, corroborada por propostas de especialistas, é para os agregados humanos se tornarem mais fluidos, mais soltos e agilizados. Há muitos pensadores e publicistas, desde os tempos de Georges Simmel até ao mais chegado George Pérec, que contemplaram o facto de que se caminha para uma recuperação da existência campestre, através da análise exaustiva da vida na cidade.

   O que arrasta a construção de outras inflexões na estruturação do imaginário.

   No fundo, dentro dos de maior qualidade, ou exigência se se quiser, agita-se uma clara possibilidade de interpenetração dos dois imaginários, o que corresponde a uma interpenetração das duas vivências, cada um possibilitando novas possibilidades, fornecendo novas virtualidades que devem encarar-se com perspicácia. Dizia Fernando Batalha, nos tempos em que apoiou o célebre humorista Coluche que até efectivou uma sensacional candidatura à presidência da República francesa, que “vivo no campo como se vivesse na cidade e vivo na cidade como se estivesse no campo”.

  Em todo o caso, ambos podem fornecer uma certa herança que seria estulto desperdiçar. Na forma de articular esses dados é que o caso fia mais fino, mas há ainda um vasto campo de afirmação que, esperamo-lo e desejamo-lo firmemente, não tornará invisível o que de melhor e mais salubre os dois imaginários possuem.

    Diferentes, com pontos de contacto que não anulam essa mesma sensível diferença, é preciso que se deixem vivificar pelo livre sinal da mão daqueles em quem a imaginação  é uma chama que continua a tremular, ainda que com altos e baixos, no escuro da noite - no meio duma floresta ou entre casas que poderão até ser de renda económica... 

Setembro de 2009 

ns

Nicolau Saião – Monforte do Alentejo (Portalegre) 1946. É poeta, publicista, actor-declamador e artista plástico.

Participou em mostras de Arte Postal em países como Espanha, França, Itália, Polónia, Brasil, Canadá, Estados Unidos e Austrália, além de ter exposto individual e colectivamente em lugares como Lisboa, Paris, Porto, Badajoz, Cáceres, Estremoz, Figueira da Foz, Almada, Tiblissi, Sevilha, etc. 

Em 1992 a Associação Portuguesa de Escritores atribuiu o prémio Revelação/Poesia ao seu livro “Os objectos inquietantes”. Autor ainda de “Assembleia geral” (1990), “Passagem de nível”, teatro (1992), “Flauta de Pan” (1998), “Os olhares perdidos” (2001), “O desejo dança na poeira do tempo”, “Escrita e o seu contrário” (a sair).  

No Brasil foi editada em finais de 2006 uma antologia da sua obra poética e plástica (“Olhares perdidos”) organizada por Floriano Martins para a Ed. Escrituras. Pela mão de António Cabrita saiu em Moçambique (2008), “O armário de Midas”, estando para sair “Poemas dos quatro cantos”(antologia).     

Fez para a “Black Sun Editores” a primeira tradução mundial integral de “Os fungos de Yuggoth” de H.P.Lovecraft (2002), que anotou, prefaciou e ilustrou, o mesmo se dando com o livro do poeta brasileiro Renato Suttana “Bichos” (2005).

Organizou, coordenou e prefaciou a antologia internacional “Poetas na surrealidade em Estremoz” (2007) e co-organizou/prefaciou ”Na Liberdade – poemas sobre o 25 de Abril”.

Tem colaborado em  espaços culturais de vários países: “DiVersos” (Bruxelas/Porto), “Albatroz” (Paris), “Os arquivos de Renato Suttana”, “Agulha”, Cronópios, “Jornal de Poesia”, “António Miranda” (Brasil), Mele (Honolulu), “Bicicleta”, “Espacio/Espaço Escrito (Badajoz),  “Bíblia”, “Saudade”, “Callipolle”, “La Lupe”(Argentina) “A cidade”, “Petrínea”, “Sílex”, “Colóquio Letras”, “Velocipédica Fundação”, “Jornal de Poetas e Trovadores”, “A Xanela” (Betanzos), “Revista 365”, “Laboratório de poéticas”(Brasil)...

Prefaciou os livros “Fora de portas” de Carlos Garcia de Castro, “Mansões abandonadas” de José do Carmo Francisco (Editorial Escrituras) e “Estravagários” de Nuno Rebocho (Apenas Livros Editora).

Nos anos 90 orientou e dirigiu o suplemento literário “Miradouro”, saído no “Notícias de Elvas”. Com João Garção e Ruy Ventura coordenou “Fanal”, suplemento cultural publicado mensalmente no semanário alentejano ”O Distrito de Portalegre”, de Março de 2000 a Julho de 2003.

Organizou, com Mário Cesariny e C. Martins, a exposição “O Fantástico e o Maravilhoso” (1984) e, com João Garção, a mostra de mail art “O futebol” (1995).

Concebeu, realizou e apresentou o programa radiofónico “Mapa de Viagens”, na Rádio Portalegre (36 emissões) e está representado em antologias de poesia e pintura. O cantor espanhol Miguel Naharro incluiu-o no álbum “Canciones lusitanas”.

Até se aposentar em 2005, foi durante 14 anos o responsável pelo Centro de Estudos José Régio, na dependência do município de Portalegre.

É membro honorário da Confraria dos Vinhos de Felgueiras. Em 1992 o município da sua terra natal atribuiu-lhe o galardão de Cidadão Honorário e, em 2001, a cidade de Portalegre comemorou os seus 30 anos de actividade cívica e cultural outorgando-lhe a medalha de prata de Mérito Municipal.

 

 

 

 


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