NICOLAU SAIÃO
Carta do Dr. Jagodes

 Prezadíssima Artista e Minha Senhora

Não estranhe este tratamento assim meio aristocrático e à antiga que, talvez, lhe pareça muito formal - nomeadamente por vir de um conhecido e, porque não dizê-lo, notório quiçá respeitado republicano como é o meu caso e de todos os dias incluindo o Dia de Reis e não digo isto para reinar co'a malta .

Tal deve-se a eu acalentar, já porque sou seu devotado leitor já pelas charlas que mantenho com certa regularidade com um meu confrade alentejano cujo nome não vem a capítulo, uma consideração mesclada com apreço singular pelos seus escritos já de literatura, já de ciencias, já mesmo de exegese lenhadora!

E não digo isto assim por alto, pois nisso posso, se me consentir, referir ou mesmo, a alguns menos letrados, revelar por extenso que também eu SOU LENHADOR.

Sei que será surpresa para certas gentes sem acesso aos órgãos mundiais de informação, mas para os que os frequentam não será novidade o que aqui aclaro: fui eu, seguido por uma vasta dezena de repórteres (Newark Times, Le Motin, El Clarimundo, etc) que deitou abaixo pela primeira vez uma sequóia gigante sita em Yellstone Park!

Não se tratou de acto gravoso, anti-ecológico e mesmo bárbaro, mas precisamente do contrário: essa árvore - como certos regimes, nomeadamente o que se evolou há cem anos na figura do conhecido Caçador Simão - estava rançosamente velha, apodrecida, sem nada que a recomendasse para fazer parte daquele lugar famoso. E foi então - como Vexa. talvez recorde, por ter visto nos mídias como agora se diz, que fui escolhido para essa tarefa pelo Director do Parque, uma vez que visitava nesses dias a América a efectuar uma séria de palestras sobre As Raízes da Lusitanidade...! E indo o dito Director assistir a uma delas, sugestionado pela palavra raizes, e relanceando o meu metro e oitenta e três distribuído por 94 quilos de músculo, num ímpeto convidou-me, confessando-se muito honrado, a proceder ao abate quase ritual, e de objectiva limpeza, da imensa mole lenhosa que para mim foi canja.

"Ah republicano duma cana" - disse o indivíduo em inglês macarrónico (ao estilo bem ianque), pois não sei porque equívoco pensara que um tipo assim firme e desempoeirado como eu não estaria com o Partido Democrático e sim com aquele de que ele era correlegionário.

E eu retorqui, como os tais mídias reproduziram vigorosa e unanimemente, o que me granjeou ainda mais simpatias populares: "Republicano mas português, ó amigo! O meu republicanismo é outro!". E uma salva de palmas secundou a minha tirada.

Mas o que eu vinha referir à minha Excelente Amiga (deixe que a trate assim, uma vez que pela frequentação da sua Página Literária tenho estimulado o apreço existente pela sua directora) não era nada disto, que apenas vem a talho de foice pois consabidamente e geralmente até nem sou de muitas falas e circunlóquios. O que eu queria estranhar é aquela sua frase, ainda que bem construída sintaticamente, inserta no fulgurante texto dedicado ao alentejano a que me reportei lá atrás, o meu compadre e companheiro de alguma estúrdia juvenil NSaião e tendo como objecto de análise a pinturação a que ele se tem dedicado - aliás, revelo e confesso, com alguma galhofa da minha parte, mas vamos adiante. E disse Vexa. que "Estas figuras, distintas dos pseudónimos e dos heterónimos, tendem a tornar-se autossuficientes, e nessa medida podem ludibriar os leitores, que as acreditam reais. Não parece que tal extremo aconteça com o doutor Jagodes.

Fico afiambrado...perplexo! Então a minha Cara Amiga, mesmo relanceando os meus muito materiais 94 quilos e o meu significativo 1,83 m, dá-me aquela tacada?

Não veja, no entanto, acidez no meu protesto. E, se em breve nos encontrarmos em qualquer simpático entreposto onde possamos interlocutar - junto a, já se vê, uns acepipes de recorte acentuadamente saboroso - verificará in loco e in persona (perdoe o estrangeirismo romanizado-latinório) que o célebre Jagodes é uma figura já não direi de grende recorte (sabe que a modéstia é um dos meus fortes) mas de figura profundamente marcada e material!

Saúdo-a com estima e envio-lhe com sua permissão um abraço bem republicano nesta data histórica, e subscrevo-me com protestos de estima,

JOSÉ ANTÓNIO DE LENCASTRE JAGODES, Esquire

 

Nicolau Saião – Monforte do Alentejo (Portalegre) 1946. É poeta, publicista, actor-declamador e artista plástico.  

Participou em mostras de Arte Postal em países como Espanha, França, Itália, Polónia, Brasil, Canadá, Estados Unidos e Austrália, além de ter exposto individual e colectivamente em lugares como Lisboa, Paris, Porto, Badajoz, Cáceres, Estremoz, Figueira da Foz, Almada, Tiblissi, Sevilha, etc.   

Em 1992 a Associação Portuguesa de Escritores atribuiu o prémio Revelação/Poesia ao seu livro “Os objectos inquietantes”. Autor ainda de “Assembleia geral” (1990), “Passagem de nível”, teatro (1992), “Flauta de Pan” (1998), “Os olhares perdidos” (2001), “O desejo dança na poeira do tempo”, “Escrita e o seu contrário” (a sair).    

No Brasil foi editada em finais de 2006 uma antologia da sua obra poética e plástica (“Olhares perdidos”) organizada por Floriano Martins para a Ed. Escrituras. Pela mão de António Cabrita saiu em Moçambique (2008), “O armário de Midas”, estando para sair “Poemas dos quatro cantos”(antologia).       

Fez para a “Black Sun Editores” a primeira tradução mundial integral de “Os fungos de Yuggoth” de H.P.Lovecraft (2002), que anotou, prefaciou e ilustrou, o mesmo se dando com o livro do poeta brasileiro Renato Suttana “Bichos” (2005).  

Organizou, coordenou e prefaciou a antologia internacional “Poetas na surrealidade em Estremoz” (2007) e co-organizou/prefaciou ”Na Liberdade – poemas sobre o 25 de Abril”. 

Tem colaborado em  espaços culturais de vários países: “DiVersos” (Bruxelas/Porto), “Albatroz” (Paris), “Os arquivos de Renato Suttana”, “Agulha”, Cronópios, “Jornal de Poesia”, “António Miranda” (Brasil), Mele (Honolulu), “Bicicleta”, “Espacio/Espaço Escrito (Badajoz), “Bíblia”, “Saudade”, “Callipolle”, “La Lupe”(Argentina) “A cidade”, “Petrínea”, “Sílex”, “Colóquio Letras”, “Velocipédica Fundação”, “Jornal de Poetas e Trovadores”, “A Xanela” (Betanzos), “Revista 365”, “Laboratório de poéticas” (Brasil), “Revista Decires” (Argentina), “Botella del Náufrago”(Chile)...  

Prefaciou os livros “O pirata Zig-Zag” de Manuel de Almeida e Sousa, “Fora de portas” de Carlos Garcia de Castro, “Mansões abandonadas” de José do Carmo Francisco (Editorial Escrituras), “Estravagários” de Nuno Rebocho e “Chão de Papel” de Maria Estela Guedes (Apenas Livros Editora). 

Nos anos 90 orientou e dirigiu o suplemento literário “Miradouro”, saído no “Notícias de Elvas”. Co-coordenou “Fanal”, suplemento cultural publicado mensalmente no semanário alentejano ”O Distrito de Portalegre”, de Março de 2000 a Julho de 2003. 

Organizou, com Mário Cesariny e C. Martins, a exposição “O Fantástico e o Maravilhoso” (1984) e, com João Garção, a mostra de mail art “O futebol” (1995).  

Concebeu, realizou e apresentou o programa radiofónico “Mapa de Viagens”, na Rádio Portalegre (36 emissões) e está representado em antologias de poesia e pintura. O cantor espanhol Miguel Naharro incluiu-o no álbum “Canciones lusitanas”.  

Até se aposentar em 2005, foi durante 14 anos o responsável pelo Centro de Estudos José Régio, na dependência do município de Portalegre.  

É membro honorário da Confraria dos Vinhos de Felgueiras. Em 1992 o município da sua terra natal atribuiu-lhe o galardão de Cidadão Honorário e, em 2001, a cidade de Portalegre comemorou os seus 30 anos de actividade cívica e cultural outorgando-lhe a medalha de prata de Mérito Municipal.

 

 

 

 


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