NICOLAU SAIÃO

São fumos, senhores

Como todo o cristão decerto sabe, o fumo branco tem um significado de alegria, de fecundidade e de boa-nova. É, no imaginário quotidiano, o fumo que se propaga sobre os telhados do lar, adejando por sobre as chaminés que são, também elas, símbolos de convivência, de fruição e de partilha uma vez que denotam a presença humana com a sua carga de materialidade mas, também,  de espiritualidade.

Não é por mero acaso que, por exemplo, a eleição de um novo Sumo Pontífice seja anunciada pelo fumo branco resultante da queima, na lareira papal, dos papéis sem jaça mediante os quais, em votação lídima, se concordou pela elevação de alguém à cadeira de São Pedro. Para além de assinalar aos fiéis um facto congratulatório, esse fumo branco atesta o tom jubilatório que dele emana.

Mas não é só entre os cristãos que o fumo branco – por oposição ao fumo negro – tem um valor simbólico marcado: entre os dayaks da Nova Guiné, sempre que na tribo nascia uma criança em circunstâncias especiais, eram erguidas três pequenas piras das quais brotava um fumo branco aromático, conseguido a partir de plantas apropriadas; por seu turno, entre os sioux do Nebraska havia dois membros da tribo (denominados anciãos lakota) que tinham por missão, entre outras menos sacrais, disseminar fumos brancos após os sucessos duma caçada colectiva ao bisonte – que era, em geral, a base da nutrição dos Plains.

O fumo negro, como se intui, tem um significado bem diferente – de queda, de decadência, de triste ou de inquietante negação porque brota de substâncias adulteradas. É aquele que costuma caracterizar situações menos legítimas. E então é costume aludir-se a ele dizendo, por exemplo: “Há por ali fumos de bandalheira”.

Nos últimos tempos, atingindo a opinião pública, tem sido dada notícia de fumos negros de ilegalidades em entidades as mais diversas. Como disse – e bem – Durão Barroso (sou consabidamente seu oponente, pelo que creio ser insuspeito para o poder afirmar de viva voz) antes assim que ficar tudo abafado, como costuma ser estranhamente habitual. O acto de vir a lume um facto penoso é um sinal positivo e só os coniventes com o opróbio e os secretos partidários da pouca-vergonha ou da roubalheira é que podem defender as práticas de ocultação. O que está mal é o facto em si e não este ser assinalado.

Foi, no entanto, ligeiramente inquietante verificar que um dos dirigentes da nossa praça – não recordo se um executivo de topo ou um senhor comandante de uma corporação – referiu que esperava ver, e cito de memória, os casos investigados e, talvez, julgados como é de norma. Talvez?

Faço minha, no entanto, a evidente preocupação daquela alta entidade. Tem inteira razão na sua expressão, modesta, de acreditar em algo que é perfeitamente de esperar em qualquer sociedade civilizada.

Todavia, efectivamente, no nosso país isso não é assim tão pacífico.

Com efeito, em Portugal o sistema judicial - pese embora à natural boa-vontade legal e ao pundonor legítimo de tantos e tantos próceres da Justiça -  está hoje por hoje quase completamente desqualificado, sendo olhado com natural desconfiança pelos cidadãos comuns e, mesmo, pelos quadros societários. É todos os dias dito e não por mim, que reina a inimputabilidade de órgãos de análise prática, o que vai contra a Constituição, que preceitua a independencia e não a irresponsabilidade e muito menos a prepotencia cavilosa.

Não há muito tempo, participei no estrangeiro numa sessão acontecida no âmbito de um Encontro referente à Literatura Policiária. Ao analisar as suas relações com a vida quotidiana, que aliás fundamenta qualquer tipo de literatura, chegou-se à conclusão de ser o nosso País, infelizmente, uma sociedade criminal. Ou seja, onde um sistema judicial degradado e capturado por cliques irregulares é o cancro que está a destruir as simples regras de convivência e, em última análise, a democracia tendencial (ou democracia limitada, de forte tendência policiesca ou intimidatória) que é o tipo de regime que vigora em Portugal pese aos “disfarces” estatais que tentam tomar-nos por primários.

Mediante a ineficácia ou a devastação em que se consente que o referido sistema viva, tem-se criado na sociedade uma torpe sensação de inquietude, de precariedade, de desleixo cívico e autêntica moralidade crápula que - embora da maneira subreptícia que só os estultos não percebem – se estimulam e justificam através de uma desculpabilização arteira, “habilidosa” ou prepotente, exercida com o intuito de constituir contra-propaganda frente aos anseios de legítima justiça que vive em qualquer cidadão mínimamente sério e sensato.

Os sinais de que isso é já insuportável são muitos - e começam a ter um cariz de alta gravidade. Esses sinais com efeito revelam da parte dessa gente um verdadeiro desprezo pelos direitos de cidadania e, em última análise, uma sobranceria injustificável e anti-patriótica para com a Nação. Tem, por isso, de ser firmemente combatida pelas pessoas de bem. 

Os portugueses estão a ficar definitivamente fartos em relação a situações de laxismo provenientes de homicídio, roubo, manipulação oficial, delito ecológico, etc. ou a outras de ordem diversa como furto, agressão, calúnia e difamação, peculato, tráfico de influências, associação criminosa, abuso policial. Começam mesmo a formar-se movimentos de opinião para obstar a tal estado de coisas e, portanto, é urgente agir de modo a que tal não descambe em algo mais preocupante ainda. Lembremo-nos de que foi devido à inércia havida contra um sistema judicial criminal, laxista ou tendencioso que em Itália quase se chegou à devastação societária. E que muito por isso o Leste colapsou, tendo muitos dos seus próceres sido abatidos.

É legítimo esperar que o sistema judicial, alegadamente colonizado pelo Poder, o que é ilegal se reconfigure - e bem depressa -  mesmo  que  tal  passe  pela  responsabilização  pura  e  dura  (com  todas  as garantias de defesa, naturalmente) de protagonistas ao mais alto nível que não cumpram ou, ardilosamente, enovelem ou entravem situações contra o interesse da Nação.

Caso haja necessidade, os cidadãos e as entidades individuais ou colectivas podem e devem recorrer às instâncias internacionais, pois isso já é, hoje em dia, um legítimo recurso.

Ou - o que está consignado na Constituição dimanada dos direitos humanos - o “direito de insurreição” quando seja caso que os órgãos de governo se desautorizaram nefandamente.

Havendo tal necessidade, por inépcia ou corrupção ética das entidades nacionais, teremos uma vez mais legitimamente posta em causa a “honra e a soberania nacionais” que muitos dizem querer ver defendidas mas que, afinal, deixam que fiquem inteiramente cobertas de negros fumos.

Nicolau Saião – Monforte do Alentejo (Portalegre) 1946. É poeta, publicista, actor-declamador e artista plástico.  

Participou em mostras de Arte Postal em países como Espanha, França, Itália, Polónia, Brasil, Canadá, Estados Unidos e Austrália, além de ter exposto individual e colectivamente em lugares como Lisboa, Paris, Porto, Badajoz, Cáceres, Estremoz, Figueira da Foz, Almada, Tiblissi, Sevilha, etc.   

Em 1992 a Associação Portuguesa de Escritores atribuiu o prémio Revelação/Poesia ao seu livro “Os objectos inquietantes”. Autor ainda de “Assembleia geral” (1990), “Passagem de nível”, teatro (1992), “Flauta de Pan” (1998), “Os olhares perdidos” (2001), “O desejo dança na poeira do tempo”, “Escrita e o seu contrário” (a sair).    

No Brasil foi editada em finais de 2006 uma antologia da sua obra poética e plástica (“Olhares perdidos”) organizada por Floriano Martins para a Ed. Escrituras. Pela mão de António Cabrita saiu em Moçambique (2008), “O armário de Midas”, estando para sair “Poemas dos quatro cantos”(antologia).       

Fez para a “Black Sun Editores” a primeira tradução mundial integral de “Os fungos de Yuggoth” de H.P.Lovecraft (2002), que anotou, prefaciou e ilustrou, o mesmo se dando com o livro do poeta brasileiro Renato Suttana “Bichos” (2005).  

Organizou, coordenou e prefaciou a antologia internacional “Poetas na surrealidade em Estremoz” (2007) e co-organizou/prefaciou ”Na Liberdade – poemas sobre o 25 de Abril”. 

Tem colaborado em  espaços culturais de vários países: “DiVersos” (Bruxelas/Porto), “Albatroz” (Paris), “Os arquivos de Renato Suttana”, “Agulha”, Cronópios, “Jornal de Poesia”, “António Miranda” (Brasil), Mele (Honolulu), “Bicicleta”, “Espacio/Espaço Escrito (Badajoz), “Bíblia”, “Saudade”, “Callipolle”, “La Lupe”(Argentina) “A cidade”, “Petrínea”, “Sílex”, “Colóquio Letras”, “Velocipédica Fundação”, “Jornal de Poetas e Trovadores”, “A Xanela” (Betanzos), “Revista 365”, “Laboratório de poéticas” (Brasil), “Revista Decires” (Argentina), “Botella del Náufrago”(Chile)...  

Prefaciou os livros “O pirata Zig-Zag” de Manuel de Almeida e Sousa, “Fora de portas” de Carlos Garcia de Castro, “Mansões abandonadas” de José do Carmo Francisco (Editorial Escrituras), “Estravagários” de Nuno Rebocho e “Chão de Papel” de Maria Estela Guedes (Apenas Livros Editora). 

Nos anos 90 orientou e dirigiu o suplemento literário “Miradouro”, saído no “Notícias de Elvas”. Co-coordenou “Fanal”, suplemento cultural publicado mensalmente no semanário alentejano ”O Distrito de Portalegre”, de Março de 2000 a Julho de 2003. 

Organizou, com Mário Cesariny e C. Martins, a exposição “O Fantástico e o Maravilhoso” (1984) e, com João Garção, a mostra de mail art “O futebol” (1995).  

Concebeu, realizou e apresentou o programa radiofónico “Mapa de Viagens”, na Rádio Portalegre (36 emissões) e está representado em antologias de poesia e pintura. O cantor espanhol Miguel Naharro incluiu-o no álbum “Canciones lusitanas”.  

Até se aposentar em 2005, foi durante 14 anos o responsável pelo Centro de Estudos José Régio, na dependência do município de Portalegre.  

É membro honorário da Confraria dos Vinhos de Felgueiras. Em 1992 o município da sua terra natal atribuiu-lhe o galardão de Cidadão Honorário e, em 2001, a cidade de Portalegre comemorou os seus 30 anos de actividade cívica e cultural outorgando-lhe a medalha de prata de Mérito Municipal.

 

 

 

 


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