NICOLAU SAIÃO

Amato Lusitano




Têm estado a comemorar-se em Castelo Branco desde o princípio deste ano, através de sessões de diversas índole, os 500 anos do nascimento do grande médico, escritor e cultor da sagrada espagíria que ficou na história da cultura universal com o pseudónimo de Amato Lusitano.

As celebrações finalizarão em Setembro com a edição de uma Antologia alargada de poesia tendo como tema João Rodrigues de Castelo Branco - nome civil deste cientista de origem judaica que, por razões que a memória histórica certificou, se viu compelido ao exílio e à deambulação por diversos países, vindo a falecer em Salónica com 57 anos de idade vitimado pela peste que ajudara a combater.

No dia 7 do corrente mês foi inaugurada na Cidade beirã uma Mostra internacional de fotografia complementada com outras obras referentes a Amato, organizada por Pedro Salvado. Foi também, numa edição do município albicastrense, lançado o catálogo-livro  “O corpo do coração”, contendo fotos de Carlos Matos, Diamantino Gonçalves, Eduardo Margareto, José Joaquim Pio, José Tomás, Paulo Vinhas, Pedro Martins e de alunos da Escola Faria de Vasconcelos; e poemas de Alfredo Pérez Alencart, Américo Rodrigues, António Salvado, Hendrick van Noort, Maria Estela Guedes, Margalit Matitiahu, Maria do Sameiro Barroso, Nicolau Saião e Stefania di Leo. 

O que aqui se deixa foi o texto com que colaborei nele.

AMATUS

Também ele conhecia como tu o sangue

o perímetro das veias, a primitiva viagem

nessa terra de desertos e de rios ao alvorecer

Também ele fugia não apenas dos caminhos que se perdiam

entre bosques de pinheirais e macieiras, nesses lugares

de pequenos animais ao crepúsculo, de casas

perto das grandes pedras de granito ou de xisto multiplicado

mas igualmente das válvulas incrustadas no corpo da noite

de rostos desirmanados nas grandes praças onde era irreal permanecer

onde o mar não achava horizonte de homens ou de fantasmas

 

Também ele

erguia contra o céu,  o sol,  a silhueta das árvores

um vidro facetado, a página de um livro, o perfil recortado de um fruto

e por um momento sentia correr a linfa pelos sítios ignotos junto ao esqueleto

e por um instante  sabia que a Terra ficara parada

e que tudo o que pensara era agora matéria de júbilo ou de pavor

 

Posso imaginar os teus passos na sombria rota através de um bosque em Itália

nos outros recantos que te acolhiam

o rosto grave, um olhar contemplando a neve que caía

e um silencio como se nada existisse na manhã

 como num país perdido donde os teus vestígios se afastavam.

Posso ver-te sobre a mula ou num carro tirado a éguas, ofertado

por um paciente a quem devolveras a alegria

imagino-te talvez partilhando um repasto

numa sala abobadada de um companheiro de exílio

os aprazíveis frutos do tempo desses minutos sequiosos

Tal como ele, juntavas a serenidade ao porvir

ainda que por vezes a amargura fosse o teu seguro quinhão.

 

Anos e séculos se desbravaram, anos e séculos se dissolveram

e a música que cobre tudo

e a chuva que tudo envolve

e as mãos que se iniciam no que a sabedoria traz de imutável

e a fresca esperança do tempo e o que é uno, puro e não acaba

 

Quinhentos anos passam tão depressa.

“OMNIA IN UNUM”                                                                                                            ns

Nicolau Saião – Monforte do Alentejo (Portalegre) 1946. É poeta, publicista, actor-declamador e artista plástico.  

Participou em mostras de Arte Postal em países como Espanha, França, Itália, Polónia, Brasil, Canadá, Estados Unidos e Austrália, além de ter exposto individual e colectivamente em lugares como Lisboa, Paris, Porto, Badajoz, Cáceres, Estremoz, Figueira da Foz, Almada, Tiblissi, Sevilha, etc.   

Em 1992 a Associação Portuguesa de Escritores atribuiu o prémio Revelação/Poesia ao seu livro “Os objectos inquietantes”. Autor ainda de “Assembleia geral” (1990), “Passagem de nível”, teatro (1992), “Flauta de Pan” (1998), “Os olhares perdidos” (2001), “O desejo dança na poeira do tempo”, “Escrita e o seu contrário” (a sair).    

No Brasil foi editada em finais de 2006 uma antologia da sua obra poética e plástica (“Olhares perdidos”) organizada por Floriano Martins para a Ed. Escrituras. Pela mão de António Cabrita saiu em Moçambique (2008), “O armário de Midas”, estando para sair “Poemas dos quatro cantos”(antologia).       

Fez para a “Black Sun Editores” a primeira tradução mundial integral de “Os fungos de Yuggoth” de H.P.Lovecraft (2002), que anotou, prefaciou e ilustrou, o mesmo se dando com o livro do poeta brasileiro Renato Suttana “Bichos” (2005).  

Organizou, coordenou e prefaciou a antologia internacional “Poetas na surrealidade em Estremoz” (2007) e co-organizou/prefaciou ”Na Liberdade – poemas sobre o 25 de Abril”. 

Tem colaborado em  espaços culturais de vários países: “DiVersos” (Bruxelas/Porto), “Albatroz” (Paris), “Os arquivos de Renato Suttana”, “Agulha”, Cronópios, “Jornal de Poesia”, “António Miranda” (Brasil), Mele (Honolulu), “Bicicleta”, “Espacio/Espaço Escrito (Badajoz), “Bíblia”, “Saudade”, “Callipolle”, “La Lupe”(Argentina) “A cidade”, “Petrínea”, “Sílex”, “Colóquio Letras”, “Velocipédica Fundação”, “Jornal de Poetas e Trovadores”, “A Xanela” (Betanzos), “Revista 365”, “Laboratório de poéticas” (Brasil), “Revista Decires” (Argentina), “Botella del Náufrago”(Chile)...  

Prefaciou os livros “O pirata Zig-Zag” de Manuel de Almeida e Sousa, “Fora de portas” de Carlos Garcia de Castro, “Mansões abandonadas” de José do Carmo Francisco (Editorial Escrituras), “Estravagários” de Nuno Rebocho e “Chão de Papel” de Maria Estela Guedes (Apenas Livros Editora). 

Nos anos 90 orientou e dirigiu o suplemento literário “Miradouro”, saído no “Notícias de Elvas”. Co-coordenou “Fanal”, suplemento cultural publicado mensalmente no semanário alentejano ”O Distrito de Portalegre”, de Março de 2000 a Julho de 2003. 

Organizou, com Mário Cesariny e C. Martins, a exposição “O Fantástico e o Maravilhoso” (1984) e, com João Garção, a mostra de mail art “O futebol” (1995).  

Concebeu, realizou e apresentou o programa radiofónico “Mapa de Viagens”, na Rádio Portalegre (36 emissões) e está representado em antologias de poesia e pintura. O cantor espanhol Miguel Naharro incluiu-o no álbum “Canciones lusitanas”.  

Até se aposentar em 2005, foi durante 14 anos o responsável pelo Centro de Estudos José Régio, na dependência do município de Portalegre.  

É membro honorário da Confraria dos Vinhos de Felgueiras. Em 1992 o município da sua terra natal atribuiu-lhe o galardão de Cidadão Honorário e, em 2001, a cidade de Portalegre comemorou os seus 30 anos de actividade cívica e cultural outorgando-lhe a medalha de prata de Mérito Municipal.

 

 

 

 


hospedagem
Cyberdesigner:
Magno Urbano