NICOLAU SAIÃO
O Calcanhar de Aquiles (1)

…E ANDANDO (como diz a expressão vernácula)

   Todas as pessoas têm as suas armas de defesa – instintivas ou artilhadas mais ou menos adequadamente. Assim como aqueles animais que, carentes de genica ou de ferocidade, encenam truques de camuflagem, digamos, como sejam mudanças de cor, ruídos ou berros mais ou menos intempestivos, etc.

  Tudo para afastarem, ou manterem ao largo, os vigorosos sinais de perigo ou os actos expressos que os podem deixar em palpos de aranha.

  Também tenho tido, pela vida fora, os meus truques à semelhança desses referidos…

   Na esperança, muitas vezes perfurada, de manter adversários potenciais ou inimigos provados à distância conveniente. Uns têm pegado, outros nem tanto.

  Mas, como diria Mateus Pippebarem, “o que se há-de fazer, rai’s vos estrafeguem?”.

  E tinha razão o talentoso musicólogo e pensador.

  Como hoje, o que me vem já de há coisa duma semana, me sinto muito farto desta jiga-joga (refiro-me ao ambiente social, ao habitat que nos rodeia transversalmente, digamos assim com crueldade), bastante amarrotado em matéria de vivacidade varonil, baixo um pouco a guarda e vou ser sincero por uns minutos. E deus praza que nenhum proto-sacana, nesse ínterim, aproveite para me lixar ainda mais qu’ó que já estou. (Assim como assim, é uma vez sem exemplo e como se calhar ninguém vai reparar…alma até Almeida).

  Pois um dos meus truques é encenar que sou muito corajoso.

  Como fui dotado duma constituição robusta e duma expressão façanhuda, o que deu para ter andado no pugilismo com relativamente bons resultados (fui, como alguns de excepcional memória estarão lembrados, vice-campeão militar de meios-médios ligeiros, nos bons velhos tempos em que também havia bola, atletismo, equitação e esgrima), a coisa tem pegado…Muitos criaram-me um certo…medo – quando, se me têm batido o pé com temeridade, eu teria metido o rabo entre as pernas e batido em retirada!

  E o mesmo se diga no plano da escrita: tenho espingardeado certos verbos-de-encher, do Soares a operadores públicos do mesmo jaez, do antigo premier a certos poetinhas e escrevicadores da capital e da província, de protagonistas do pervertido sistema judicial a padralhada e afins…

  Tem ido tudo a eito!

   Mas mal os visados sabem que durante dias me torço todo por dentro.

   Chego a ter suores frios. E noites mal dormidas!

   Ou seja: temo e não é pouco que – apesar de eu não ter importância nenhuma, ser portanto fraco pitéu para os seus deles dentes acerados – haja o perigo dalgum dos ditos manguelas num dia de cólera eventual me tomar de ponta e, à guisa de dar o exemplo, me meter em trabalhos.

   Até que um tempinho passe, todo eu sou tremeliques.

   Este é um dos meus aspectos secretos.

   O outro é este: simular – mas nisto não serei original, dezenas para não dizer centenas de confrades publicistas, para além naturalmente dos manos da classe política, sofrerão da mesma circunstância – que me interesso muito pela coisa pública, pelo bem comum como usa dizer-se.

  Quando a verdade é que me estou urinando para o meu semelhante, para o vulgar cidadão que anda por cá a receber as benesses dos que nos têm, vão e continuarão a governar.

  (Eu sei que estou a desiludir um pouco a meia-dúzia que tinha por mim algum, digamos, apreço ou mesmo até admiração, mas hoje o dia – e um dia não são dias, pôça – é de total franqueza e frontalidade, ainda que isso fira para sempre a minha efígie).

  Aquilatem por estes exemplos: como consta que eu não gosto de hipócritas e de pachelgas, de falsos-irmãos demagogos e de pirretes, seria de esperar que eu tivesse ficado triste com a vitória do politicamente correcto Hollande, que soube ter a habilidade de fingir que vai pôr a França no caminho certo e ser uma lufada de ar fresco ante o já desbotado e cheio de tiques Sarkozy.

  Pois sim…

  E a verdade é que fiquei sadicamente contentíssimo!

  O parceiro e os seus parceiros vão, a meu ver, dar cabo da nação dos comedores de rãs (como os ingleses, tradicionais inimigos ontem como hoje, dizem com certeiro humor) num aninho ou coisa. Vai uma apostinha?

   Basta ver-se o gosto com que uma das câmaras de TV se deteve, por um largo instante, sobre um negro e duas moçoilas com o toutiço tapado e sorrindo com esmero, no meio de tanta gente. Não foi por acaso, acho eu.

  É uma indicação clara de que os amigalhaços de turbante e a futura larga onda de bem-vindos imigrantes terá da nova gerência fraternal acolhimento.

   O que mais tarde ou mais cedo dará nos boulevards grossa bernarda. Até já lambo os beiços…

   Também fiquei contente pela alegria do nosso estimado A.J.Seguro, pela outra do extenso grupo de como se costuma dizer adeptos de Sócrates e pela do excelso pai Soares, que mal deram os resultados foi de pronto filmado a colocar o punho no ar soltando ao mesmo tempo esta frase inspirada e reveladora: “E agora, à Bastilha!”.

  (Têm de concordar: para alguém com os pés para a cova - lagarto, lagarto – é ter-se muita coragem e espírito de combate, carago!).

  Já gostei menos do que houve na Grécia: fiquei triste porque ali os pasokas e outros papandreus ficaram de rabo ao léu. Mais uns meses e eles vingariam, escaqueirando definitivamente a Arcádia, os bárbaros que se fartaram de levar na tromba em Salamina, Termópilas, etc…Mas mesmo assim talvez não leve muito tempo.

   E, com a maldade que hoje me deixarão ter, uma pergunta sádica mas terna aqui deixo a pairar: será isto o princípio do fim em rota de encontro para o 2012 dos sacerdotes Maias?

  Olhem que eu não disse nada! Não me queiram mal!

  Fica com estima (tá bem, deixa…) o vosso et nunc et semper

ns

 

Nicolau Saião – Monforte do Alentejo (Portalegre) 1946. É poeta, publicista, actor-declamador e artista plástico.  

Participou em mostras de Arte Postal em países como Espanha, França, Itália, Polónia, Brasil, Canadá, Estados Unidos e Austrália, além de ter exposto individual e colectivamente em lugares como Lisboa, Paris, Porto, Badajoz, Cáceres, Estremoz, Figueira da Foz, Almada, Tiblissi, Sevilha, etc.   

Em 1992 a Associação Portuguesa de Escritores atribuiu o prémio Revelação/Poesia ao seu livro “Os objectos inquietantes”. Autor ainda de “Assembleia geral” (1990), “Passagem de nível”, teatro (1992), “Flauta de Pan” (1998), “Os olhares perdidos” (2001), “O desejo dança na poeira do tempo”, “Escrita e o seu contrário” (a sair).    

No Brasil foi editada em finais de 2006 uma antologia da sua obra poética e plástica (“Olhares perdidos”) organizada por Floriano Martins para a Ed. Escrituras. Pela mão de António Cabrita saiu em Moçambique (2008), “O armário de Midas”, estando para sair “Poemas dos quatro cantos”(antologia).       

Fez para a “Black Sun Editores” a primeira tradução mundial integral de “Os fungos de Yuggoth” de H.P.Lovecraft (2002), que anotou, prefaciou e ilustrou, o mesmo se dando com o livro do poeta brasileiro Renato Suttana “Bichos” (2005).  

Organizou, coordenou e prefaciou a antologia internacional “Poetas na surrealidade em Estremoz” (2007) e co-organizou/prefaciou ”Na Liberdade – poemas sobre o 25 de Abril”. 

Tem colaborado em  espaços culturais de vários países: “DiVersos” (Bruxelas/Porto), “Albatroz” (Paris), “Os arquivos de Renato Suttana”, “Agulha”, Cronópios, “Jornal de Poesia”, “António Miranda” (Brasil), Mele (Honolulu), “Bicicleta”, “Espacio/Espaço Escrito (Badajoz), “Bíblia”, “Saudade”, “Callipolle”, “La Lupe”(Argentina) “A cidade”, “Petrínea”, “Sílex”, “Colóquio Letras”, “Velocipédica Fundação”, “Jornal de Poetas e Trovadores”, “A Xanela” (Betanzos), “Revista 365”, “Laboratório de poéticas” (Brasil), “Revista Decires” (Argentina), “Botella del Náufrago”(Chile)...  

Prefaciou os livros “O pirata Zig-Zag” de Manuel de Almeida e Sousa, “Fora de portas” de Carlos Garcia de Castro, “Mansões abandonadas” de José do Carmo Francisco (Editorial Escrituras), “Estravagários” de Nuno Rebocho e “Chão de Papel” de Maria Estela Guedes (Apenas Livros Editora). 

Nos anos 90 orientou e dirigiu o suplemento literário “Miradouro”, saído no “Notícias de Elvas”. Co-coordenou “Fanal”, suplemento cultural publicado mensalmente no semanário alentejano ”O Distrito de Portalegre”, de Março de 2000 a Julho de 2003. 

Organizou, com Mário Cesariny e C. Martins, a exposição “O Fantástico e o Maravilhoso” (1984) e, com João Garção, a mostra de mail art “O futebol” (1995).  

Concebeu, realizou e apresentou o programa radiofónico “Mapa de Viagens”, na Rádio Portalegre (36 emissões) e está representado em antologias de poesia e pintura. O cantor espanhol Miguel Naharro incluiu-o no álbum “Canciones lusitanas”.  

Até se aposentar em 2005, foi durante 14 anos o responsável pelo Centro de Estudos José Régio, na dependência do município de Portalegre.  

É membro honorário da Confraria dos Vinhos de Felgueiras. Em 1992 o município da sua terra natal atribuiu-lhe o galardão de Cidadão Honorário e, em 2001, a cidade de Portalegre comemorou os seus 30 anos de actividade cívica e cultural outorgando-lhe a medalha de prata de Mérito Municipal.

 

 

 

 


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