Nova Série

 
 

 

 

 

 

 

NICOLAU SAIÃO
António Luís Moita: Quatro poemas alquímicos seguidos de um OUTRO doado à memória

   Os poemas que a seguir se dão a lume pertencem ao livro “Cidade sem Tempo”, editado pelo A. e distribuído pela ULMEIRO.

   Executado em 1985 nas oficinas gráficas de Ramos, Afonso & Moita, Lda. dele foram tirados 800 exemplares, dos quais 100 numerados e assinados por ALM.

  Capa a partir de uma pintura de Alves Martins, arranjo gráfico de Fernando das Neves.

   O livro está dividido em três capítulos - Do Amor; Da Morte; Das pequenas coisas - constituindo 133 páginas de texto.

   ALM ofereceu-me um exemplar no dia 24 de Março de 1990, antes do jantar com que honrávamos os convidados do programa semanal “Mapa de viagens” por mim realizado e emitido pela Rádio Portalegre das 22 às 24 horas de sábado.

   Na ocasião li, entre outros da autoria de Cristóvam Pavia, 2 poemas dos que aqui se apresentam: “Reencontro: 13/10/68” e “Adepto”.

   Os poemas alquímicos, além das suas leituras e meditações próprias, reflectem o contacto do A. com Abel Teixeira, “irmão do orvalho” e seu amigo.
                                    
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 Nota – O quadro a encerrar este bloco é da autoria de João Garção

ADEPTO 

Nunca morro da morte verdadeira

de que morrem os homens mais comuns .

Perseguido, renasço, intemporal,

sem ter morada certa nem fronteira.

 

De Júpiter sou filho – e do mistério.

Alberto ou Paracelso – quem me fez

sabe que nenhum túmulo me guarda

e que do amor perpétuo me acrescento.

 

Contudo, o Tempo dói-me. E, se não caibo

na pedra, a fonte humana me dá luz

(bebi demais no pó sanguinolento,

residual, da obra inteira, a vida).

 

Cumprido o ouro, louvo simplesmente,

com ele, o Pai.  Olvido-me de mim.

Nome não tenho. Nem sossêgo. Ardo.

Feiticeiro não sou, mas aprendiz.

 

ARIANA

                                       Ao Abel Teixeira                       

 

Do pouco ou nada feito não revelo

qual o passo que dei ou que vou dar.

Do enxofre e mercúrio digo apenas

que se mordem, que mútuos se contêm,

que todo o sal é lágrima de Maio.

 

Poderei dizer mais: que o fogo é lento

e húmida é a via. A seca, não.

(Nunca o rápido amor me dá contento.

Nem há cultura fácil, fácil vento.

Qualquer trigo veloz sabe a traição).

 

Digo ainda, da via, que são sete

 as águas deste denso e longo mar.

Ao terceiro degrau já se promete

o peixe que prateia, a crepitar.

São porém as sereias. Não cardume.

O verdadeiro peixe – que é de lume –

a seu tempo virá, mas devagar.

 

Primeiro, há-de toldar-se em nevoeiro

o velo, vinte vezes (só morrendo

vinte vezes terríveis se renasce).

Entretanto, uma aberta: o arco-íris.

Depois, de novo, a noite, a fermentar-se.

 

Haverá, de manhã, menos indício

na espuma da maré, no barco estreito,

do que nos olhos puros de quem vê,

ou antes, adivinha.

 

- Tu,  que me segues, crê:

No ovo luz a vinha! 

 

FULCANELLI 

Ao microscópio, gotas de cristal.

Á vista desarmada, pó vermelho.

Uma pitada leve, como o sal,

um fervilhar – e eis prata o que era estanho.

 

Só que da mão depende o bem que tenho,

o gesto firme, próprio, sem o qual

teria tudo apenas o tamanho

que tem, antes da luz, a catedral.

 

Assoprador? Adepto? Não sei bem…

Sei que todo me dou, que nada espero,

que por amor somente transmutei

na semente mais viva o vil minério.

 

Prata quis. Prata fiz. Ouro farei

mordendo as águas turvas do mistério.  

 

MANSÃO FILOSOFAL 

Erguem-se os dedos. Crispam-se no todo.

Mas algo falta para o todo ser.

Algo que mora num dedal de fogo,

nessa palavra que não sei dizer

 

mas salta certa, célere, no sopro

irreprimível que de Urano vem

dar de repente vida nova ao corpo,

ceder razão ao que razão não tem.

 

É o dédalo negro, o labirinto,

a chave justa para libertar

no firmamento a névoa do que sinto.

 

Mas é também oráculo. O olhar.

O ver, sem fim, distinto, o indistinto

no desfazer da pedra tumular.

 

Reencontro: 13/10/68

                                                 À memória de CRISTÓVAM PAVIA

                                                 e de seu Pai

                                                 FRANCISCO BUGALHO

                                                 - meus amigos. 

 

Quando o comboio surgiu

na curva do caminho

teu pai estava perto. E disse:

 

Não queria, meu filho, que viesses

tão cedo.

Tenho, porém, aparelhada e pronta

(oh, desde sempre!) a égua.

E, sem coleira, o velho cão te aguarda,

fiel e meigo como um sol de Outono.

 

Meu colo tens também à tua espera

e a força do meu braço, do tamanho

da noite e do silêncio da tapada.

 

A força do meu braço quis descê-la

a tempo, sobre ti, descê-la quando

imaginaste um rosto na paisagem

- rosto que, distraído, se desfez

num prado alheio ao teu.

 

Quis, sobre ti, descer esse meu braço

de força já não minha forte ainda.

Mas era tarde para projectar-te

em ruas mais propícias.

 

Quis dá-lo a tua mãe (como tu, só)

mas já não foi possível.

 

Quis entregá-lo a dois ou três amigos,

mas tinham compromissos

pessoais.

 

Mesmo assim não queria que viesses

tão cedo.

Muita coisa podia acontecer

(muita coisa acontece)

como um súbito barco, uma palavra

- glicínia, madrugada, madressilva –

para teu recomeço

e minha espera

maior.

 

Aguardo-te, porém.

E, comigo, o teu cão, a égua alada,

a inocente infância dessa fonte

fresquíssima, da quinta, onde bebemos

a água

única.

 

Regressa, inteiro, à terra iluminada,

nu de mitos, de pétalas, de pranto

e das outras humanas falsidades

(como dizias)

do mundo.

 

Entrega-te e regressa.

Transparente.

 

No fundo, desde o fundo, pelo fundo

esmaga-te em meu peito!

 

ALM

 

Nicolau Saião – Monforte do Alentejo (Portalegre) 1946. É poeta, publicista, actor-declamador e artista plástico.  

Participou em mostras de Arte Postal em países como Espanha, França, Itália, Polónia, Brasil, Canadá, Estados Unidos e Austrália, além de ter exposto individual e colectivamente em lugares como Lisboa, Paris, Porto, Badajoz, Cáceres, Estremoz, Figueira da Foz, Almada, Tiblissi, Sevilha, etc.   

Em 1992 a Associação Portuguesa de Escritores atribuiu o prémio Revelação/Poesia ao seu livro “Os objectos inquietantes”. Autor ainda de “Assembleia geral” (1990), “Passagem de nível”, teatro (1992), “Flauta de Pan” (1998), “Os olhares perdidos” (2001), “O desejo dança na poeira do tempo”, “Escrita e o seu contrário” (a sair).    

No Brasil foi editada em finais de 2006 uma antologia da sua obra poética e plástica (“Olhares perdidos”) organizada por Floriano Martins para a Ed. Escrituras. Pela mão de António Cabrita saiu em Moçambique (2008), “O armário de Midas”, estando para sair “Poemas dos quatro cantos”(antologia).       

Fez para a “Black Sun Editores” a primeira tradução mundial integral de “Os fungos de Yuggoth” de H.P.Lovecraft (2002), que anotou, prefaciou e ilustrou, o mesmo se dando com o livro do poeta brasileiro Renato Suttana “Bichos” (2005).  

Organizou, coordenou e prefaciou a antologia internacional “Poetas na surrealidade em Estremoz” (2007) e co-organizou/prefaciou ”Na Liberdade – poemas sobre o 25 de Abril”. 

Tem colaborado em  espaços culturais de vários países: “DiVersos” (Bruxelas/Porto), “Albatroz” (Paris), “Os arquivos de Renato Suttana”, “Agulha”, Cronópios, “Jornal de Poesia”, “António Miranda” (Brasil), Mele (Honolulu), “Bicicleta”, “Espacio/Espaço Escrito (Badajoz), “Bíblia”, “Saudade”, “Callipolle”, “La Lupe”(Argentina) “A cidade”, “Petrínea”, “Sílex”, “Colóquio Letras”, “Velocipédica Fundação”, “Jornal de Poetas e Trovadores”, “A Xanela” (Betanzos), “Revista 365”, “Laboratório de poéticas”(Brasil), “Revista Decires” (Argentina), “Botella del Náufrago”(Chile)...  

Prefaciou os livros “O pirata Zig-Zag” de Manuel de Almeida e Sousa, “Fora de portas” de Carlos Garcia de Castro, “Mansões abandonadas” de José do Carmo Francisco (Editorial Escrituras), “Estravagários” de Nuno Rebocho e “Chão de Papel” de Maria Estela Guedes (Apenas Livros Editora). 

Nos anos 90 orientou e dirigiu o suplemento literário “Miradouro”, saído no “Notícias de Elvas”. Co-coordenou “Fanal”, suplemento cultural publicado mensalmente no semanário alentejano ”O Distrito de Portalegre”, de Março de 2000 a Julho de 2003. 

Organizou, com Mário Cesariny e C. Martins, a exposição “O Fantástico e o Maravilhoso” (1984) e, com João Garção, a mostra de mail art “O futebol” (1995).  

Concebeu, realizou e apresentou o programa radiofónico “Mapa de Viagens”, na Rádio Portalegre (36 emissões) e está representado em antologias de poesia e pintura. O cantor espanhol Miguel Naharro incluiu-o no álbum “Canciones lusitanas”.  

Até se aposentar em 2005, foi durante 14 anos o responsável pelo Centro de Estudos José Régio, na dependência do município de Portalegre.  

É membro honorário da Confraria dos Vinhos de Felgueiras. Em 1992 o município da sua terra natal atribuiu-lhe o galardão de Cidadão Honorário e, em 2001, a cidade de Portalegre comemorou os seus 30 anos de actividade cívica e cultural outorgando-lhe a medalha de prata de Mérito Municipal.

Blog : Ablogando, em: http://ab-logando.blogspot.pt/

 
 
 

 

 

 




 



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