Nova Série

 
 

 

 

 

 

 

NICOLAU SAIÃO
Testamento

                                            (ao meu filho Pedro, cientista)

 

Julian P.Snyders, biólogo

do Instituto Federal da velha terra dos

Iroqueses - os olhos

inteiramente iguais a qualquer de nós – observa

pelo microscópio e vê: o cendrado da cor química

como as folhas de uma tília às quatro da

manhã, no pequeno espelho suporte do

aparelho desaparece – pouco a pouco. O instrumento

é assim uma presença

viva. O ruído

como de aluvião em perpétuo movimento: a mosca

sobre a mesa. Julian P.Snyders, marca

de carne na sala mobilada, ou

António, Ezequiel, Isaías

Joaquim, Moisés, Absalão

nomes muitos, como aves na noite e

na encosta norte do seu próprio corpo

para utensílios raros.

Julian nota qualquer coisa incerta.

Rosada na tarde

branca de madrugada

como máquina folicular ou elemento

primordial, sobe enfim a seus olhos o minúsculo

foco sensível. Vega ou Hiperyon, a madeira e o

tempo destruído. Em 22 de Fevereiro de 1952, um

jardim cobria-se de novos silêncios e a

neve era de novo a cicatriz aberta

na cidade. Uma

lembrança de pastores, o

braseiro junto a muros derrocados, branco

fora e dentro do mundo. Íntima devastação.

 

Antes dizer: que esse

inteiramente só o achariam, surdos

trabalhos de alma, como objectos quebrados.

 

Julian P.Snyders, olhando

retendo, erguendo, buscando

a quem o deve atribuir, enquanto

cataclismo e criação? Nada

como parede onde um prego susteve

imagem e momento.

 

Aqui estive, então

morto e humilhado, acto

como sombra e destino, imagem em nós

projectada. Julian, etc., incomum

a mim como eu a ele – a natureza e sinal –

dissolve-se no tempo como um ardido

bosque em

 

alto caminho impossível.

 

 

(Nota – Julian P. Snyders, cientista que trabalhou intensamente na descoberta do “sistema integrado cerebral”, desapareceu no mar, por naufrágio do seu pequeno barco, pouco depois de ter enviado uma carta ao director geral do seu Estado natal referindo que estava à beira de criar um novo medicamento que resolveria graves problemas neurológicos da sua especialidade).

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Nicolau Saião – Monforte do Alentejo (Portalegre) 1946. É poeta, publicista, actor-declamador e artista plástico.  

Participou em mostras de Arte Postal em países como Espanha, França, Itália, Polónia, Brasil, Canadá, Estados Unidos e Austrália, além de ter exposto individual e colectivamente em lugares como Lisboa, Paris, Porto, Badajoz, Cáceres, Estremoz, Figueira da Foz, Almada, Tiblissi, Sevilha, etc.   

Em 1992 a Associação Portuguesa de Escritores atribuiu o prémio Revelação/Poesia ao seu livro “Os objectos inquietantes”. Autor ainda de “Assembleia geral” (1990), “Passagem de nível”, teatro (1992), “Flauta de Pan” (1998), “Os olhares perdidos” (2001), “O desejo dança na poeira do tempo”, “Escrita e o seu contrário” (a sair).    

No Brasil foi editada em finais de 2006 uma antologia da sua obra poética e plástica (“Olhares perdidos”) organizada por Floriano Martins para a Ed. Escrituras. Pela mão de António Cabrita saiu em Moçambique (2008), “O armário de Midas”, estando para sair “Poemas dos quatro cantos”(antologia).       

Fez para a “Black Sun Editores” a primeira tradução mundial integral de “Os fungos de Yuggoth” de H.P.Lovecraft (2002), que anotou, prefaciou e ilustrou, o mesmo se dando com o livro do poeta brasileiro Renato Suttana “Bichos” (2005).  

Organizou, coordenou e prefaciou a antologia internacional “Poetas na surrealidade em Estremoz” (2007) e co-organizou/prefaciou ”Na Liberdade – poemas sobre o 25 de Abril”. 

Tem colaborado em  espaços culturais de vários países: “DiVersos” (Bruxelas/Porto), “Albatroz” (Paris), “Os arquivos de Renato Suttana”, “Agulha”, Cronópios, “Jornal de Poesia”, “António Miranda” (Brasil), Mele (Honolulu), “Bicicleta”, “Espacio/Espaço Escrito (Badajoz), “Bíblia”, “Saudade”, “Callipolle”, “La Lupe”(Argentina) “A cidade”, “Petrínea”, “Sílex”, “Colóquio Letras”, “Velocipédica Fundação”, “Jornal de Poetas e Trovadores”, “A Xanela” (Betanzos), “Revista 365”, “Laboratório de poéticas”(Brasil), “Revista Decires” (Argentina), “Botella del Náufrago”(Chile)...  

Prefaciou os livros “O pirata Zig-Zag” de Manuel de Almeida e Sousa, “Fora de portas” de Carlos Garcia de Castro, “Mansões abandonadas” de José do Carmo Francisco (Editorial Escrituras), “Estravagários” de Nuno Rebocho e “Chão de Papel” de Maria Estela Guedes (Apenas Livros Editora). 

Nos anos 90 orientou e dirigiu o suplemento literário “Miradouro”, saído no “Notícias de Elvas”. Co-coordenou “Fanal”, suplemento cultural publicado mensalmente no semanário alentejano ”O Distrito de Portalegre”, de Março de 2000 a Julho de 2003. 

Organizou, com Mário Cesariny e C. Martins, a exposição “O Fantástico e o Maravilhoso” (1984) e, com João Garção, a mostra de mail art “O futebol” (1995).  

Concebeu, realizou e apresentou o programa radiofónico “Mapa de Viagens”, na Rádio Portalegre (36 emissões) e está representado em antologias de poesia e pintura. O cantor espanhol Miguel Naharro incluiu-o no álbum “Canciones lusitanas”.  

Até se aposentar em 2005, foi durante 14 anos o responsável pelo Centro de Estudos José Régio, na dependência do município de Portalegre.  

É membro honorário da Confraria dos Vinhos de Felgueiras. Em 1992 o município da sua terra natal atribuiu-lhe o galardão de Cidadão Honorário e, em 2001, a cidade de Portalegre comemorou os seus 30 anos de actividade cívica e cultural outorgando-lhe a medalha de prata de Mérito Municipal.

Blog : Ablogando, em: http://ab-logando.blogspot.pt/

 
 
 

 

 

 




 



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