Nova Série

 
 

 

 

 

 

NICOLAU SAIÃO
Natal é em Dezembro...

 Pelo menos o do tempo proverbial, canónico, que pelos séculos vem sucedendo e é celebrado pelos crentes e fruído, em festa e por vezes em nostalgia vinda da infância e de uma assumida inocência, por não crentes tolerantes e cordiais. 

  No Natal dão-se e recebem-se presentinhos que certificam fraternal entrosamento relacional. 

  Pois eu, há dias, tive algo à guisa de oferenda entregue pelo acaso, um belo presentinho por extenso: acharam-me um dvd que eu havia perdido com um ror de material (prosas diversas, poemaria, bonecada…) desse que uma vez extraviado nos deixa em petição de tristeza desesperada. 

 Do conjunto extraí dois itens, curiosamente ligados a este mês, que aqui vos deixo à guisa da minha oferta da Quadra. 

  Boas Festas!

1. 

Um poema de Manuel Hermínio Monteiro 

 

ANTÓNIO MARIA LISBOA 

Senhora mãe é uma escadaria de costas para o poente

as mãos no peito, “as mamas na varanda”.

No passe-vite, nos brinquedos do menino

na fome do menino

Senhora mãe vai esmigalhando deus e o diabo

pela tarde fora

pelo silêncio adentro.

 

Um pardal poisa em frente ao sol do poema

vem do Norte

vem de trás do tempo

na Senhora mãe o pardal goteja

a loucura inominada

do nome das casas

um pardal de erva submete a primavera

em Novembro, Senhora mãe,

um pardal sem choro semeia o vendaval

                 parte vidros

                 sorri atrás da porta

                 chupa-te os dedos Senhora mãe

aniquila no teu vestido vermelho

o teu palácio apocalíptico

o teu silêncio de mina

as serpentinas de arame

nos teus olhos de escadaria

batendo maternalmente no poema

que um poema

é maior que um filho penteado. 

 

Enviado a NS em Dezembro de 80, foi por este dado a lume posteriormente na Página Literária do semanário alentejano “A Rabeca”, que orientava.

2. 

   Portalegre, 19 Dezembro de 1987 

    Prezada Drª  Maria de Fátima Marinho 

   Tive o ensejo de ler, ainda que não com a atenção que merece, uma vez que não adquiri o livro inibido pelos três contos que o volume custa (não sou pessoa muito abonada) o seu ensaio dedicado ao surrealismo português. 

   Não leve a mal algumas críticas que lhe vou dirigir. São feitas de boa-fé – e isto não é preparação sibilina que visa desconcentrar o alvo a quem vai espingardear-se. 

    A pecha maior do livro parece-me ser uma visão universitariante da aventura surreal. Creio que me faço entender. Depois, parece-me que o livro está demasiado preso a uma concepção que persiste em encarar o surrealismo ora como escola (essa já é velha), ora como uma estética bretoniana (esta é mais moderna, mas falha também). 

    Depois, não leva em conta que o surrealismo acontece em todo o lado, não apenas em Lisboa e arredores. E continua acontecendo, e tem acontecido. 

    Creio que, honestamente tentando ser objectiva, serena e imparcial, concisa e proba, se deixou também enlear na frieza, no esquematismo e numa certa visão “oficial” que já tenho notado ser muito comum aos investigadores universitários – pelo menos lusitanos. Repare que isto não põe em causa a sua seriedade, como é óbvio. 

     Por isso há lacunas no livro, o livro vê tudo muito por fora. 

    Acontece que, como sabe, por cá continua-se sem se poder, como lá fora, (de boca amarrada, também) comunicar o que de facto se tem passado. Algo tem vindo a lume. Mas como tudo faz parte da Liberdade, importa que tudo seja claro, solar. Daí, naturalmente, eu enviar-lhe o que vai anexo. Evidentemente que existem dezenas de cartas e outra papelada, mas isso nunca eu o poderei editar (sou, como disse, pouco abonado) e, se vai existindo uma história oficial do surrealismo de cá, para quê (não sou eu que o penso) mexer mais na ribeira? Sairia um peixe fluorescente? Pelo menos um carapauzinho luminoso não duvido. 

    O principal problema dos surrealistas portugueses (e isto leva uma carga irónica de cinquenta metros) é serem pobres e não usarem gravata (embora alguns tenham usado fraque). 

    Sim, o cardo é enorme, já o Lisboa o disse. E a rosa? 

    Saudações cordiais do

 

                                                                                NICOLAU SAIÃO 

 

Nota – Um detalhe perturbador: não teria possibilidade de me arranjar um exemplar do livro? Como lhe disse, sou pessoa pouco abonada e tal far-me-ia muito jeito. E merci, desde já.

                                                                                      N.Saião (manuscrito)

 (Enviada a Carlos Martins, acompanhada de alguns elementos em espécie, para que a entregasse à distinta ensaísta uma vez que eu não tinha o seu contacto. 

  Em meados de Janeiro 88 pude dispor de um exemplar do livro, oferecido por Mário Cesariny).

Nicolau Saião – Monforte do Alentejo (Portalegre) 1946. É poeta, publicista, actor-declamador e artista plástico.  

Participou em mostras de Arte Postal em países como Espanha, França, Itália, Polónia, Brasil, Canadá, Estados Unidos e Austrália, além de ter exposto individual e colectivamente em lugares como Lisboa, Paris, Porto, Badajoz, Cáceres, Estremoz, Figueira da Foz, Almada, Tiblissi, Sevilha, etc.   

Em 1992 a Associação Portuguesa de Escritores atribuiu o prémio Revelação/Poesia ao seu livro “Os objectos inquietantes”. Autor ainda de “Assembleia geral” (1990), “Passagem de nível”, teatro (1992), “Flauta de Pan” (1998), “Os olhares perdidos” (2001), “O desejo dança na poeira do tempo”, “Escrita e o seu contrário” (a sair).    

No Brasil foi editada em finais de 2006 uma antologia da sua obra poética e plástica (“Olhares perdidos”) organizada por Floriano Martins para a Ed. Escrituras. Pela mão de António Cabrita saiu em Moçambique (2008), “O armário de Midas”, estando para sair “Poemas dos quatro cantos”(antologia).       

Fez para a “Black Sun Editores” a primeira tradução mundial integral de “Os fungos de Yuggoth” de H.P.Lovecraft (2002), que anotou, prefaciou e ilustrou, o mesmo se dando com o livro do poeta brasileiro Renato Suttana “Bichos” (2005).  

Organizou, coordenou e prefaciou a antologia internacional “Poetas na surrealidade em Estremoz” (2007) e co-organizou/prefaciou ”Na Liberdade – poemas sobre o 25 de Abril”. 

Tem colaborado em  espaços culturais de vários países: “DiVersos” (Bruxelas/Porto), “Albatroz” (Paris), “Os arquivos de Renato Suttana”, “Agulha”, Cronópios, “Jornal de Poesia”, “António Miranda” (Brasil), Mele (Honolulu), “Bicicleta”, “Espacio/Espaço Escrito (Badajoz), “Bíblia”, “Saudade”, “Callipolle”, “La Lupe”(Argentina) “A cidade”, “Petrínea”, “Sílex”, “Colóquio Letras”, “Velocipédica Fundação”, “Jornal de Poetas e Trovadores”, “A Xanela” (Betanzos), “Revista 365”, “Laboratório de poéticas”(Brasil), “Revista Decires” (Argentina), “Botella del Náufrago”(Chile)...  

Prefaciou os livros “O pirata Zig-Zag” de Manuel de Almeida e Sousa, “Fora de portas” de Carlos Garcia de Castro, “Mansões abandonadas” de José do Carmo Francisco (Editorial Escrituras), “Estravagários” de Nuno Rebocho e “Chão de Papel” de Maria Estela Guedes (Apenas Livros Editora). 

Nos anos 90 orientou e dirigiu o suplemento literário “Miradouro”, saído no “Notícias de Elvas”. Co-coordenou “Fanal”, suplemento cultural publicado mensalmente no semanário alentejano ”O Distrito de Portalegre”, de Março de 2000 a Julho de 2003. 

Organizou, com Mário Cesariny e C. Martins, a exposição “O Fantástico e o Maravilhoso” (1984) e, com João Garção, a mostra de mail art “O futebol” (1995).  

Concebeu, realizou e apresentou o programa radiofónico “Mapa de Viagens”, na Rádio Portalegre (36 emissões) e está representado em antologias de poesia e pintura. O cantor espanhol Miguel Naharro incluiu-o no álbum “Canciones lusitanas”.  

Até se aposentar em 2005, foi durante 14 anos o responsável pelo Centro de Estudos José Régio, na dependência do município de Portalegre.  

É membro honorário da Confraria dos Vinhos de Felgueiras. Em 1992 o município da sua terra natal atribuiu-lhe o galardão de Cidadão Honorário e, em 2001, a cidade de Portalegre comemorou os seus 30 anos de actividade cívica e cultural outorgando-lhe a medalha de prata de Mérito Municipal.

Blog : Ablogando, em: http://ab-logando.blogspot.pt/

 
 
 

 

 

 




 



hospedagem
Cyberdesigner:
Magno Urbano