Nova Série

 
 

 

 

 

 

NICOLAU SAIÃO

Relações Brasil & Portugal
com um artigo do LUNÁRIO PARA 1990, de Mário Cesariny

Perguntas de Floriano Martins

1.
Diante da escassez das relações culturais entre Brasil e Portugal, o que tem falhado sistematicamente na efetivação de um diálogo entre as nossas culturas?

Respostas de ns

Creio que o problema depende dos que controlam e orientam os ritmos – e que velam ou desvelam, conforme os seus interesses específicos, o denominado facto cultural ou, por outras palavras se assim se quiser, o relacionamento cultural.
Ou seja: os Estados – não sejamos tolos ou, no mínimo, ingénuos – vêem o facto cultural, a Cultura, como um assunto precisamente de Estado. E dessa óptica, ou opção, ou posicionamento, decorre muito dum todo: a fabricação de ensejos e de protagonistas que servem fundamentalmente para essa mesma entidade (o Estado) tirar dividendos que, a seu ver, são muito legítimos e naturais. Como, em geral, ele vê nessa área apenas a oportunidade de ir existindo conforme à sua própria estrutura - tanto lhe faz, digamos lucidamente, que os protagonistas sejam de alto gabarito como não, o que é preciso é que façam parte da classe que põe e dispõe “culturalmente” e que sejam operosos e mexidos - à medida que o tempo corre, o pelotão e os sucessos vão-se desvanecendo e transformando naquilo que de facto corresponde ao seu real rosto enquanto “verbo de encher” o panorama: sombras voláteis que já animaram a festa, que já desempenharam o seu papel...e podem pois desaparecer no horizonte...
Enquanto o Estado não fizer o que deve, isto é: dar o dinheiro e ir-se embora, pois que a sua presença só estraga as ocasiões nobres e dignas – tudo continuará mal.
Por outro lado, pode dizer-se que é suficiente deixar-se o facto e o relacionamento cultural entregue a particulares? Não me parece, por esta razão: geralmente imersos num ambiente duvidoso, os ditos “operadores culturais” são em grande parte não mais que utilizadores sem grandeza, muitas vezes pequenos jogadores intelectuais (mesmo que medalhados em corridas de fundo ou estafetas pelos consabidos intelectuais orgânicos) sôfregos apenas de prebendas, notoriedades ou ocasiões dum protagonismo…cavalar – o qual seria muito legítimo se decorrente da verticalidade e da dignificação cultural, por outras palavras: da sageza, da alta qualidade e não dos companheirismos pessoais ou políticos.
Creio que o ambiente é um pouco como se a civilização dos dois lados do mar concebesse que está prestes a desaparecer e agisse desta forma: para quê estarmos a chatear-nos com isso da cultura real e aprofundada se, afinal, isto está de resto? Vamos mas é gozar o ar do dia e quem vier atrás que feche a porta...
Só assim se entende que sejam tão desajeitados, tão inábeis (ou serão apenas cínicos?) no estabelecimento dum são relacionamento inter-margens!
Brasil on the rocks – painel de cerâmica de ns
2. De que modo esta fenda que separa dois países que habitam a mesma língua se repercute, direta ou indiretamente, na área da poesia?

Acho que cria mundos virtuais, digamos, nessa área específica: repetem-se insaciavelmente os mesmos nomes, como locutores doudos que não soubessem esquadrinhar a realidade. Por ignorância, oportunismo, preguiça, falta de senso...?
E isso não tem desculpa...nem perdão. Lembremos a frase famosa e justíssima de Lautréamont: “Nem toda a água do mar será suficiente para lavar a mais pequena nódoa de sangue intelectual!”. Em relação a esses verdadeiros malandrins intelectuais, votemos-lhes, pelo menos, um trejeito de profundo desagrado!

3
. Na sua perspectiva, o que poderia ser feito para mudar esse panorama?

Deveria entregar-se a frequentação e a incursão no relacionamento intelectual, em primeiro lugar, a pessoas sérias e de alto talento – e não a meros cortesãos bem colocados nos níveis da árvore do poder ou do prestígio estruturado mediante o oportunismo ou o bem-jogar. Editarem-se, nesta área própria, autores pela sua qualidade e não pelas suas ligações interiores ou exteriores às personalidades ou aos areópagos que fazem a chuva e o bom tempo intelectual e cultural, quantas vezes com fraquíssima capacidade meteorológica... Ter-se da cultura uma opinião desenvolta e arejada e não ver-se nela um ensejo para fazer fins de meses...
Isto sou eu a sonhar...não acredito sinceramente que os que dispõem do poder estejam pelos ajustes.
Daí que nos reste apenas a possibilidade que inda que minúscula é a mais nobre, de irmos singrando como parentes pobres, desvalidos sim mas que são afinal donos do maior tesouro – que é o que parte do caracter íntegro e cabal de que só os velhacos podem blasonar.

Atalaião, 12 de Julho
nicolau saião


Adenda brasilina: um artigo do LUNÁRIO PARA 1990, de Mário Cesariny
 
 

Nicolau Saião – Monforte do Alentejo (Portalegre) 1946. É poeta, publicista, actor-declamador e artista plástico.  

Participou em mostras de Arte Postal em países como Espanha, França, Itália, Polónia, Brasil, Canadá, Estados Unidos e Austrália, além de ter exposto individual e colectivamente em lugares como Lisboa, Paris, Porto, Badajoz, Cáceres, Estremoz, Figueira da Foz, Almada, Tiblissi, Sevilha, etc.   

Em 1992 a Associação Portuguesa de Escritores atribuiu o prémio Revelação/Poesia ao seu livro “Os objectos inquietantes”. Autor ainda de “Assembleia geral” (1990), “Passagem de nível”, teatro (1992), “Flauta de Pan” (1998), “Os olhares perdidos” (2001), “O desejo dança na poeira do tempo”, “Escrita e o seu contrário” (a sair).    

No Brasil foi editada em finais de 2006 uma antologia da sua obra poética e plástica (“Olhares perdidos”) organizada por Floriano Martins para a Ed. Escrituras. Pela mão de António Cabrita saiu em Moçambique (2008), “O armário de Midas”, estando para sair “Poemas dos quatro cantos”(antologia).       

Fez para a “Black Sun Editores” a primeira tradução mundial integral de “Os fungos de Yuggoth” de H.P.Lovecraft (2002), que anotou, prefaciou e ilustrou, o mesmo se dando com o livro do poeta brasileiro Renato Suttana “Bichos” (2005).  

Organizou, coordenou e prefaciou a antologia internacional “Poetas na surrealidade em Estremoz” (2007) e co-organizou/prefaciou ”Na Liberdade – poemas sobre o 25 de Abril”. 

Tem colaborado em  espaços culturais de vários países: “DiVersos” (Bruxelas/Porto), “Albatroz” (Paris), “Os arquivos de Renato Suttana”, “Agulha”, Cronópios, “Jornal de Poesia”, “António Miranda” (Brasil), Mele (Honolulu), “Bicicleta”, “Espacio/Espaço Escrito (Badajoz), “Bíblia”, “Saudade”, “Callipolle”, “La Lupe”(Argentina) “A cidade”, “Petrínea”, “Sílex”, “Colóquio Letras”, “Velocipédica Fundação”, “Jornal de Poetas e Trovadores”, “A Xanela” (Betanzos), “Revista 365”, “Laboratório de poéticas”(Brasil), “Revista Decires” (Argentina), “Botella del Náufrago”(Chile)...  

Prefaciou os livros “O pirata Zig-Zag” de Manuel de Almeida e Sousa, “Fora de portas” de Carlos Garcia de Castro, “Mansões abandonadas” de José do Carmo Francisco (Editorial Escrituras), “Estravagários” de Nuno Rebocho e “Chão de Papel” de Maria Estela Guedes (Apenas Livros Editora). 

Nos anos 90 orientou e dirigiu o suplemento literário “Miradouro”, saído no “Notícias de Elvas”. Co-coordenou “Fanal”, suplemento cultural publicado mensalmente no semanário alentejano ”O Distrito de Portalegre”, de Março de 2000 a Julho de 2003. 

Organizou, com Mário Cesariny e C. Martins, a exposição “O Fantástico e o Maravilhoso” (1984) e, com João Garção, a mostra de mail art “O futebol” (1995).  

Concebeu, realizou e apresentou o programa radiofónico “Mapa de Viagens”, na Rádio Portalegre (36 emissões) e está representado em antologias de poesia e pintura. O cantor espanhol Miguel Naharro incluiu-o no álbum “Canciones lusitanas”.  

Até se aposentar em 2005, foi durante 14 anos o responsável pelo Centro de Estudos José Régio, na dependência do município de Portalegre.  

É membro honorário da Confraria dos Vinhos de Felgueiras. Em 1992 o município da sua terra natal atribuiu-lhe o galardão de Cidadão Honorário e, em 2001, a cidade de Portalegre comemorou os seus 30 anos de actividade cívica e cultural outorgando-lhe a medalha de prata de Mérito Municipal.

Blog : Ablogando, em: http://ab-logando.blogspot.pt/

 
 
 

 

 

 




 



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